Psicoterapia adjuvante na depressão grave não traz benefícios?

Liam Davenport

Notificação

23 de junho de 2022

Associar psicoterapia a terapia farmacológica aparentemente não melhora os desfechos terapêuticos de pacientes com depressão maior, diz nova pesquisa.

Os resultados de um estudo transversal, naturalístico e multicêntrico realizado na Europa mostram que não houve diferenças significativas nas taxas de resposta de pacientes com transtorno depressivo maior que receberam tratamento combinado de psicoterapia + antidepressivo ou antidepressivo isolado, mesmo quando comparando diferentes tipos de psicoterapia.

Isso “pode enfatizar o papel fundamental das complexas interrelações biológicas subjacentes ao transtorno depressivo maior e o seu tratamento”, disse a primeira autora do estudo, Dra. Lucie Bartova, Ph.D., médica afiliada à Divisão Clínica de Psiquiatria Geral da Medizinische Universität Wien, na Áustria.

No entanto, ela pontuou que os pacientes que receberam a combinação de psicoterapia + antidepressivos também tinham “características sociodemográficas e clínicas favoráveis”, o que pode refletir uma restrição de acesso a “técnicas psicoterapêuticas para pacientes mais graves e menos beneficiados, do ponto de vista socioeconômico”.

O viés de seleção resultante pode fazer com que pacientes com doenças mais graves “caiam no esquecimento”, disse a Dra. Lucie.

O médico e pesquisador sênior do estudo em tela, Dr. Siegfried Kasper, também afiliado à Medizinische Universität Wien, concordou, dizendo em um comunicado que, por consequência, “a associação de psicoterapia a farmacoterapia tende a ser administrada em pacientes mais instruídos e saudáveis, o que pode refletir a maior disponibilidade deste tipo de tratamento para pacientes mais favorecidos social e economicamente”.

Os achados, alguns dos quais já haviam sido publicados em 2021 no periódico Journal of Psychiatry Research, foram apresentados no congresso virtual de 2022 da European Psychiatric Association (EPA).

Diretrizes inconsistentes

Durante sua apresentação, a Dra. Lucie disse que, embora “inúmeras estratégias antidepressivas eficazes estejam disponíveis para o tratamento do transtorno depressivo maior, muitos pacientes não alcançam uma resposta satisfatória ao tratamento”, o que geralmente leva a um maior refinamento da terapia e ao uso de tratamentos off-label.

Ela disse ainda que a abordagem “mais óbvia” nessas situações é tentar as opções de tratamento disponíveis de maneira “sistemática e individualizada”, idealmente seguindo os algoritmos de tratamento recomendados.

Metanálises sugerem que a psicoterapia padronizada, com sessões fixas e regulares seguindo uma lógica bem estabelecida e baseada em uma escola de pensamento, seja eficaz no transtorno depressivo maior, “com efeitos ao menos moderados”.

Entre as abordagens de psicoterapia, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a “melhor e mais estudada”, disse a Dra. Lucie, mas “falta consistência” às diretrizes internacionais de conduta clínica para psicoterapia.

Para examinar o uso e o impacto da psicoterapia em pacientes com transtorno depressivo maior, os pesquisadores estudaram 1.410 pacientes adultos internados e ambulatoriais de 10 centros, em oito países, que foram avaliados entre 2011 e 2016 pelo European Group for the Study of Resistant Depression.

Os participantes foram avaliados usando a Mini–International Neuropsychiatric Interview, a Montgomery-Åsberg Depression Rating Scale e a Hamilton Depression Rating Scale.

Os resultados mostraram que, entre os 1.279 pacientes com transtorno depressivo maior incluídos na análise final, 68,8% receberam apenas antidepressivos, enquanto 399 (31,2%) receberam alguma forma de psicoterapia estruturada como parte do tratamento.

Esses pacientes incluíram 22,8% que receberam TCC, 3,4% que realizaram psicoterapia psicanalítica e 1,3% que receberam psicoterapia sistêmica. A psicoterapia adicional não foi especificada para 3,8%.

A Dra. Lucie explicou que, em comparação com o uso isolado de antidepressivos, a combinação de psicoterapia + farmacoterapia foi significativamente associada a idade mais jovem, maior escolaridade e emprego (P < 0,001 para todos).

Além disso, a terapia combinada foi associada a uma média de idade mais nova ao início do transtorno depressivo maior, bem como a menor gravidade dos sintomas depressivos atuais, menor risco de suicídio, taxas mais altas de características melancólicas adicionais na sintomatologia dos pacientes e taxas mais altas de asma e migrânea como comorbidades (P < 0,001 para todos).

Houve associação significativa entre o uso de psicoterapia + farmacoterapia e menor média de doses diárias de antidepressivos de primeira linha (P < 0,001), bem como administração mais frequente de agomelatina (P < 0,001) e uma tendência de maior uso de vortioxetina (P = 0,006).

Por outro lado, entre os pacientes que receberam apenas antidepressivos, houve uma tendência a taxas mais altas de características psicóticas adicionais (P = 0,054), e os pacientes tiveram maior probabilidade de receber inibidores seletivos da recaptação de serotonina como antidepressivo de primeira linha (P < 0,001).

Os pesquisadores constataram que não houve diferença significativa nas taxas de resposta, ausência de resposta e depressão resistente ao tratamento entre os pacientes que receberam psicoterapia combinada + farmacoterapia e aqueles que receberam antidepressivos isolados (P = 0,369).

A Dra. Lucie mostrou que 25,8% dos pacientes com transtorno depressivo maior que receberam terapia combinada foram classificados como respondedores, em comparação a 23,5% daqueles que receberam antidepressivos isolados. A ausência de resposta foi identificada em 35,6% e 33,8% dos pacientes, respectivamente, enquanto 38,6% versus 42,7% tiveram depressão resistente.

A Dra. Lucie e colaboradores realizaram uma análise adicional para determinar se havia alguma diferença na resposta dependendo do tipo de psicoterapia.

Eles dividiram os pacientes que receberam terapia combinada em aqueles que receberam terapia cognitivo comportamento e aqueles que receberam outra forma de psicoterapia.

Novamente, não houve diferenças significativas em relação a resposta, ausência de resposta e de depressão resistente (P = 0,256). A taxa de resposta foi de 27,1% entre os pacientes que receberam TCC combinada vs. 22,4% entre aqueles que receberam outra psicoterapia.

“Apesar das diretrizes clínicas e dos estudos que defendem a psicoterapia e a combinação de psicoterapia com antidepressivos, este estudo mostra que, na vida real, não houve nenhum valor agregado à psicoterapia para os pacientes em uso de antidepressivos para depressão grave”, disse a Dra. Livia De Picker, Ph.D., médica afiliada ao Collaborative Antwerp Psychiatric Research Institute (CAPRI) da Universiteit Antwerpen, na Bélgica, no comunicado.

“Isso não significa necessariamente que a psicoterapia não seja útil, mas é um sinal claro de que a maneira como estamos lidando com esses pacientes deprimidos não é eficaz e precisa de avaliação crítica", acrescentou a Dra. Livia, que não participou da pesquisa.

No entanto, o Dr. Michael Edward Thase, médico e professor de psiquiatria da University of Pennsylvania, nos EUA, disse ao Medscape que o estudo em questão “é uma análise secundária de um estudo naturalístico”.

Consequentemente, não é possível explicar a “dose, duração e qualidade da psicoterapia fornecida”.

Portanto, os achados simplesmente sugerem que “os tipos de psicoterapia oferecidos a esses pacientes não foram tão bons a ponto de as pessoas que a receberam tiveram resultados consistentemente melhores do que aquelas que não receberam”, disse.

O European Group for the Study of Resistant Depression obteve o patrocínio via fundo irrestrito da Lundbeck A/S. A Dra. Lucie informou relações financeiras com as empresas: AOP Orphan, Medizin Medien Austria, Universimed, Vertretungsnetz, Dialectica, Diagnosia, Schwabe, Janssen, Lundbeck e Angelin. Não foram informados outros conflitos de interesses.

Congresso de 2022 da European Psychiatric Association (EPA): Abstract Psychotherapy Employed Additionally to Psychopharmacotherapy Is Not Related to Better Treatment Outcome in Major Depressive Disorder. Apresentado em 05 de junho de 2022.

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