Temas mais buscados em julho de 2022: Demência

Ryan Syrek

Notificação

15 de julho de 2022

Ao final de cada semana nós identificamos o tema mais buscado no site do Medscape, procuramos compreender o que motivou a tendência e então compartilhamos um breve resumo sobre o tema acompanhado de um infográfico. Dúvidas ou sugestões? Entre em contato conosco pelo Twitter ou pelo Facebook

Em 2019, o número estimado de casos de demência no mundo inteiro totalizou 57,4 milhões. Espera-se que esse número seja quase o triplo em 2050. Dado o aumento previsto da prevalência e a falta de opções terapêuticas significativas, a pesquisa sobre potenciais fatores de risco para ajudar a evitar a doença está sendo acompanhada de perto. Recentemente, foram exploradas pesquisas sobre sua associação ao herpes-zóster (veja o infográfico), ao isolamento social e ao uso de determinados medicamentos. Estes achados fizeram com que a demência se tornasse mais uma vez o tema mais buscado da semana.

Utilizando prontuários médicos dinamarqueses, os pesquisadores identificaram 247.305 pessoas que tinham buscado atendimento hospitalar por herpes-zóster ou que receberam antiviral para tratar o herpes-zóster durante um período de 20 anos. Estes pacientes foram a seguir pareados a 1.235.890 pessoas que não tinham herpes-zóster. Contrariamente ao previsto, a infecção por herpes-zóster foi associada a uma pequena (7%) diminuição do risco relativo de demência por todas as causas durante o acompanhamento (razão de risco de 0,93; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,90 a 0,95). Não foi encontrado aumento do risco de demência em longo prazo nas análises de subgrupos, exceto possivelmente entre aqueles com infecção do sistema nervoso central (razão de risco de 1,94; IC de 95%, de 0,78 a 4,80). No entanto, a fração de demência atribuível a esta rara complicação foi baixa (< 1%), sugerindo que a vacinação universal tem um potencial limitado para reduzir o risco de demência. Mesmo assim, os pesquisadores sugerem que a vacinação contra o herpes-zóster deve ser incentivada entre os idosos, pois pode prevenir complicações.

Um fator de risco de demência recentemente confirmado é o isolamento social. Os resultados de um grande estudo epidemiológico prospectivo, mostraram que as pessoas que referiram se sentir socialmente isoladas tiveram pior função cognitiva no início do estudo e foram mais propensas a ter demência. Os pesquisadores analisaram dados de 462.619 pessoas (média de idade de 57 anos) em todo o Reino Unido. Ao início do estudo 9% informaram estar socialmente isolados e 6% tinham queixa de solidão. Em comparação aos controles, os que se sentiam isolados e/ou solitários tiveram pior função cognitiva ao início do estudo após o controle por idade, etnia, sexo, escolaridade e renda. Durante uma média de acompanhamento de 11,7 anos, 4.998 participantes tiveram diagnóstico de demência. A incidência foi 26% maior entre aqueles que referiram isolamento social (razão de chances ajustada de 1,26; IC de 95%, de 1,15 a 1,37). A ressonância magnética de cerca de 32.263 participantes, feita cerca de nove anos após o início do estudo, revelou que os que sofriam mais isolamento social tinham maior probabilidade de ter menor volume de substância cinzenta (volume de substância cinzenta) nas regiões do cérebro ligadas ao aprendizado e à memória. Não foi encontrada nenhuma relação entre os sentimentos relatados de solidão e a demência ou o volume de substância cinzenta, o que contradiz os resultados anteriores.

Os resultados foram divididos em relações com duas classes diferentes de medicamentos. Um estudo recente constatou que o uso de opioides por idosos está associado a um risco quase 40% maior de demência. A pesquisa foi feita com 91.307 cidadãos israelenses com 60 anos de idade ou mais. Durante o estudo, 3,1% dos participantes foram expostos a opioides com média de idade de 73,94 anos e 5,8% evoluíram com demência com média de idade de 78,07 anos. O risco de incidência de demência foi significativamente maior entre as pessoas expostas aos opioides em comparação às pessoas não expostas na faixa etária de 75 a 80 anos (razão de risco ajustada de 1,39; IC de 95%, de 1,01 a 1,92; estatística Z = 2,02, p < 0,05). 

As notícias foram muito melhores no que diz respeito à demência e à utilização de inibidores da bomba de prótons, mesmo que subsistam dúvidas sobre potenciais associações. Em achados de um estudo apresentado em 23 de maio na Digestive Disease Week (DDW) 2022, não foi encontrada nenhuma associação entre o uso de inibidores da bomba de prótons ou antagonistas dos receptores histamínicos H2 e maior probabilidade de ocorrência de demência, doença de Alzheimer ou declínio cognitivo em pessoas com mais de 65 anos. Os dados da pesquisa são provenientes do ASPREE, um grande estudo sobre o ácido acetilsalicílico com 18.846 participantes acima dos 65 anos nos Estados Unidos e na Austrália. Durante 80.976 pessoa-anos de acompanhamento, foram identificados 566 casos de abertura do quadro de demência. O uso de inibidores da bomba de prótons ao início do estudo, em comparação a não usar, não foi associado à ocorrência de demência (razão de risco de 0,86; IC de 95%, de 0,70 a 1,05).

Um potencial meio de identificar as pessoas em risco de demência pode ocorrer por exames da densidade mineral óssea. Em uma análise de mais de 900 participantes do estudo, mulheres na sétima década de vida com calcificação na aorta abdominal mais avançada observada em imagens laterais da coluna durante a densitometria óssea apresentaram maior risco de demência. Em comparação às mulheres com pouca calcificação da aorta abdominal, aquelas com calcificação da aorta abdominal moderada e extensa apresentaram maior probabilidade de hospitalização por demência no final da vida (9,3% baixa, 15,5% moderada e 18,3% extensa) e óbito (2,8%, 8,3% e 9,4%, respectivamente). Após o ajuste multivariável, as mulheres com calcificação moderada da aorta abdominal tiveram aumento do risco relativo de duas a três vezes de demência tardia ou morte em comparação às mulheres com pouca calcificação da aorta abdominal. Os pesquisadores sugerem que a densitometria óssea pode ser uma forma inovadora, não invasiva e adaptável de identificar mulheres mais velhas em risco de demência.

Além de novos meios de determinação do risco, a preocupação é grande, porque muitos estadunidenses não estão tomando precauções suficientes para evitar a demência, pela redução dos fatores de risco modificáveis conhecidos. Os dados dos US Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que quase metade de todos os adultos nos EUA com 45 anos de idade ou mais tem fatores de risco modificáveis para a doença de Alzheimer e demências relacionadas, como hipertensão arterial sistêmica, baixos níveis de atividade física e obesidade. Mais de um terço (35%) dos adultos tinham obesidade, 19% tinham diabetes, 18% tinham depressão, 15% fumavam e 10% consumiam grandes quantidades de bebidas alcoólicas. Mais de 1 em 10 (11,3%) adultos pesquisados referiram declínio cognitivo subjetivo, indicador precoce de possível doença de Alzheimer e demências relacionadas no futuro. A prevalência do declínio cognitivo subjetivo aumentou de cerca de 4% entre adultos sem fatores de risco modificáveis para a doença de Alzheimer e demências relacionadas para 25% entre aqueles com quatro ou mais fatores de risco.

Embora o interesse na demência seja sempre grande, as pesquisas recentes sobre seus fatores de risco aumentaram ainda mais. Do herpes-zóster à densitometria óssea, os principais achados de importantes novos estudos significativos resultaram no tema clínico mais buscado da semana.

Leia mais sobre demência.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....