Alergia a proteína do leite: um diagnóstico frequentemente incorreto

Lorraine L. Janeczko

Notificação

1 de julho de 2022

Muitos lactentes, em alguns países, são diagnosticados erroneamente com alergia a proteína do leite de vaca, ovelha ou cabra, e recebem prescrições de fórmulas infantis especializadas de forma desnecessária, de acordo com um consenso.

"O diagnóstico casual de alergia a proteína do leite é comum em algumas regiões e pode prejudicar mães e lactentes", escreveram os autores no periódico Clinical & Experimental Allergy. "Essas novas recomendações (resultantes de um consenso) sobre a detecção e o tratamento seguros da alergia a proteína do leite em crianças menores de dois anos visam reduzir os danos associados ao diagnóstico casual de alergia a proteína do leite".

"As orientações, desenvolvidas por especialistas que não possuem relações financeiras com a indústria de fórmulas infantis, visam diminuir a ocorrência do diagnóstico casual de alergia a proteína do leite, além de incentivar o aleitamento materno e a redução do uso de fórmulas especializadas, em comparação com as diretrizes atuais", acrescentaram.

Até 1% dos lactentes europeus de até dois anos de idade são considerados alérgicos a proteína do leite de vaca. As prescrições de fórmulas infantis especializadas para lactentes alérgicos a proteína do leite de vaca (que não são amamentados) na Austrália, Inglaterra e Noruega aumentaram 10 vezes mais que o esperado.

A autora principal do estudo, a médica Dra. Hilary I. Allen, do National Heart and Lung Institute, no Reino Unido, em conjunto com colaboradores de vários continentes, desenvolveu orientações práticas para os profissionais da saúde sobre a detecção e o tratamento, de forma segura, da alergia a proteína do leite em lactentes.

Devido à escassez de evidências científicas de alta qualidade nessa área, os pesquisadores utilizaram o método Delphi para a elaboração de um consenso.

O estudo foi composto por duas rodadas de pesquisas anônimas para elaboração do consenso e uma reunião formal em 2021.

A equipe identificou especialistas de diversos contextos geográficos e culturais, pesquisando em bancos de dados médicos o termo "hipersensibilidade ao leite". Os pesquisadores solicitaram que esses especialistas recomendassem colegas e, além disso, entraram em contato com especialistas ligados a organizações profissionais internacionais, como o Conselho Internacional de Avaliação de Consultores em Lactação e sociedades vinculadas à Organização Mundial de Alergia.

Dentre os 17 participantes do estudo havia médicos clínicos e pesquisadores das áreas de clínica geral, acompanhamento domiciliar, apoio à lactação, obstetrícia, nutrição e pediatria relevantes da África, Ásia, Austrália, Europa, Oriente Médio e América do Norte. Foram excluídos do estudo os especialistas com conflitos de interesses recentes devido a vínculos com a indústria de fórmulas infantis. Cinco autores de diretrizes anteriores sobre alergia a proteína do leite e sete pais contribuíram com comentários.

Em cada rodada de pesquisa, os participantes utilizaram uma escala pontuada de um a nove para classificar a importância de cada afirmação proposta. Essas afirmações abordavam a prevenção do diagnóstico casual ou da falta de diagnóstico, o apoio às lactantes e o papel das fórmulas infantis.

Com base no número total de pontos, cada afirmação foi classificada como "essencial", "recomendada", "sem consenso" ou "excluída" por irrelevância.

Os especialistas concordaram em 38 pontos essenciais em diversas categorias, entre eles:

  • A restrição alimentar materna não costuma ser necessária para o tratamento da alergia a proteína do leite

  • Em lactentes com sintomas crônicos que estiverem em aleitamento exclusivo, o diagnóstico de alergia a proteína do leite deve ser considerado apenas em raras circunstâncias 

  • Geralmente, não há necessidade de considerar o diagnóstico de alergia a proteína do leite em casos de alterações das fezes, seletividade alimentar ou episódios ocasionais de pequena quantidade de sangue nas fezes, desde que essas alterações não estejam relacionadas temporalmente com a ingestão de proteína do leite

As recomendações do consenso forneceram critérios mais restritivos do que as diretrizes anteriores para detecção da alergia a proteína do leite, redução das restrições alimentares maternas e menor uso de fórmula infantil especializada.

Em meio à escassez de fórmula infantil nos Estados Unidos, um estudo oportuno

A enfermeira pediátrica Jodi A. Shroba, mestre em enfermagem, certificada em práticas avançadas de enfermagem e coordenadora do Programa de Alergia Alimentar do hospital Children's Mercy Kansas City, nos Estados Unidos, viu com bons olhos o engajamento de especialistas de diversas áreas mostrado no estudo e a prevenção do viés induzido pelas empresas fabricantes de fórmulas infantis.

Jodi A. Shroba

"As alergias alimentares receberam muita atenção ultimamente, especialmente em sites e mídias sociais", escreveu Jodi (que não participou do estudo) em um e-mail para o Medscape. "Infelizmente, muitas dessas informações estão incorretas e podem levar a mal-entendidos e diagnósticos errôneos."

"Esse estudo ajuda a orientar os profissionais de saúde através da diferenciação dos sinais e sintomas da alergia a proteína do leite, que são preocupantes, em relação aos sinais e sintomas normais do lactente", disse a enfermeira. "Ele pode ajudar os profissionais a discernir em que momento os exames, dietas restritivas e mudanças nas fórmulas são justificados.”

"Essas orientações enfatizam a reprodutibilidade e a especificidade dos sinais e sintomas, elementos-chave para um diagnóstico de alergia alimentar", explicou. "Eliminando o diagnóstico desnecessário da alergia a proteína do leite, podemos manter os lactentes em dietas adequadas para sua idade, tais como o aleitamento materno ou fórmulas lácteas. O diagnóstico adequado também pode reduzir a tensão financeira desnecessária relacionada às fórmulas especializadas, o estresse familiar em relação à alimentação e a chance de prescrição de uma dieta restritiva para a mãe lactante."

O estudo será útil para várias categorias de profissionais de saúde, disse em um e-mail a médica Dra. Jennifer Anne Dantzer, professora assistente de pediatria da Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos.

Dra. Jennifer Anne Dantzer

"Com a atual escassez de fórmulas, talvez nunca tenha havido um momento tão importante para se realizar esse estudo e fornecer orientações adicionais sobre quem precisa ou não de uma fórmula especial", observou a Dra. Jennifer, que também não participou do estudo. "Um diagnóstico de alergia a proteína do leite impacta a criança e a família, por isso é muito importante evitar o diagnóstico casual e apoiar a mãe que está amamentando."

"Esses achados devem reafirmar que restrições alimentares para mães lactantes não são necessárias na maioria das crianças com alergia a proteína do leite", disse a médica. "Se houver a suspeita de alergia à proteína do leite, a criança deverá ser encaminhada para um alergologista."

Os autores recomendam pesquisas posteriores sobre a segurança e a eficácia do uso das orientações do consenso na prática clínica.

Um dos coautores do estudo relatou relações financeiras com uma empresa de biotecnologia. A Dra. Hilary I. Allen, os demais coautores, a enfermeira Jodi A. Shroba e a Dra. Jennifer Anne Dantzer informaram não ter conflitos de interesses. O estudo foi financiado por meio de bolsas de pesquisa.

Clin Exp Allergy. Publicado on-line em 26 de maio de 2022. Texto completo, material complementar

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