A forma como tratamos a dor aguda pode estar muito errada

Emily Shiffer

Notificação

5 de julho de 2022

Em uma descoberta surpreendente, que contraria a medicina convencional, pesquisadores da McGill University, no Canadá, indicam que o uso de anti-inflamatórios como ibuprofeno ou ácido acetilsalicílico para o tratamento da dor pode acabar causando dor crônica mais adiante.

O artigo, publicado no periódico Science Translational Medicine , sugere que a inflamação ajude a resolver a dor aguda e evite que o quadro se torne crônico. O bloqueio da inflamação pode interferir nesse processo, levando a uma dor mais difícil de tratar.

“Aparentemente, o que a gente vem fazendo há décadas não está apenas errado, mas é diametralmente oposto [ao que deve ser feito]”, disse o autor sênior do estudo, Dr. Jeffrey Mogil, Ph.D., professor do Departamento de Psicologia da McGill University. "Não deveríamos bloquear a inflamação, deveríamos deixar a inflamação acontecer. É isso que impede a dor crônica."

Inflamação: analgésico da natureza

Procurando saber por que em algumas pessoas a dor desaparece e em outras o quadro se arrasta (e continua), os pesquisadores analisaram os mecanismos da dor tanto em humanos como em modelos murinos. Eles descobriram que os neutrófilos aparentemente desempenham um papel fundamental.

“Ao analisar os genes de pessoas que sofrem de lombalgia, observamos ativas mudanças genéticas ao longo do tempo entre aquelas cuja dor desapareceu”, disse a Dra. Luda Diatchenko, Ph.D., professora da faculdade de medicina e chefe de pesquisa de excelência em dor humana genética do Canadá na McGill. "Alterações nas células do sangue e na respectiva atividade pareceram ser o fator mais importante, especialmente nos neutrófilos."

Para testar essa associação, os pesquisadores bloquearam os neutrófilos nos modelos murinos e constataram que a dor persistiu duas a dez vezes mais tempo do que o normal. Os medicamentos anti-inflamatórios, apesar de proporcionarem alívio em curto prazo, apresentaram o mesmo efeito de prolongamento da dor – embora a injeção de neutrófilos nos murinos pareça ter impedido que isso acontecesse.

Os achados são subsidiados por uma análise à parte, feita com 500 mil pessoas no Reino Unido, cujos resultados revelaram que pessoas em uso anti-inflamatórios para controle da dor tiveram maior probabilidade de apresentar quadros de dor de dois a dez anos mais tarde.

“A inflamação ocorre por uma razão”, disse o Dr. Jeffrey, “e pelo visto é perigoso interferir nisso”.

Repensando como tratamos a dor

Em um quadro de inflamação, os neutrófilos são rápidos a chegar, logo após a lesão – exatamente quando muita gente busca um medicamento para a dor. Esta pesquisa sugere que talvez seja melhor não bloquear a inflamação e, em vez disso, deixar os neutrófilos "fazerem seu trabalho". Tomar um analgésico que alivie a dor sem bloquear os neutrófilos, como o paracetamol, pode ser melhor do que tomar anti-inflamatórios ou corticoides, explicou o Dr. Jeffrey.

Ainda assim, embora os achados sejam convincentes, são necessários ensaios clínicos para comparar diretamente os anti-inflamatórios com outros analgésicos, disseram os pesquisadores. A pesquisa em tela também pode lançar as bases para o desenvolvimento de novos medicamentos para pacientes com dor crônica, disse ele.

"Nossos dados sugerem fortemente que os neutrófilos atuem como analgésicos, o que pode ser útil para o desenvolvimento de medicamentos para analgesia", destacou. "E, claro, precisamos de novos analgésicos".

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