Anorexia pode causar atrofia significativa de estruturas cerebrais essenciais

Megan Brooks

Notificação

5 de julho de 2022

Novo estudo de neuroimagem revela que a anorexia nervosa está associada a atrofia importante de estruturas cerebrais essenciais. Os resultados também indicam que a recuperação do peso corporal, mesmo quando discreta, reduza esses déficits.

As reduções da espessura cortical, dos volumes subcorticais e da área de superfície cortical foram “muito pronunciadas em pacientes abaixo do peso com anorexia aguda”, disse ao Medscape o Dr. Stefan Ehrlich, Ph.D., médico e coordenador do Centro de Pesquisa e Tratamento de Transtornos Alimentares da Technische Universität Dresden, na Alemanha.

No entanto, até mesmo o "ganho de peso parcial já trouxe uma certa normalização dessa atrofia. A partir disso, pode-se deduzir que uma normalização rápida ou precoce do peso também é muito importante para a saúde cerebral", disse o Dr. Stefan.

O estudo foi publicado on-line em 31 de maio no periódico Biological Psychiatry.

"Um alerta" 

Pesquisadores do consórcio internacional ENIGMA, que possui um grupo de trabalho dedicado aos transtornos alimentares, analisaram exames de ressonância magnética estrutural ponderados em T1 de quase 2 mil indivíduos com anorexia nervosa (incluindo aqueles em recuperação) e controles saudáveis em 22 locais do mundo.

Nos pacientes com anorexia nervosa, as reduções da espessura cortical, dos volumes subcorticais e, em menor grau, da área de superfície cortical, foram "consideráveis (d de Cohen de até 0,95), generalizadas e localizadas na mesma topografia das regiões centrais", eles relataram.

As reduções foram duas e quatro vezes maiores, respectivamente, do que as alterações no tamanho e no formato cerebrais, observadas em pacientes com outras doenças psiquiátricas, observaram os pesquisadores.

Observando o impacto negativo no cérebro da desnutrição relacionada à anorexia, esses déficits foram associados a um índice de massa corporal (IMC) mais baixo na amostra com anorexia nervosa, e foram menos graves em pacientes que recuperaram peso de forma parcial, o que indica que, com tratamento e suporte precoces e adequados, o cérebro pode se reparar, observaram os pesquisadores.

"Isso é um verdadeiro alerta, que mostra a necessidade de intervenções precoces em pessoas com transtornos alimentares", disse o Dr. Paul Thompson, Ph.D., autor do estudo e cientista-chefe do consórcio ENIGMA, em um comunicado à imprensa.

"A magnitude internacional deste trabalho é extraordinária. Cientistas de 22 centros em todo o mundo agruparam seus exames de neuroimagem para criar a representação mais detalhada até o momento de como a anorexia afeta o cérebro", acrescentou o Dr. Paul.

"As alterações cerebrais na anorexia foram mais graves do que em qualquer outro transtorno psiquiátrico que estudamos. A partir de agora, os efeitos de tratamentos e intervenções podem ser avaliados a partir desses novos mapas cerebrais como referência", ele observou.

Implicações clínicas imediatas

Solicitada a comentar o estudo, a médica Dra. Allison Eliscu, coordenadora da Divisão de Hebiatria do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Stony Brook University, nos Estados Unidos, disse que os achados têm implicações imediatas no atendimento clínico.

"Quando conversamos com nossos pacientes e seus responsáveis, muitos se concentram no que é visível, como, por exemplo, a aparência física. Enriquece muito o diálogo podermos dizer: você obviamente não pode ver essas alterações no seu cérebro, mas elas estão acontecendo e podem se tornar crônicas se você não começar a ganhar peso ou se você ganhar peso e depois perder novamente", disse a Dra. Allison ao Medscape.

Os achados, segundo ela, de fato realçam o que a anorexia pode causar no cérebro.

“Os adolescentes precisam saber que a anorexia pode, sem dúvidas, diminuir o tamanho de diferentes áreas cerebrais. Eles não estão apenas perdendo peso no abdome e nas coxas, também estão perdendo peso no cérebro, e isso é realmente preocupante”, disse a Dra. Allison.

O estudo não teve nenhum financiamento específico. Os autores e a Dra. Allison informaram não possuir conflitos de interesses. 

Biol Psychiatry. Publicado on-line em 31 de maio de 2022. Abstract.

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