Temas mais buscados em julho de 2022: Estatinas

Ryan Syrek

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22 de julho de 2022

Ao final de cada semana nós identificamos o tema mais buscado no site do Medscape, procuramos compreender o que motivou a tendência e então compartilhamos um breve resumo sobre o tema acompanhado de um infográfico. Dúvidas ou sugestões? Entre em contato conosco peloTwitterou peloFacebook 

As estatinas são hipolipemiantes que se classificam entre os medicamentos mais prescritos no mundo. Como tal, qualquer notícia relacionada a seu uso é tipicamente recebida com grande interesse. Questões sobre novas diretrizes, uma declaração científica sobre intolerância às estatinas e estudos recentes que exploram as repercussões do seu uso em várias doenças além das cardíacas tornaram mais uma vez as estatinas o tema clínico mais importante da semana. A prevalência global de esteatose hepática não alcoólica tem aumentado numa velocidade alarmante. Agora, novos achados sugerem que estatinas podem ser benéficas para tratar a esteatose hepática não alcoólica.

Pesquisas apresentadas no International Liver Congress anual utilizaram dados do estudo de idosos de Roterdã para analisar os possíveis benefícios das estatinas para as pessoas com esteato-hepatite não alcoólica. Além da redução da incidência de esteatose hepática não alcoólica, observando-se apenas um subconjunto de pacientes com doença comprovada por biópsia, o uso de estatina foi associado a uma redução de 45% da incidência do quadro (razão de chances de 0,55; p = 0,031).

Os pesquisadores determinaram que as estatinas podem estar reduzindo a formação de gotículas lipídicas e influenciando a expressão de importantes genes inflamatórios. Os especialistas sugerem que é necessário haver mais pesquisas.

"Até onde sei, não há evidências robustas de grandes ensaios clínicos randomizados sugerindo que as estatinas reduzam as chances de esteatose hepática não alcoólica, ou melhore seus marcadores alternativos, como os níveis da aminotransferase alanina ou da gama-glutamiltransferase", comentou o médico Dr. Naveed Sattar, Ph.D., em uma entrevista.

Além dos potenciais benefícios das estatinas, a intolerância continua a ser preocupante. A US National Lipid Association (NLA) publicou recentemente uma nova declaração científica sobre conduta para os pacientes com intolerância às estatinas. A declaração observa que, embora as estatinas costumem ser bem toleradas, há relatos de intolerância em 5% a 30% dos pacientes. Para identificar um esquema tolerável, a National Lipid Association recomenda o uso de várias estratégias (diferentes estatinas, doses e/ou intervalo posológico). Para comprovar a intolerância, deve-se tentar no mínimo duas estatinas, uma das quais na dose diária mais baixa aprovada. Nos pacientes intolerantes de risco alto e muito alto, a declaração sugere o início do tratamento sem estatinas, enquanto outras tentativas são feitas para identificar uma estatina tolerável, a fim de limitar o tempo de exposição a níveis elevados de lipoproteínas aterogênicas.

Recentemente, um conjunto diferente de recomendações sobre estatinas causou uma forte reação. Um estudo constatou que novos limiares de risco utilizados para orientar o tratamento com estatinas na prevenção primária da doença cardiovascular aterosclerótica nas diretrizes de 2021 da European Society of Cardiology (ESC) reduzem drasticamente a elegibilidade do uso de estatinas nos países de baixo risco. O editorial que acompanhou os resultados descreve-os como "alarmantes" e afirma que, se confirmado, as diretrizes devem ser revisadas para "prevenir um retrocesso no uso de estatinas na prevenção primária". Para o estudo, Mortensen e colaboradores compararam o desempenho clínico das diretrizes de 2021 da European Society of Cardiology às das sociedades American College of Cardiology (ACC)/American Heart Association (AHA), United Kingdom–National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e as diretrizes europeias de 2019 numa coorte europeia contemporânea de 66.909 participantes aparentemente saudáveis do Copenhagen General Population Study.

Durante o acompanhamento de nove anos, foi observada uma faixa de 2.962 a 4.277 eventos cardiovasculares não fatais e fatais. Os resultados mostraram que, embora as diretrizes da European Society of Cardiology introduzam um modelo de risco novo e melhorado, conhecido como SCORE2, as recomendações atualizadas específicas para a idade reduziram drasticamente a elegibilidade da recomendação de classe I para o tratamento com estatinas para apenas 4% pessoas entre 40 e 69 anos de idade e menos de 1% das mulheres. Isto vai de encontro às diretrizes europeias de 2019, bem como com às atuais diretrizes UK-NICE e US-ACC/AHA que trazem fortes recomendações de classe I para 20%, 26% e 34% das pessoas, respectivamente, com melhor desempenho clínico tanto entre os homens como entre as mulheres, informaram os autores.

Mesmo quando as estatinas são claramente indicadas, fazer com que os pacientes as tomem pode ser difícil. Os resultados de mais de 600.000 estadunidenses com seguro saúde particular e diagnóstico de doença cardiovascular aterosclerótica mostraram:

  • Apenas um em cada cinco pacientes (22,5%) estavam tomando altas doses de estatina

  • 27,6% estavam tomando doses baixas ou moderadas de estatina

  • Metade (49,9%) não tomava.

As mulheres tiveram 30% menos probabilidade do que os homens de receberem prescrição de estatina (razão de chances de 0,70). Uma alta pontuação no índice de comorbidade de Charlson (razão de chances de 0,72) e doença arterial periférica (razão de chances de 0,55) também reduziu as chances de prescrição de estatina. Entre os usuários de estatinas, os pacientes de meia-idade (razão de chances de 0,83) e mais velhos (razão de chances de 0,44) apresentaram menor probabilidade de tomar altas doses de estatina, assim como as mulheres (razão de chances de 0,68) e os pacientes com doença arterial periférica (razão de chances de 0,43). Contudo, ter tido uma consulta com um cardiologista nos 12 meses anteriores aumentou a probabilidade de um paciente estar tomando altas doses de estatina (razão de chances de 1,21), bem como o uso de outros hipolipemiantes para a redução da lipoproteína de baixa densidade (LDL) (razão de chances de 1,44).

Os pacientes que tomam estatinas podem ter outro benefício: menor risco de hospitalização por covid-19. A análise de dados de mais de dois milhões de pacientes que tomam estatinas revelou risco 16% menor de hospitalização por covid-19 em comparação a controles pareados (razão de risco ajustada de 0,84). Os resultados foram semelhantes para óbito hospitalar por covid-19.

De controvérsias sobre diretrizes a potenciais efeitos preventivos na esteatose hepática não alcoólica e na covid-19, as notícias recentes sobre as estatinas geraram muito interesse. Como foi o caso no ano passado, quando pesquisas semelhantes levaram a uma maior atenção, estes medicamentos são novamente o tema clínico mais buscado da semana.

Leia mais sobre medicamentos hipolipemiantes.

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