Tratamento para fertilização pode aumentar crises de cefaleia em pacientes com migrânea

Pauline Anderson

Notificação

28 de junho de 2022

Nova pesquisa sugere que procedimentos como fertilização in vitro ou congelamento de óvulos/embriões aumentem a frequência de cefaleia em mulheres com história de migrânea.

Os resultados preliminares de um estudo de coorte prospectivo mostram que, durante a realização da tentativa de fertilização, as participantes com história de migrânea tiveram mais crises de cefaleia do que as participantes sem história de migrânea.

Os achados ressaltam a importância de identificar e monitorar essas pacientes, disse o coautor do estudo, o Dr. Joseph Safdieh, médico, professor e vice-diretor de educação do Departamento de Neurologia da Weill Medical College da Cornell University, nos Estados Unidos.

"Os médicos devem instruir as mulheres com migrânea que estiverem realizando em terapia para infertilidade e monitorar a frequência das crises álgicas durante o tratamento; e, caso haja alterações, precisam ser proativos e garantir que as pacientes recebam as terapias disponíveis apropriadas, para que elas não sofram desnecessariamente", disse ao Medscape.

Os achados foram apresentados no 64º encontro científico anual da American Headache Society (AHS).

Mais difícil de gerenciar

Os hormônios desempenham um papel importante na fisiopatologia da migrânea em mulheres, e a flutuação dos níveis de estradiol ao longo do ciclo menstrual pode ter um impacto na frequência das crises.

Outros fatores passíveis de impactar essa frequência são: alimentação, estresse e prática de exercícios, disse o Dr. Joseph.

Além disso, a infertilidade é um problema cada vez mais comum entre as mulheres, em parte devido ao adiamento do momento da gestação, o que vem gerando um aumento da procura pela reprodução assistida. A obesidade, uma epidemia em diversos países, também pode desempenhar um papel na infertilidade, observou ele.

A coautora Jasmin M. Harpe, que à época fazia especialização em cefaleia na rede Mass General Brigham, nos EUA, e seus colaboradores, observaram empiricamente que, durante a fertilização in vitro (FIV), as mulheres referiam piora das crises álgicas e mais dificuldade de controlar a dor.

O Dr. Joseph pontuou que há poucos dados prospectivos, coletados de forma sistemática, para tentar compreender a relação entre migrânea e terapia de reprodução assistida.

Para o estudo, os pesquisadores rastrearam a presença de migrânea em mulheres que tinham um procedimento de fertilização agendado. As participantes responderam as questões sobre a ocorrência de náuseas, fotossensibilidade e atividades cotidianas da ferramenta de triagem ID Migraine e as questões da escala Depression, Anxiety and Stress (DASS 21).

O estudo incluiu 28 mulheres com migrânea e 42 sem a doença (média de idade: 37 anos), todas em vias de realizar FIV ou congelamento de óvulos/embriões. O Dr. Joseph observou que isso é "cerca de metade da nossa meta" de inscrição no estudo.

Cerca de 75% do grupo de pacientes com migrânea versus 65% do grupo de controle já haviam feito algum tratamento de fertilização antes; dentre estes subgrupos, 81% e 37%, respectivamente, tiveram cefaleia durante o procedimento de fertilização anterior.

Cerca de 77% do grupo com migrânea relatou migrânea menstrual versus 11% do grupo de controle.

Incômodo maior

O desfecho primário foi alteração na frequência das crises álgicas, verificada por meio da escala Headache-Attributed Lost Time 30 (HALT 30), uma versão da HALT 90. As pontuações foram registradas em três momentos: pré-tratamento (início do estudo), durante o tratamento e pós-tratamento.

De acordo com o Dr. Joseph, as participantes receberam injeções diárias de estrogênio para aumentar a produção de óvulos durante a fertilização. Quando os níveis de estrogênio estavam suficientemente altos, e o folículo maduro, as participantes receberam um "gatilho de ovulação", uma injeção de gonadotrofina coriônica humana (β-hCG, do inglês beta-human chorionic gonadotropin), que facilita a coleta do óvulo.

Os resultados mostraram que as pacientes com migrânea apresentaram incômodo associado à cefaleia significativamente maior do que as participantes sem a doença. No grupo com migrânea, a média de pontos obtidos na escala HALT 30 foi de 4,52 no pré-tratamento, 5,7 durante o tratamento e 6,95 no pós-tratamento. No grupo de controle, também houve aumento, porém, a evolução foi discreta, com pontuações inferiores a 1.

"As mulheres que fizeram o rastreio para migrânea claramente tiveram muito mais cefaleia durante o tratamento do que as que não passaram por nenhuma triagem", disse o Dr. Joseph. "Embora talvez pareça óbvio, isso ainda não havia sido formalmente avaliado ou descrito."

Houve uma tendência de aumento na frequência de cefaleia ao longo do tratamento no grupo com migrânea, no entanto, esse aumento não foi estatisticamente significativo, porque o poder estatístico do estudo foi insuficiente para detectar diferença, disse o pesquisador. Ainda assim, ele acredita que esse poder aumentará à medida que o número de participantes crescer.

A "dose cavalar" de estrogênio produz um "enorme pico" e a rápida queda do hormônio que ocorre em seguida pode ser responsável pelo agravamento da cefaleia durante a fertilização, disse o Dr. Joseph.

Cerca de 22% do grupo de controle tinha história de migrânea registrada em prontuário, mas o ID Migraine, que indaga sobre a doença apenas nos últimos três meses, não identificou tal informação. Os pesquisadores pretendem voltar a analisar os dados para determinar se isso interferiu nos resultados, relatou o Dr. Joseph.

Os autores também estão concluindo análises secundárias sobre alterações nos níveis de estresse, no estilo de vida e em outros parâmetros. Até o momento, os resultados mostram que o grupo com migrânea apresentou significativamente mais sintomas de ansiedade e estresse do que o grupo de controle.

Um primeiro passo?

Comentando sobre os achados para o Medscape, a Dra. Lauren Doyle Strauss, médica osteopata e professora associada de neurologia da Wake Forest University School of Medicine, nos EUA, disse que o novo estudo é muito bem-vindo.

Há tão poucos estudos relacionados a fertilidade, gestação ou lactação sendo feitos que fica difícil tirar conclusões sobre esses temas, disse a Dra. Lauren, que não participou da pesquisa.

Este novo estudo "é um primeiro passo, e é muito empolgante", disse ela.

A médica observou que as crises álgicas podem piorar com o tratamento para infertilidade, devido às intervenções e consultas necessárias, às preocupações com o futuro e ao fato de a paciente precisar lidar com o estresse e as emoções de ser infértil. "É um período muito desafiador, não apenas para as pacientes, mas para as famílias", comentou ela.

Algumas mulheres com migrânea podem apresentar alterações qualitativas nas dores. Por exemplo, podem ter "uma cefaleia estranha, intensa e longa" durante o tratamento de fertilização, disse a Dra. Lauren. Isso pode motivar uma investigação mais aprofundada, o que apenas aumenta o estresse e a incerteza da situação.

“Tratar a infertilidade é uma decisão muito séria, mas não queremos que alguém não o faça porque tem histórico de cefaleia ou migrânea”, concluiu.

O Dr. Joseph informou o recebimento de remuneração por serviços editoriais para a American Academy of Neurology e de royalties da Elsevier.

64º encontro científico anual da American Headache Society (AHS). OR-11, Scientific Session 2A. Apresentado em 11 de junho de 2022.

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