Uso de triptanos na gestação e TDAH em crianças: novos dados

Pauline Anderson

Notificação

21 de junho de 2022

Uso de triptanos durante a gestação não aumenta o risco de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) na prole, mostra nova pesquisa.

“Os achados devem tranquilizar as mulheres que precisam tomar essa classe de medicamentos durante a gestação”, disse ao Medscape a autora do estudo, Dra. Hedvig Nordeng, Ph.D., professora e chefe do grupo de pesquisa em farmacoepidemiologia e segurança de medicamentos da Universitetet i Oslo, na Noruega.

Ela enfatizou a necessidade de se discutir com as pacientes não apenas os riscos do uso de medicamentos durante a gestação, mas também "os riscos de não tratar quadros graves e debilitantes de migrânea, tanto para a mulher quanto para o bebê".

O estudo foi publicado on-line em 03 de junho no periódico JAMA Network Open.

Dados de segurança são limitados

Especialistas estimam que 9% a 25% das mulheres com migrânea usem triptanos durante a gestação. No entanto, as informações sobre a segurança desses medicamentos neste período são limitadas, principalmente em relação a desfechos de longo prazo, incluindo o impacto no neurodesenvolvimento infantil, como, por exemplo, é o caso do TDAH, um transtorno com prevalência mundial estimada em 5%.

A pesquisa utilizou dados do Norwegian Mother, Father and Child Cohort Study (MoBa), um estudo de coorte populacional sobre gestação, que a Dra. Hedvig disse ser um dos maiores estudos desse tipo no mundo. Esse estudo está vinculado ao Registro Médico de Nascimentos da Noruega, ao Registro Norueguês de Pacientes e ao Banco de Dados Norueguesa de Prescrições.

As participantes do estudo preencheram questionários em vários estágios da gestação e quando seus filhos tinham cinco anos. A amostra incluiu mulheres que relataram migrânea ou uso de triptanos antes ou durante a gestação ou que receberam uma prescrição médica de triptanos nos seis meses anteriores à gestação.

Os pesquisadores definiram dois grupos para análise: uma amostra de crianças com diagnóstico de TDAH determinada por meio de informações de prontuários sobre diagnósticos e medicamentos dispensados, e uma amostra de crianças de cinco anos com sintomas de TDAH utilizando itens relacionados a desatenção, hiperatividade ou impulsividade através da Conners Parent Rating Scale – Revised, Short Form (CPRS-R[S]).

Os autores acreditaram que seria importante identificar crianças com "problemas mais sutis, que na verdade podem ser extremamente desafiadores para elas", mas que talvez não atingissem "o limiar" para o diagnóstico, disse a Dra. Hedvig.

A amostra de crianças com diagnóstico de TDAH incluiu 10.167 crianças nascidas de 8.412 mães com migrânea (média de idade: 30,2 anos). A amostra de crianças com sintomas de TDAH teve 4.367 crianças nascidas de 3.855 mães com migrânea (média de idade: 30,6 anos).

A média de idade das crianças no momento do diagnóstico de TDAH foi de 8,6 anos, e essas crianças foram acompanhadas por uma média de 10,6 anos.

Cerca de 8,2% das crianças com diagnóstico de TDAH e 9,2% das crianças com sintomas de TDAH foram expostas a triptanos durante a gestação. Os pesquisadores compararam crianças expostas aos triptanos com dois grupos de crianças não expostas: aquelas cujas mães relataram migrânea durante a gestação e aquelas cujas mães tiveram migrânea somente antes da gestação.

Uma mensagem de saúde pública positiva

Crianças expostas a triptanos no útero não apresentaram risco aumentado para TDAH em comparação com crianças não expostas. Isso se confirmou quando essas crianças foram comparadas com crianças cujas mães tiveram migrânea durante a gestação (razão de risco [RR] ponderada de 1,16; intervalo de confiança [IC], de 95%, de 0,78 a 1,74) e com crianças cujas mães somente tiveram migrânea antes da gestação (RR ponderada de 1,28; IC 95% de 0,84 a 1,94).

As estimativas ponderadas foram ajustadas para vários fatores, incluindo idade materna, paridade, estado civil, educação, renda, índice de massa corporal, uso de ácido fólico, tabagismo, ingestão de álcool, sintomas de ansiedade ou depressão e satisfação com a vida, um indicador indireto da gravidade da migrânea.

No grupo com sintomas de TDAH, o escore médio na CPRS-R(S) foi de 1,39; e 5,5% das crianças apresentaram escore z considerado indicativo de problemas clinicamente relevantes.

Não houve diferenças nos escores z médios entre filhos de mães que tiveram migrânea durante a gestação expostos versus não expostos ao medicamento (diferença média ponderada de -0,11; IC 95% de -0,25 a 0,04) ou somente antes da gestação (diferença média ponderada de -0,09; IC 95% de -0,24 a 0,07).

O achado da ausência de relação entre triptanos na gestação e risco de TDAH "representa uma mensagem de saúde pública positiva para mulheres com migrânea que precisam dos seus medicamentos", disse a Dra. Hedvig. "Isso responde de forma direta as dúvidas não somente das mães, mas também de pais e profissionais de saúde."

Alguns estudos anteriores da Dra. Hedvig e seus colegas mostraram um indício de problemas de comportamento em crianças com exposição pré-natal a triptanos, mas esse novo estudo, que incluiu informações sobre o diagnóstico infantil a partir de um registro nacional de pacientes, tem desenho e resultados mais robustos, disse a Dra. Hedvig.

Todavia, o estudo possui suas limitações. A classificação incorreta da exposição aos triptanos pode ter afetado os resultados. No último trimestre da gestação, por exemplo, a exposição foi relatada retrospectivamente e pode estar sujeita a falhas de memória. Além disso, os pesquisadores não tinham informações sobre a posologia, portanto, efeitos proporcionais à dose não puderam ser descartados.

Outra limitação do estudo foi o possível viés de seleção. Os autores observaram que as participantes da coorte norueguesa eram mais propensas a serem casadas ou amasiadas, ter um nível educacional mais alto e um estilo de vida mais saudável do que a população geral.

Os resultados podem não ser generalizáveis para outros países, disse a Dra. Hedvig, observando que a prevalência do TDAH em crianças na Noruega é de cerca de 4% contra cerca de 9% nos Estados Unidos, por exemplo. "O limiar para detecção e a probabilidade de obtenção do diagnóstico de TDAH podem diferir entre diferentes sociedades e sistemas de saúde", disse ela.

Uma pesquisa bem-vinda

Solicitada a comentar o estudo para o Medscape, a Dra. Lauren Doyle Strauss, médica osteopata, professora associada de neurologia na Wake Forest University School of Medicine, nos Estados Unidos, dedicada ao controle da migrânea durante a gestação, disse que o estudo é "bem-vindo e animador".

É tranquilizador ver que os triptanos, uma classe de medicamentos muito utilizada, "parecem relativamente seguros" para tratar a migrânea na gestação, disse a Dra. Lauren.

Ela observou que gestantes com migrânea são "uma população de pacientes difícil de estudar. E observar as crianças e acompanhá-las ao longo da vida exige muito tempo e esforço".

O TDAH está se tornando cada vez mais reconhecido e, embora existam tratamentos disponíveis, "[o transtorno] tem um impacto enorme na família, nos pacientes e na capacidade de desenvolvimento no contexto escolar".

Ela disse esperar que mais estudos sejam feitos para analisar outros diagnósticos infantis e "reforçar a segurança, pois o tratamento da dor na gestação é realmente importante".

Os pesquisadores e a Dra. Lauren informaram não ter conflitos de interesses. 

JAMA Network Open. Publicado em 03 de junho de 2022. Estudo completo

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