Cannabis equivale aos opioides para o controle da dor, diz estudo

Will Pass

Notificação

20 de junho de 2022

Os produtos derivados da Cannabis podem controlar a dor crônica com a mesma eficácia dos opioides, mas os efeitos adversos são comuns e a segurança em longo prazo ainda é desconhecida, diz novo estudo.

Recentemente, várias outras revisões sistemáticas avaliaram o uso de canabinoides para o tratamento da dor crônica, mas a metodologia do estudo em tela foi "diferenciada" em "formas importantes", levando a "conclusões que diferem de outras revisões", de acordo com os autores do artigo publicado no periódico Annals of Internal Medicine.

Na nova revisão sistemática, os produtos sintéticos com altas proporções de tetraidrocanabinol (THC): canabidiol (CBD) foram associados a melhora moderada na dor, enquanto os produtos feitos com plantas com proporções comparáveis de THC:CBD ofereceram menos alívio, segundo a autora do estudo, a Dra. Marian S. McDonagh, Ph.D., farmacêutica e professora de informática médica e epidemiologia clínica e codiretora no Evidence-based Practice Center da Oregon Health & Science University, nos Estados Unidos, e seus colaboradores.

Especificamente, os pesquisadores estratificaram intervenções feitas com a Cannabis de acordo com o teor relativo dos dois principais canabinoides: tetraidrocanabinol e canabidiol. Os produtos foram classificados em cinco categorias:

  • Grande proporção de THC:CBD (≥ 2:1);

  • Proporção comparável de THC:CBD (< 2:1, porém > 1:2);

  • Baixa proporção de THC:CBD (≤ 1:2);

  • Produtos da Cannabis com plantas inteiras; e

  • Outros canabinoides.

"Em estudos pré-clínicos, o tetraidrocanabinol e os compostos relacionados demonstraram propriedades analgésicas, embora seus efeitos psicoativos e potencial de dependência possam limitar sua adequação como analgésico", escreveram os pesquisadores. "O canabidiol e outros canabinoides também podem ter algumas propriedades analgésicas ou anti-inflamatórias, e não se acredita serem psicoativos ou causarem dependência. Dada a variação do efeito analgésico entre o tetraidrocanabinol e o canabidiol, a resposta pode variar de acordo com a relação entre as duas substâncias nos produtos utilizados para o tratamento da dor."

A análise final foi feita com 18 ensaios clínicos randomizados controlados por placebo, com 1.740 participantes, e sete estudos de coorte, com 13.095 participantes. A maioria dos estudos foi de curto prazo, com duração de um a seis meses.

A dor foi pontuada em uma escala de 10 pontos, com melhoras descritas como a diferença média entre o início do estudo e depois do tratamento. Uma diferença média na pontuação de dor de 0,5 a 1,0 foi considerada um "efeito pequeno", uma melhora de 1 a 2 pontos foi considerada um "efeito moderado" e uma melhora maior que 2 pontos foi considerada um "efeito grande".

Produtos contendo relativamente muito tetraidrocanabinol: as proporções de canabidiol mostraram eficácia

Os produtos sintéticos com alta proporção de THC:CBD ofereceram alívio moderado da dor, com base numa diferença média na pontuação da dor de - 1,15 (intervalo de confiança [IC] de 95% de - 1,99 a - 0,54), enquanto os produtos com proporção de THC:CBD comparáveis foram associados a um pequeno efeito sobre a dor, com uma diferença média de - 0,52 (IC 95% de - 0,95 a - 0,19).

De acordo com Dra. Marian, os índices de resposta ao tratamento foram comparáveis aos índices de resposta de tratamentos mais convencionais, "como opioides ou determinados antidepressivos", mas os dados para os produtos derivados da Cannabis são menos robustos.

"A quantidade de provas disponíveis para os produtos relacionados com a Cannabis é muito limitada para os índices de resposta e, portanto, menos certa", disse Dra. Marian numa entrevista. "A redução média da intensidade da dor também é semelhante a alguns outros tratamentos, mas não temos estudos comparando diretamente esses tratamentos para poder tirar conclusões."

Embora os produtos derivados de Cannabis com proporções relativamente elevadas e comparáveis de THC:CBD tenham demonstrado eficácia, também foram associados a "aumento moderado a importante do risco de tonturas, sedação e náuseas", escreveram os pesquisadores, observando que as evidências eram insuficientes para caracterizar outros "desfechos adversos principais do evento", que podem ocorrer com o uso prolongado, como "psicose, distúrbio do uso de Cannabis e déficits cognitivos".

Para os produtos com baixa proporção de THC:CBD, ou sem descrição da proporção de THC:CBD, os dados foram muito escassos para chegar a conclusões sobre segurança ou eficácia, destacando as consideráveis lacunas de conhecimento ainda vistas na área, afirmaram os autores.

"As evidências atuais sobre os produtos relacionados com a Cannabis para a dor crônica são bem limitadas", disse Dra. Marian em uma entrevista. "Os pacientes com dor crônica devem consultar seus médicos para discutir quais das muitas opções para tratar a dor crônica são melhores para começarem."

Pode haver resistência ao perguntar sobre a Cannabis

Segundo o biólogo Dr. Kevin F. Boehnke, Ph.D. e o médico Dr. Daniel J. Clauw, afiliado à University of Michigan, nos EUA, os pacientes com dor crônica podem enfrentar resistência, ou mesmo risco de ser denunciados, ao perguntarem sobre produtos feitos com Cannabis.

"Alguns médicos citam a ausência de dados como justificativa para não atender pacientes que desejem usar ou que atualmente usem Cannabis", escreveram Dr. Kevin e Dr. Daniel no editorial que acompanha o estudo. "Essas práticas podem refletir a consideração da Cannabis apenas como droga de uso ilícito (mesmo nos 37 estados nos quais o uso medicinal da Cannabis é legal), e as exigências de encaminhar os pacientes que revelem ou testem positivo para consumo de Cannabis aos serviços de dependência, ou recusar a dispensação de prescrições de opioides".

Em vez de excluir os pacientes, Dr. Kevin e Dr. Daniel sugeriram que os médicos participem de uma "troca aberta de informações" com seus pacientes, concentrada em "pragmatismo, experiência do paciente, efeitos conhecidos dos canabinoides e redução de danos". Nessas conversas, os editorialistas recomendam notar que, "assim como ocorre com outros analgésicos, algumas pessoas se beneficiarão e outras não".

Eles também ofereceram algumas orientações práticas: "Os médicos podem sugerir o uso de tinturas (início de efeito, 15 a 45 minutos) para dor de escape ou apresentações mastigáveis ou cápsulas (que duram cerca de 6 a 8 horas) para alívio prolongado. (...) A literatura científica sugere que as doses de canabidiol poderiam começar com 5 a 10 mg duas vezes por dia e aumentar para 40 a 50 mg por dia, enquanto as doses de tetraidrocanabinol poderiam começar a 0,5 a 3 mg (inicialmente à noite) e aumentar para 30 a 40 mg/dia".

O médico Dr. David Copenhaver, preceptor e chefe da Divisão de Medicina da Dor na UC Davis Health, nos EUA, compartilhou uma atitude clínica semelhante para os pacientes que escolhem entre opioides e produtos à base de Cannabis, especificamente o canabidiol.

Comparado aos opioides, "o perfil de efeito colateral do canabidiol é menor e o risco de morte é menor", disse Dr. David em uma entrevista, apontando que, que ele saiba, nunca ninguém morreu de uma dose excessiva de Cannabis isolada, e que as doses de canabidiol de até 1 g/kg têm sido toleradas com segurança pelas pessoas. "Você diz isso e a maioria dos pacientes responde: 'sabe, eu acho que gostaria de tentar’."

Em caso afirmativo, Dr. David certifica-se de que os pacientes conheçam o risco que não é clínico: "o risco para o bolso". Contrariamente aos opioides, que são cobertos pela maioria dos planos de saúde, a maioria dos tratamentos com derivados da Cannabis é paga pelo próprio paciente nos EUA.

Quem compra pode acabar recebendo um produto à altura do seu investimento, disse Dr. David, visto que há uma variação em termos de qualidade, tanto do produto quanto dos dispensários: desde "muito modestos" até altamente sofisticados, com alguns até mesmo usando conjuntos de dados cromatográficos para corroborar a pureza de seus produtos.

O Dr. David encaminha seus pacientes para estes comerciantes mais sofisticados. O nível de perícia parece compensar, disse o médico, não só em termos do alívio proporcionado aos pacientes, como em ações de mercado. "A ‘sobrevivência do mais apto’ irá ocorrer na indústria a partir dos resultados", disse o médico. "Infelizmente, algumas dessas informações não entram na literatura."

Para desvendar todo o potencial dos produtos derivados da Cannabis para o controle da dor crônica, os pesquisadores precisam ser tão “minuciosos" quanto os principais dispensários, o que talvez exija o reconhecimento da "oportunidade extremamente cara" que os canabinoides menos estudados podem proporcionar.

O estudo foi apoiado pela Agency for Healthcare Research and Quality, U.S. Department of Health & Human Services. Os pesquisadores Dr. Kevin Boehnke, Dr. Daniel Clauw e Dr. David Copenhaver informaram não ter conflitos de interesse.

Este conteúdo foi originalmente publicado no MDedge.com – parte da rede profissional do Medscape.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....