Dieta cetogênica com pouquíssimas calorias pode ser vantajosa para o tratamento da síndrome do ovário policístico

Carla Nieto Martínez

Notificação

19 de julho de 2022

Estudo comparou os efeitos da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias com uma dieta padrão de baixa caloria sobre o peso e composição corporal, resistência insulínica, ovulação e hiperandrogenismo em uma população com obesidade e síndrome do ovário policístico. Os resultados foram apresentados no simpósio científico internacional New frontiers in scientific research, realizado recentemente na Espanha.

Disfunção do tecido adiposo, obesidade e síndrome do ovário policístico

Dra. Alessandra Gambineri/Fonte: Grupo Pronokal

A Dra. Alessandra Gambineri, Ph.D., professora associada do Dipartimento di Scienze Mediche e Chirurgiche (DIMEC) da Università di Bologna, na Itália, abordou a relação entre obesidade e a síndrome do ovário policístico, uma "doença crônica que atinge cerca de 10% das mulheres em idade fértil e tem fenótipos muito diversos, com características diferentes".

"A fisiopatologia da síndrome [do ovário policístico] é caraterizada pela interação de três fatores: excesso de androgênios, disfunção do tecido adiposo e resistência à insulina, que interagem entre si e são expressos de diferentes maneiras nos distintos fenótipos [da doença]", disse a médica.

A especialista ressaltou que a disfunção do tecido adiposo é muito importante nessa síndrome, pois está associada a fatores secretivos, como ácidos graxos livres, citocinas pró-inflamatórias, algumas adipocinas que promovem resistência à insulina, glicocorticoides, androgênios e estresse oxidativo.

"Além disso, o estresse oxidativo que caracteriza a síndrome do ovário policístico se expressa ainda mais na obesidade, o que também produz hipotoxicidade no ovário, que agrava a função da ovulação. Nesse contexto, a dieta cetogênica com pouquíssimas calorias pode ser útil de várias maneiras: redução do peso, favorecendo a perda de massa gorda, principalmente visceral e abdominal; redução da lipotoxicidade; e melhora do estado inflamatório, da hiperinsulinemia e da resistência à insulina."

Esta foi a linha seguida pelo estudo, cujos resultados a Dra. Alessandra apresentou no evento, que objetivou analisar os efeitos da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias sobre as manifestações da síndrome do ovário policístico no fenótipo da obesidade.

"O objetivo foi comparar os efeitos da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias e da dieta hipocalórica convencional (grupo de controle) sobre o peso corporal, a resistência à insulina, o ciclo menstrual, a ovulação, a morfologia ovariana e o hiperandrogenismo em uma população de 30 mulheres com obesidade, síndrome do ovário policístico e resistência à insulina."

As participantes do estudo tinham entre 18 e 45 anos de idade e haviam sido diagnosticadas com síndrome do ovário policístico, de acordo com os critérios dos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Elas foram randomizadas para dois grupos (15:15): experimental (dieta cetogênica com pouquíssimas calorias) e controle (dieta hipocalórica).

"As mulheres designadas para o grupo experimental seguiram a etapa cetogênica [com pouquíssimas calorias] durante oito semanas e então passaram para o segundo estágio, adotando a dieta hipocalórica convencional por mais oito semanas, enquanto o grupo de controle seguiu a dieta hipocalórica convencional durante as 16 semanas [do estudo]".

Os resultados primários foram alterações no peso e na composição corporal, especificamente massa gorda e massa magra, medidas por bioimpedância. "Como resultados secundários, foram consideradas alterações observadas em diferentes aspectos: distribuição da gordura abdominal, parâmetros metabólicos, ovulação, morfologia ovariana, hirsutismo, hiperandrogenismo, bem-estar psicológico e sofrimento psicológico. Também analisamos como o estroma ovariano, a área onde os androgênios são sintetizados, tinha sido reduzido".

Os autores do estudo observaram que, enquanto o índice de massa corporal foi reduzido em ambos os grupos, essa redução foi maior em quem seguiu a dieta cetogênica com pouquíssimas calorias. Houve perda significativa do peso em ambos os grupos, 12,4 kg versus 4,7 kg. Também foram observadas diferenças significativas em outros parâmetros: circunferência da cintura (- 8,1% no grupo do estudo em comparação a - 2,2% no grupo de controle), massa gorda (- 15,1% vs. - 8,5%) e testosterona livre (- 30,3% vs. + 10,6%).

Quanto à insulina, só houve redução no grupo experimental.

"Um fato muito importante é que no hiperandrogenismo, especialmente no que diz respeito à testosterona livre, houve uma redução significativa apenas no grupo da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias e esta redução foi particularmente evidente na primeira parte do estudo, coincidindo com o período cetogênico. A razão para este efeito é o aumento significativo na concentração de globulinas de ligação hormonal sexual, as SHB6, que se ligam à testosterona presente no sangue feminino, promovendo a redução da testosterona livre, efeito muito importante considerando que esta síndrome é um transtorno androgênico e também que os tratamentos atuais para a síndrome do ovário policístico não reduzem a testosterona livre tanto quanto este método dietético o faz", disse a Dra. Alessandra.

Para a especialista, dentre todos esses efeitos positivos nessas pacientes, talvez o mais importante seja a grande melhora que ocorre na ovulação. "Ao início do estudo, apenas 38,5% das participantes do grupo experimental e 14,3% das do grupo de controle tinham ciclos ovulatórios. Após a intervenção, 84,6% conseguiram ovular em comparação a 35,7% que alcançaram esse objetivo no outro grupo".

Dra. Alessandra sugere que este método é "válido para reduzir a massa gorda e melhorar rapidamente o hiperandrogenismo e a disfunção ovulatória em mulheres com obesidade e síndrome do ovário policístico".

Melhora do perfil glicêmico... e reversão do diabetes tipo 2?

A Dra. Daniela Sofrà, endocrinologista especializada em diabetologia da Clinique de la Source, na Suíça, revisou as evidências atualmente disponíveis sobre o papel da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias para tratar o diabetes tipo 2.

"Agora é o momento de repensar o tratamento do diabetes e concentrar esforços no tratamento da obesidade como fator associado. Uma das hipóteses com as quais se trabalha neste sentido é a do duplo ciclo, que postula que o diabetes tipo 2 é o resultado da esteatose hepática, que por sua vez, se associa à resistência à insulina com disfunção pancreática".

Dra. Daniela acrescentou que há um estudo que documenta pela primeira vez a reversibilidade da morfologia do pâncreas diabético após uma restrição calórica com dieta cetogênica com pouquíssimas calorias”. [2] A razão para esse efeito é o uso de gordura visceral e intra-hepática, o que pode levar à remissão da manifestação clínica do diabetes tipo 2, entendendo assim a definição da American Diabetes Association (ADA) de hemoglobina glicada < 6,5% sem tratamento farmacológico".

Em particular, os resultados desta pesquisa mostraram que após a dieta cetogênica com pouquíssimas calorias e ter alcançado perda de 15% de peso (média da perda de peso das participantes), os níveis de glicose hepática retornaram aos níveis normais em sete dias e a função das células beta voltou a ser quase normal em oito semanas.

“Estudos posteriores demonstraram a durabilidade da remissão do diabetes tipo 2 por reativação da função secretora de insulina das células beta que tinham sido desdiferenciadas pelo excesso crônico de nutrientes". Especificamente, seis em cada dez pacientes mantiveram hemoglobina glicada < 6% após seis meses sem a necessidade de tratamento farmacológico", acrescentou.

A especialista destacou também que a probabilidade de conseguir a remissão é determinada principalmente pela duração da doença: "os anos de diabetes são um dos principais preditores da resposta que a paciente vai ter com esta intervenção alimentar. Estudos demonstraram que a remissão é possível para os pacientes com diabetes há menos de seis anos, embora outros estudos sugiram que a remissão pode ser alcançada com até dez anos de doença".

Com base nestes dados, Dra. Daniela enfatizou os efeitos pleiotrópicos da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias no controle glicêmico, favorecendo a possível remissão de diabetes ou redução dos medicamentos, bem como a redução do índice HOMA-IR (resistência à insulina) e de circunferência abdominal em pacientes com diabetes tipo 2.

Potencial tratamento da esteatose hepática não alcoólica

A terceira comorbidade da obesidade que pode se beneficiar da dieta cetogênica com pouquíssimas calorias é a esteatose hepática ou doença hepática gordurosa não alcoólica, disse o Dr. Hardy Walle, especialista em medicina interna e diretor e fundador do centro Bodymed AG em Kirkel na Alemanha, e um dos autores desta pesquisa.

"Pesquisas recentes mostram que a gordura ectópica e, em particular, a doença hepática gordurosa não alcoólica podem ser consideradas causa – ou pelo menos uma das causas – da maioria das doenças que atingem a população em decorrência do sobrepeso e da obesidade, ao ponto de alguns autores terem afirmado que, sem esteatose hepática não há diabetes tipo 2", destacou o médico.

Dr. Hardy indicou que entre 30% e 40% da população adulta tem esteatose hepática não alcoólica, percentual que aumenta consideravelmente nas pessoas com obesidade, alcançando a prevalência de 70% e aumentando, no caso do diabetes tipo 2, para quase 90%. "Mesmo ter o peso normal não exclui a esteatose hepática; na verdade, cerca de 15% das pessoas com esteatose hepática não alcoólica não têm sobrepeso".

Em um cenário no qual não existem medicamentos aprovados para o tratamento da esteatose hepática (a abordagem convencional atual se concentra nas intervenções do estilo de vida), uma dieta hipocalórica de curto prazo (ou jejum hepático) é considerada um método eficaz para tratar este quadro. Como demonstrado por um estudo do Universität des Saarlandes na Alemanha, comentado pelo especialista para ilustrar esta declaração.

"Os participantes (60 pacientes com esteatose hepática) seguiram uma dieta hipocalórica (menos de 1.000 kcal/dia) por 14 dias com uma fórmula rica em proteínas e fibras especialmente criada para o tratamento da esteatose hepática não alcoólica. A elastografia (Fibroscan) foi então feita com a avaliação do parâmetro de atenuação controlada para quantificar a esteatose hepática. [3] Os resultados mostraram não apenas melhora significativa nos parâmetros da esteatose hepática não alcoólica, como também melhora significativa de todos os parâmetros metabólicos relevantes (lipídios séricos, enzimas hepáticas)", explicou Dr. Hardy.

"Essas evidências nos levam a afirmar que o conceito de jejum hepático (por meio da dieta hipocalórica) é um ponto de referência para um tratamento futuro da esteatose hepática não alcoólica, concluiu o especialista.

O estudo reportado neste artigo foi realizado em colaboração com o Grupo Pronokal (Nestlé Health Science). As Dras. Alessandra Gambineri e Daniela Sofrà e o Dr. Hardy Walle informaram não ter conflitos de interesses.

Acompanhe Carla Nieto, colaboradora do Medscape em espanhol e autora deste artigo, no Twitter: @carlanmartinez .

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