HPV: vacinação 'desmascara' lesões cervicais de cepas não cobertas pela vacina

M. Alexander Otto

Notificação

1 de julho de 2022

Vacinas contra o papilomavírus humano (HPV) são aclamadas como um sucesso: demonstram diminuir incidência de lesões cervicais associadas aos tipos de HPV cobertos pela vacina.

No entanto, novas evidências sugerem que a vacinação contra o HPV torne as pessoas vacinadas mais suscetíveis do que seus pares não vacinados aos genótipos de HPV não cobertos pela vacina.

Um especialista não envolvido na pesquisa disse que os novos dados "nos dizem para sermos um pouco cautelosos". Embora os tipos de HPV não cobertos pela vacina sejam mais raros e menos agressivos, eles ainda podem causar câncer.

Os dados são do Costa Rica HPV Vaccine Trial , que envolveu mais de 10.000 mulheres com idade entre 18 e 25 anos. A vacina contra o HPV utilizada no ensaio foi a Cervarix, da GlaxoSmith Kline, que cobre as duas principais causas de câncer do colo do útero (HPV 16 e 18) e fornece proteção parcial contra outros três genótipos.

Após um acompanhamento de 11 anos, entre as participantes vacinadas, houve excesso de lesões cervicais pré-cancerosas causadas por genótipos não cobertos pela vacina, resultando em eficácia vacinal negativa para essas variantes do HPV.

O aumento não foi suficiente para anular o benefício geral da vacinação quando todos os genótipos foram considerados, disseram os pesquisadores, liderados pela Dra. Jaimie Shing, Ph.D., que realiza pós-doutorado no National Cancer Institute, nos Estados Unidos.

As participantes vacinadas "ainda tiveram reduções absolutas de longo prazo em lesões de alto grau", apontaram.

A proteção efetiva "permaneceu considerável, enfatizando a importância da vacinação contra o HPV para a prevenção do câncer do colo do útero", concluiu a equipe.

Os achados foram publicados on-line em 13 de junho no periódico The Lancet Oncology.

Os resultados são provavelmente a primeira evidência até o momento de "desmascaramento clínico" com a vacinação contra o HPV, o que significa que a proteção contra as cepas cobertas pela vacina torna as pessoas mais propensas à infecção por outras variantes cancerígenas do HPV.

Esse fenômeno "poderia atenuar as reduções de longo prazo na doença de alto grau após a implementação bem-sucedida dos programas de vacinação contra o HPV", comentaram os pesquisadores.

Destaque para a necessidade de cautela

A mensagem principal do estudo é que "temos que ter cautela", destacou o Dr. Marc Steben, médico, copresidente da HPV Global Action e professor da University of Montreal's School of Public Health.

O Dr. Marc observou que a vacina para HPV Cervarix usada no ensaio clínico não é a vacina usada atualmente em países desenvolvidos.

A vacina padrão atual contra o HPV é a Gardasil 9 (Merck & Co), que oferece cobertura mais ampla contra nove tipos de HPV (tipos 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58).

Existem 12 principais genótipos cancerígenos de HPV, então o desmascaramento de outras cepas ainda é possível com a Gardasil 9, disse o médico.

Há outro problema, acrescentou o Dr. Marc. O sucesso das vacinações contra o HPV (redução de quase 90% no câncer invasivo do colo do útero naquelas que são vacinadas em idade jovem) levou a questões sobre o futuro papel do rastreamento de rotina do câncer do colo do útero.

"Algumas pessoas estão dizendo que, se atingirmos 90% de cobertura, podemos eliminar a transmissão comunitária e não precisar mais fazer o rastreamento”, disse ele.

Esses resultados do ensaio clínico "nos dizem para ter um pouco de cautela", continuou. Os tipos de HPV que são menos agressivos e mais raros que o HPV 16 e 18 "ainda podem causar câncer e podem estar lá e nos surpreender. Pode levar mais tempo do que pensávamos" para chegar ao ponto em que o rastreamento possa ser eliminado.

"Pode haver um pequeno problema se pararmos muito cedo", acrescentou.

Detalhes do estudo

Durante o período de 2004 a 2005, os pesquisadores designaram aleatoriamente 3.727 mulheres com idade entre 18 e 25 anos para receber Cervarix e 3.739 para um grupo de controle que recebeu a vacina contra hepatite A. Após quatro anos, o grupo de controle também recebeu a Cervarix e saiu do estudo. Elas foram substituídas por um grupo de controle não vacinado de 2.836 mulheres. O novo grupo de controle e o grupo de vacina contra o HPV original foram acompanhados por mais sete anos.

Entre o sétimo e o décimo primeiro anos do estudo, os pesquisadores identificaram 9,2 neoplasias intraepiteliais cervicais adicionais de grau 2 ou pior de tipos de HPV não cobertos pela Cervarix por 1.000 mulheres vacinadas em comparação com participantes não vacinadas. Isso corresponde a -71,2% de eficácia negativa da vacina contra lesões de grau 2 ou pior de tipos de HPV não cobertos pela vacina.

Houve 8,3 lesões intraepiteliais cervicais adicionais de grau 3 ou pior de cepas de HPV não cobertas pela vacina por 1.000 mulheres vacinadas em comparação com participantes não vacinadas, o que corresponde a -135% de eficácia negativa da vacina.

No geral, no entanto, houve um benefício líquido da vacinação, com 27 menos lesões de grau 2 ou pior quando todos os genótipos de HPV (cobertos ou não pela vacina) foram considerados por 1.000 mulheres vacinadas durante os 11 anos de acompanhamento.

Houve também 8,7 menos lesões de grau 3 ou pior em todos os genótipos por 1.000 mulheres vacinadas, mas o benefício não foi estatisticamente significativo.

Entre as limitações do estudo, a equipe não conseguiu avaliar o efeito do desmascaramento clínico no câncer do colo do útero, porque as mulheres foram tratadas para lesões cervicais de alto grau antes que os casos pudessem evoluir para câncer do colo do útero.

O ensaio clínico foi financiado pelo National Cancer Institute dos EUA e pelo NIH Office of Research on Women's Health. A GlaxoSmithKline forneceu a vacina Cervarix e apoiou aspectos do estudo. Dois autores são nomeados como inventores de vacinas contra HPV, cujas patentes pertencem ao governo americano, com licenças expiradas para a GlaxoSmithKline e a Merck & Co. O Dr. Marc Steben é conselheiro e palestrante de diversas empresas, entre elas a GlaxoSmithKline e a Merck & Co.

Lancet Oncol. Publicado em 13 de junho de 2022.  Abstract

O Dr. M. Alexander Otto é médico assistente com mestrado em ciências médicas e graduado em jornalismo pela Newhouse. É um premiado jornalista médico que trabalhou para diversos veículos de comunicação de grande porte antes de ingressar no Medscape e também é membro do MIT Knight Science Journalism. E-mail:  aotto@mdedge.com .

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