'Produtos químicos eternos' são associados a hipertensão em mulheres de meia-idade

Megan Brooks

Notificação

21 de junho de 2022

A exposição a substâncias perfluoroalquil e polifluoroalquil (PFAS, sigla do inglês, Per- and Polyfluoroalkyl Substances), uma classe muito utilizada de sintéticos apelidados de “produtos químicos eternos”, pode ser um fator de risco modificável de hipertensão.

Em um grande estudo prospectivo, os pesquisadores encontraram associação entre níveis séricos de PFAS e risco de hipertensão em mulheres de meia-idade. As mulheres no tercil mais alto da concentração global de PFAS apresentaram risco 71% maior de apresentar hipertensão.

"Nossos achados sugerem que a exposição prolongada e cumulativa, mesmo antes da meia-idade, aumente o risco de hipertensão e, portanto, o benefício de reduzir a exposição da população a PFAS e a potencial prevenção da hipertensão, e outras doenças, seria enorme", disse ao Medscape o autor correspondente do estudo, Sung Kyun Park, afiliado à University of Michigan School of Public Health, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado on-line em 13 de junho no periódico Hypertension.

Em todos os lugares e para sempre

"Os PFAS são produtos químicos eternos e onipresentes", observou Sung.

Possíveis fontes de exposição a PFAS vão desde panelas antiaderentes, embalagens de alimentos e tecidos impermeáveis até cosméticos e água potável. A presença dessa substância foi detectada no sangue da maioria das pessoas e vêm sendo associada a diversas doenças.

"Alguns estudos mostraram associação entre PFAS e hipertensão, mas foram trabalhos transversais e examinaram a prevalência da doença. Não ficou claro se os PFAS estão associados ao surgimento (incidência) de hipertensão", explicou Sung.

Para esse estudo, os pesquisadores examinaram a associação entre as concentrações séricas de PFAS e os riscos de hipertensão incidente em 1.058 mulheres inicialmente normotensas que participaram do Study of Women's Health Across the Nation-Multi-Pollutant Study (SWAN-MPS). Elas foram acompanhadas anualmente entre 1999 e 2017.

Durante 11.722 pessoas-ano de acompanhamento, 470 das participantes apresentaram hipertensão, a uma taxa de 40,1 casos por 1.000 pessoas-ano. Hipertensão foi definida como pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg ou diastólica ≥ 90 mmHg, ou necessidade de tratamento anti-hipertensivo.

As participantes no tercil mais alto da concentração sérica basal de sulfonato de perfluorooctano apresentaram risco de hipertensão 42% maior do que seus pares no tercil mais baixo (razão de risco ajustada [RRa] = 1,42; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,19 a 1,68; P para tendência = 0,01).

Resultados semelhantes foram encontrados para perfluorooctanoato e acetato de 2-N-etil-perfluorooctano sulfonamido, com risco de hipertensão incidente 47% (RRa = 1,47; IC 95% de 1,24 a 1,75; P tendência = 0,01) e 42% (RRa = 1,42; IC 95% de 1,19 a 1,70; P para tendência = 0,01) maior, comparando os tercis mais altos com os mais baixos.

Os riscos persistiram após o ajuste para vários fatores, incluindo raça, local do estudo, educação, problemas financeiros, tabagismo, uso de álcool, ingestão total de calorias e estado da menopausa.

Na análise de "mistura" de PFAS, as participantes no tercil mais alto das concentrações gerais de PFAS eram 71% mais propensas a serem diagnosticadas com hipertensão durante o acompanhamento em comparação com as participantes no tercil mais baixo (RRa = 1,71; IC 95% de 1,15 a 2,54; P para tendência = 0,008).

"Esses achados sugerem que os PFAS sejam um subestimado fator de risco de doença cardiovascular para mulheres", escreveram os pesquisadores.

Eles alertam para o fato de o estudo ter incluído apenas mulheres de meia-idade e dizem que não está claro se os resultados seriam válidos para os homens de meia-idade.

"Esta é uma pergunta importante, mas a resposta é que não sabemos", disse Sung ao Medscape.

"As mulheres se tornam mais suscetíveis a alterações metabólicas e risco de hipertensão durante a transição da menopausa. Nossos resultados sugerem que os PFAS possam desempenhar um papel no surgimento da hipertensão nessas pacientes durante essa fase crítica da vida", explicou.

Os pesquisadores afirmaram que mais pesquisas são necessárias para confirmar e expandir os achados, bem como encontrar maneiras de reduzir a exposição os PFAS.

“Se confirmados nos próximos estudos, esses achados sugerem que o entendimento da exposição humana aos PFAS e o desenvolvimento de estratégias eficazes para reduzir essa exposição podem ajudar a prevenir a hipertensão e, assim, reduzir a carga global de doença cardiovascular”, escreveram.

"Quanto mais aprendemos, pior fica"

Este é um estudo "interessante" e mostra que "quanto mais aprendemos sobre PFAS, pior parece ficar", disse o Dr. Ankur Shah, médico da Divisão de Doenças Renais e Hipertensão, Warren Alpert Medical School da Brown University, nos EUA, ao Medscape.

"Este estudo longitudinal multicêntrico, multirracial e multiétnico, baseado na comunidade, estabelece uma associação entre PFAS e hipertensão", disse o Dr. Ankur, que não participou do estudo.

"Isso contribui para uma crescente base de literatura de associações entre PFAS e diversas doenças, como câncer, doenças da tireoide, diabetes, colite ulcerativa, hiperlipidemia e hipertensão gestacional", observou.

O Dr. Ankur também destacou que os autores ajustaram para raça e etnia, local do estudo, educação, problemas financeiros, tabagismo, fumaça ambiental de tabaco, consumo de álcool, ingestão total de calorias e condição da menopausa, "e ainda encontraram uma forte associação".

"Ainda será determinado se a PFAS é o agente causador ou se há uma entidade não mensurada/ajustada que aumentou a exposição aos PFAS e hipertensão. E, se os PFAS forem a causa, a redução da exposição resultaria em melhora da pressão arterial", acrescentou.

O estudo não teve fontes de financiamento. Sung e o Dr. Ankur informaram não ter conflitos de interesses.

Hypertension. Publicado on-line em 13 de junho de 2022.  Abstract

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