Colesterol residual melhora previsão do risco cardiovascular

Notificação

23 de junho de 2022

Inclusão do colesterol residual nos modelos de previsão das diretrizes pode melhorar a identificação das pessoas que mais se beneficiariam do tratamento com estatina para prevenção primária, sugere novo estudo.

O estudo, que acompanhou quase 42.000 pessoas na Dinamarca sem história de cardiopatia isquêmica, diabetes mellitus ou uso de estatina por mais de 10 anos, constatou que o aumento do colesterol residual reclassificou adequadamente até 40% de quem mais tarde evoluiu com infarto agudo do miocárdio e cardiopatia isquêmica.

"As implicações clínicas de nosso estudo significam que médicos e pacientes devem estar cientes dos níveis de colesterol residual para prevenir o risco de infarto agudo do miocárdio e cardiopatia isquêmica", concluíram os autores.

Os pesquisadores sugerem que a criação de um algoritmo de risco cardiovascular, contendo o colesterol residual junto com o colesterol LDL, ajudaria a identificar melhor as pessoas de alto risco que poderiam ser candidatas a tomar estatinas para prevenção primária.

Os autores observaram que os médicos são encorajados a avaliar o colesterol não HDL e/ou a apolipoproteína B em vez do colesterol LDL e, certamente, ainda não o colesterol residual, possivelmente pela pouca disponibilidade dos valores de colesterol residual em algumas partes do mundo.

No entanto, os pesquisadores indicaram que o colesterol residual pode ser calculado com o lipidograma convencional sem custos adicionais, que já é atualmente o procedimento convencional na região da Grande Copenhague, na Dinamarca.

"Isto significa que o uso do colesterol residual é fácil de introduzir na rotina", disseram.

O estudo foi publicado on-line em 13 de junho no periódico Journal of the American College of Cardiology.

Os autores, os médicos Dr. Takahito Doi, Dra. Anne Langsted e Prof. Børge Nordestgaard, do Rigshospitalet na Dinamarca, explicaram que o colesterol residual é o colesterol total menos o LDL e menos o HDL e contém o colesterol das lipoproteínas de densidade muito baixa ricas em triglicerídeos, das lipoproteínas de densidade intermediária e dos resíduos de quilomícrons quando a pessoa não está em jejum.

"Quando essas partículas entram na parede arterial, são levadas pelos macrófagos a produzir células espumosas e, portanto, o aumento do colesterol residual provavelmente aumenta o acúmulo de colesterol na parede arterial, levando à progressão da aterosclerose e, consequentemente, à cardiopatia isquêmica", observaram os pesquisadores.

Os autores indicaram que a maioria das diretrizes para avaliação do risco de cardiopatia isquêmica e doença cardiovascular aterosclerótica em 10 anos contemplam os níveis de colesterol total e HDL, mas não os níveis de colesterol residual.

O estudo em tela foi feito para investigar se o aumento do colesterol residual levaria a uma reclassificação apropriada das pessoas que mais tarde evoluiriam com infarto agudo do miocárdio ou cardiopatia isquêmica.

Os pesquisadores analisaram os dados do estudo populacional geral de Copenhague, que recrutou pessoas da população geral dinamarquesa branca de 2003 a 2015 e as acompanhou até 2018. As informações sobre o estilo de vida, saúde e uso de medicamentos, inclusive estatina, foram obtidas por meio de um questionário, e os participantes fizeram exames físicos e coleta de amostras de sangue sem jejum para exames bioquímicos.

Para o estudo em tela, foram incluídos 41.928 participantes entre 40 e 100 anos de idade recrutados antes de 2009, sem história de cardiopatia isquêmica, diabetes mellitus e uso de estatina no início da pesquisa. A mediana de acompanhamento foi de 12 anos. As informações sobre diagnósticos de infarto agudo do miocárdio e cardiopatia isquêmica foram obtidas do registro nacional de causas de morte dinamarquês e de todas as internações e diagnósticos inseridos no registro nacional de pacientes dinamarquês.

Nos primeiros 10 anos de acompanhamento, ocorreram 1.063 casos de infarto agudo do miocárdio e 1.460 de cardiopatia isquêmica (morte por cardiopatia isquêmica, infarto agudo do miocárdio não fatal e revascularização coronariana).

Os resultados mostraram que, nos modelos baseados nos fatores de risco convencionais estimando o risco de cardiopatia acima ou abaixo de 5% em 10 anos, a inclusão do colesterol residual em níveis acima do 95º percentil reclassificou adequadamente 23% dos participantes que tiveram infarto agudo do miocárdio e 21% dos participantes que tiveram cardiopatia isquêmica.

Usar níveis de colesterol residual acima do 75º percentil reclassificou apropriadamente 10% dos participantes que tiveram infarto agudo do miocárdio e 8% dos que tiveram cardiopatia isquêmica. Nenhum evento foi reclassificado incorretamente.

A utilização da dosagem do colesterol residual também melhorou a reclassificação das pessoas com risco de cardiopatia acima ou abaixo de 7,5% ou 10% em 10 anos.

Quando as reclassificações foram combinadas de abaixo para acima de 5%, 7,5% e 10% de risco de eventos, 42% dos pacientes com infarto agudo do miocárdio e 41% com cardiopatia isquêmica foram reclassificados adequadamente.

No editorial que acompanha a publicação do estudo no JACC, o médico Dr. Peter Wilson, da Emory University School of Medicine, nos EUA, e o médico Dr. Alan Remaley do National Heart, Lung, and Blood Institute, também nos EUA, disseram que esses achados reacendem o interesse pelas dosagens lipídicas aterogênicas sem estar em jejum e destacam o importante papel do aumento do colesterol residual sem jejum como preditor de valor agregado de eventos isquêmicos.

Os editorialistas observaram que tanto os valores lipídicos em jejum quanto os sem jejum fornecem informações úteis para a estimativa do risco de aterosclerose coronariana, e o aumento do colesterol residual sem jejum parece ajudar a identificar as pessoas com maior risco de evento isquêmico cardiovascular inicial.

Os editorialistas acrescentaram que níveis muito elevados (acima do 75º percentil) de colesterol residual sem jejum merecem avaliação adicional como um "modificador de risco de aterosclerose coronariana” potencialmente valioso, e a replicação dos resultados poderia levar esses achados adiante para potencialmente melhorar o prognóstico e o atendimento dos pacientes em risco de cardiopatia isquêmica.

Medida indireta de triglicerídeos

O Dr. Peter explicou ao Medscape que o colesterol residual é uma medida indireta dos triglicerídeos além dos níveis de LDL e, portanto, inclui uma nova medida lipídica na previsão do risco.

"Estamos completamente concentrados no colesterol LDL", disse. "Isso abre um pouco o leque acrescentando outra medida que leva em conta os triglicerídeos, bem como o LDL."

O editorialista também indicou que o uso de uma amostra sem jejum é outra vantagem da dosagem do colesterol residual.

"Uma dosagem precisa do LDL precisa de uma amostra de jejum, o que é um incômodo, enquanto o colesterol residual pode ser medido em uma amostra de sangue sem jejum, portanto é mais conveniente", disse o Dr. Peter.

Embora este estudo mostre que esta medida é útil para a previsão do risco na população da prevenção primária, o Dr. Peter acredita que o colesterol residual possa ser mais útil para ajudar a orientar a escolha dos medicamentos dos pacientes que já estão tomando estatinas.

"As estatinas visam principalmente o LDL, mas se também pudermos dosar os triglicerídeos sem jejum isso será útil. Pode nos ajudar a selecionar alguns pacientes que podem precisar usar um tipo diferente de medicamento para diminuir os triglicerídeos, além das estatinas", disse o Dr. Peter.

Este trabalho foi apoiado pelo Global Excellence Programme, Research Fund for the Capital Region of Denmark, Japanese College of Cardiology Overseas Research Fellowship e Scandinavia Japan Sasakawa Foundation. O Prof. Børge Nordestgaard informou fazer consultorias ou palestras patrocinadas pelas empresas AstraZeneca, Sanofi, Regeneron, Akcea, Amgen, Amarin, Kowa, Denka, Novartis, Novo Nordisk, Terápêutica de Esperion e Silence. O Dr. Takahito Doi informou fazer palestras patrocinadas pela MSD.

J Am Coll Cardiol. Publicado on-line em 13 de junho. Abstract , Editorial   

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