Portugal enfrenta dificuldades para manter atendimento nas urgências de obstetrícia

Giuliana Miranda

22 de junho de 2022

Lisboa – Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de Portugal têm passado por uma série de constrangimentos nas urgências de ginecologia e obstetrícia. Devido à falta de profissionais, sobretudo de médicos especialistas, unidades de vários pontos do país acabaram por fechar ou por limitar significativamente o atendimento nas últimas semanas.

Embora as dificuldades para montar escalas de trabalho durante o período de férias de verão europeu não sejam novidade, a situação se agravou este ano, em meio a um novo aumento de casos de covid-19 também entre as equipas de saúde.

Diante do caos nas urgências e nos blocos de parto causado pela falta de médicos para atender à população, o Ministério da Saúde de Portugal criou uma comissão especial para acompanhar a situação, e prometeu, para o médio prazo, a contratação de mais profissionais.

Em Lisboa, nem o Santa Maria, maior hospital de Portugal, escapou dos constrangimentos. O serviço de obstetrícia do hospital ficou 18 horas sem receber pacientes vindas das ambulâncias do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

No Algarve, no Sul do país, o hospital de Portimão esteve com a urgência de obstetrícia fechada por quase uma semana. O serviço voltou a funcionar no dia 20 de junho.

Interrupções no funcionamento, sobretudo no período da noite e nos fins de semana, aconteceram em vários hospitais em diferentes pontos do país.

Na madrugada de 08 de junho, um bebé morreu no Hospital das Caldas da Rainha, no centro de Portugal, onde a urgência de obstetrícia estava fechada. O Ministério Público abriu um inquérito para investigar o caso. 

As urgências de ginecologia-obstetrícia e os blocos de parto têm quantidades mínimas de especialistas para poderem funcionar. O tamanho das equipas e o número mínimo de clínicos variam conforme os serviços prestados e a média anual de parto das unidades.

Quando não é possível assegurar o número obrigatório de profissionais, as urgências acabam encerradas.

“Quando se trabalha no limite, basta faltarem um ou dois [médicos] para se estragar tudo”, disse a obstetra Dra. Ana Reynolds, co-regente da cadeira de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em entrevista ao jornal Expresso. 

Embora as estatísticas oficiais indiquem que não há falta de médicos especialistas em Portugal, muitos dos clínicos optam por não estarem integrados ao SNS.

Segundo a Ordem dos Médicos, na especialidade de Ginecologia e Obstetrícia, apenas 897 entre os 1.871 médicos especialistas inscritos na entidade exercem a sua função no SNS, [1] ou seja: menos da metade dos profissionais está no serviço público.

Os hospitais públicos são cada vez menos atraentes para os novos profissionais. “Muitos jovens médicos preferem ir trabalhar para o setor privado, que lhes confere melhores condições de trabalho, maiores rendimentos e uma estabilidade profissional que o SNS não é capaz de oferecer”, destacou a Ordem dos Médicos.

A questão etária também pesa no equilíbrio das equipas no SNS. Por lei, os médicos podem parar de fazer urgências no turno da noite após completarem 50 anos. A partir dos 55 anos, os clínicos podem optar por deixar de fazer urgências.

Um artigo publicado em maio no periódico Acta Médica Portuguesa apresenta um inquérito demográfico e profissional dos especialistas em ginecologia e obstetrícia em Portugal. O trabalho evidencia que o panorama de envelhecimento do SNS contribui para os constrangimentos das urgências.

“Em Portugal não há falta de especialistas de Ginecologia-Obstetrícia em número absoluto, mas a existência de um elevado número de especialistas com idade igual ou superior a 55 anos, que têm direito a deixar de prestar atividade nos serviços de urgência, e de assimetrias regionais, contribuem para que continuem a existir algumas carências destes profissionais em vários serviços, nomeadamente em hospitais públicos”, diz o estudo. [2]

A ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou a criação de uma comissão especial de acompanhamento da situação. O objetivo é integrar melhor os hospitais de cada região, permitindo a racionalização de recursos.

A ministra afirmou ainda que o governo está a trabalhar para reforçar a capacidade de formação médica no país. Em conferência para o lançamento do plano, no entanto, deixou claro que pode ser preciso recorrer a profissionais de outros países.

“Não descuramos a hipótese da contratação de médicos no estrangeiro e, se tivermos dificuldades na formação de especialistas cá [em Portugal], equacionar a sua formação em outros países”, afirmou.

Além de soluções mais imediatas para a questão das urgências, o governo também anunciou um plano de médio prazo para a contratação de mais profissionais para o SNS, incluindo 1.600 vagas para recém-especialistas de várias áreas médicas.

O governo também se mostrou disponível para rever valores de pagamento das horas extraordinárias para os médicos do SNS.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....