COMENTÁRIO

Por dentro do ESGAR 2022 – Dr. Fabiano M. Serfaty entrevista participante

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

20 de junho de 2022

A 33ª reunião anual e curso de pós-graduação da European Society of Gastrointestinal and Abdominal Radiology (ESGAR 2022) foi realizada do dia 31 de maio a 03 de junho em Portugal.

Este congresso trouxe grandes novidades para a prática clínica, que aproximam cada vez mais o clínico do radiologista. 

Conversamos com a Dra. Luciana Belém, médica radiologista, especialista em imagem oncológica e abdominal, que participou do ESGAR 2022, sobre os destaques deste encontro. A Dra. Luciana é afiliada ao Instituto Nacional do Câncer (Inca), à Casa de Saúde São José e à clínica de diagnóstico por imagem Fonte Imagem Medicina Diagnóstica, todos no Rio de Janeiro.

Qual a importância de congressos como o  ESGAR  2022 e o que ele está trazendo  p ara o dia a dia do clínico no consultório?

Dra. Luciana Belém: O encontro anual da ESGAR é altamente especializado, liderado por radiologistas com abordagem multidisciplinar (gastroenterologistas, cirurgiões e patologistas). Consegue ser profundo e denso na exploração dos temas ao permitir o encontro entre os maiores especialistas na imagem abdominal. A troca de experiências e conhecimento tem o potencial de ampliar o papel da pesquisa no dia a dia da radiologia abdominal moderna e contribuir com informações relevantes para o cotidiano no consultório clínico, tendo o radiologista como uma ferramenta preciosa.

Quais apresentações você destaca no ESGAR 2022?

Dra. Luciana Belém:honorary lecture de Vicky Goh, “Câncer esofágico – fazendo o melhor da imagem”, foi completa, didática e precisa. [1] Destrinchou com elegância os métodos de imagem a partir de revisões da literatura e casos práticos ilustrativos, e foi ainda mais profunda ao destacar as perspectivas de futuro da imagem. A mesma tomografia usada para o estadiamento tumoral pode ser utilizada para avaliar a composição corporal, permitindo o rastreamento precoce dos pacientes sob risco de desnutrição e caquexia e auxiliando a personalizar a terapia. Essas informações podem ter valor inclusive para o ajuste da dose da quimioterapia e a identificação dos pacientes que se beneficiam de pré-habilitação (dieta e exercício físico). Com a imagem, é possível mensurar e visualizar a resposta à intervenção, podendo servir como um estímulo maior para o paciente aderir a mudanças de estilo de vida. [1]

Alguma apresentação demonstrou as possíveis utilidades da inteligência artificial na prática clínica? Penso que a inteligência artificial tenha vindo para facilitar e melhorar a prática clínica, e não o contrário, você concorda?

Dra. Luciana Belém: Fabiano, de fato, a inteligência artificial, pode nos auxiliar com informações relevantes em um tempo menor. Obviamente, qualquer ferramenta de inteligência artificial, para ser efetiva, precisa ser elaborada por um grupo de médicos capacitados em conjunto com profissionais de tecnologia [da informação].

Em sua apresentação, Perry Pickardt surpreendeu ao demonstrar ferramentas de inteligência artificial identificando biomarcadores de interesse clínico em tomografias realizadas para as mais diversas indicações médicas. Sem maior gasto de tempo ou de exposição à radiação, ele mostrou que é possível acessar o risco cardiovascular em imagens de colonoscopia virtual. [2]

A quantificação da gordura hepática por ressonância magnética está sendo cada vez mais realizada na prática clínica. O evento trouxe algo relevante sobre o assunto?

Dra. Luciana Belém: Destaco a discussão sobre esteatose hepática liderada por Luis Martí-Bonmatí e Manuela França. É impressionante como o avanço das técnicas de ressonância magnética para quantificação de gordura hepática estão ficando cada vez mais acuradas e levaram à revisão do método padrão-ouro, o histopatológico. Amostras de biópsia com frações de gordura pela ressonância muito acima do que foi detectado na lâmina foram reprocessadas com imuno-histoquímica e marcação por adipofilina, e apresentaram proporção maior de esteatose, que é uma condição de grande interesse por estar associada a fibrose mais avançada e NASH. [3]

Quais aplicações clínicas podemos trazer para o nosso dia a dia?

Dra. Luciana Belém: Enxergar a radiologia como uma caixa de ferramentas valiosa, não apenas para o diagnóstico, mas com todas as outras informações que estão ali na imagem, e que pode auxiliar diretamente na tomada de decisão. Para mim, como radiologista, é gratificante enxergar a radiologia assumindo um papel de destaque na medicina de precisão, centrada no indivíduo.

Maxime Nachit foi preciso ao citar Hipócrates para finalizar a apresentação do seu trabalho que associa mioesteatose a aumento do risco de carcinoma hepatocelular na NAFLD: "It is more important to know what sort of person has a disease than to know what sort of disease a person has". [5] A imagem hoje tem esse poder e cabe a nós aproveitar.

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