Pré-diabetes pode estar ligado de forma independente ao IAM

Ted Bosworth

Notificação

20 de junho de 2022

O pré-diabetes não é apenas um preditor de diabetes e complicações cardiovasculares associadas, também representa um fator de risco independente de infarto agudo do miocárdio (IAM), de acordo com dados de quase 1,8 milhão de pacientes hospitalizados por IAM.

"Nosso estudo serve como um alerta para que médicos e pacientes mudem o foco para a prevenção do pré-diabetes, e não apenas do diabetes", disse a médica Dra. Geethika Thota na reunião anual de 2022 da Endocrine Society.

Há muitos dados sugerindo que o pré-diabetes coloque os pacientes em uma trajetória rumo à doença cardiovascular. Em uma metanálise de 129 estudos publicada há dois anos, o pré-diabetes não só foi associado a um aumento estatisticamente significativo de 16% na incidência de doença arterial coronariana, como também a um aumento de 13% no risco de mortalidade por todas as causas em relação aos indivíduos normoglicêmicos.

Dados de 1,8 milhão de pacientes 

Neste estudo, 1.794.149 internações ponderadas de pacientes com diagnóstico de IAM foram extraídas da base de dados National Inpatient Sample. Excluindo os pacientes que eventualmente desenvolveram diabetes, cerca de 1% tinham história de pré-diabetes, de acordo com uma pesquisa de códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

Antes do ajuste para outros fatores de risco, o pré-diabetes estava associado a um aumento de mais de 40% nas chances de IAM (razão de chances [RC] de 1,41; P < 0,01). Após o ajuste para vários reconhecidos fatores de risco de IAM, incluindo história de IAM, dislipidemia, hipertensão, dependência de nicotina e obesidade, o pré-diabetes continuou sendo um fator de risco independente, correspondendo a um aumento de 25% no risco de IAM (RC de 1,25; P <0,01).

A história de pré-diabetes também foi um fator de risco independente para intervenção coronária percutânea e cirurgia de revascularização do miocárdio, com um aumento de 45% e 95% no risco, respectivamente.

Como um estudo retrospectivo analisando o pré-diabetes como fator de risco em indivíduos que já tiveram IAM, é possível que nem todos os pacientes com pré-diabetes tenham sido diagnosticados adequadamente, mas, segundo a Dra. Geethika, é improvável que isso tenha sido um problema grande o suficiente para afetar as conclusões principais.

Relevância no tratamento comunitário

Embora o estudo tenha sido elaborado a partir de pacientes hospitalizados, sua relevância se encontra na comunidade, onde o rastreamento e a intervenção para pré-diabetes têm o potencial de alterar os riscos, de acordo com a Dra. Geethika.

A maioria dos médicos provavelmente está ciente do valor do rastreamento para pré-diabetes, definido nesse estudo como hemoglobina glicada de 5,7% a 6,4%, porém, a Dra. Geethika sugeriu que muitos podem não entender completamente o alcance dos objetivos do rastreamento. A detecção e a prevenção precoces irão prevenir o diabetes e, por consequência, as doenças cardiovasculares, mas os dados da pesquisadora sugerem que o controle do pré-diabetes com menor risco cardiovascular seja feito de forma mais direta.

“Apesar das evidências crescentes, muitos médicos não sabem que o pré-diabetes também é um importante fator de risco de doença cardiovascular aterosclerótica”, disse a Dra. Geethika, residente de medicina interna no Saint Peter’s University Hospital, nos Estados Unidos.

Assim como o diabetes, a prevalência de pré-diabetes está crescendo rapidamente, de acordo com dados dos Centers for Disease Control (CDC) dos EUA, citados pela Dra. Geethika. Em 2020, os CDC estimaram que 38% da população adulta possuía pré-diabetes. Até 2030, um modelo prevê um crescimento de 25%.

O rastreamento da hiperglicemia faz parte das avaliações de rotina dos pacientes no serviço de saúde onde a Dra. Geethika trabalha. Em uma entrevista, ela disse que após o diagnóstico de pré-diabetes ser inserido no prontuário eletrônico, o histórico é levado adiante para que as mudanças no status desse paciente sejam monitoradas continuamente.

O agravamento do pré-diabetes deve ser abordado

"O pré-diabetes não é tratado com medicamentos, pelo menos não inicialmente", explicou a Dra. Geethika. Em vez disso, os pacientes são orientados sobre mudanças importantes no estilo de vida, tais como dieta e atividade física, que podem reverter o diagnóstico. No entanto, os pacientes que mantém uma piora na hiperglicemia são candidatos a uma intervenção mais intensiva no estilo de vida, podendo ser considerado o uso, de forma seletiva, da metformina.

"O reconhecimento precoce do pré-diabetes através do rastreamento é importante", enfatizou a Dra. Geethika. O benefício de evitar que os pacientes progridam para o diabetes é bem reconhecido, mas os dados do estudo fornecem o embasamento para incentivar mudanças no estilo de vida em pacientes com pré-diabetes e explicando que essas mudanças podem reduzir o risco de IAM.

Esses dados carregam uma mensagem importante, mas não são surpreendentes, de acordo com o médico Dr. Deepak L. Bhatt, diretor-executivo de programas cardiovasculares intervencionistas do Brigham and Women's Hospital Heart & Vascular Center, nos Estados Unidos.

"De fato, na prática diária, vemos uma porcentagem substancial de pacientes com IAM que possuem pré-diabetes e isso não havia sido previamente reconhecido ou diagnosticado formalmente", disse o Dr. Deepak em uma entrevista.

"Identificar esses pacientes (de preferência antes do surgimento de complicações cardiovasculares) é importante tanto para reduzir o risco cardiovascular, quanto para tentar prevenir a progressão do diabetes", ele acrescentou.

O Dr. Deepak prosseguiu, dizendo que essa análise robusta que confirma a associação independente entre pré-diabetes e IAM, deve incentivar os médicos a rastrear rigorosamente essa alteração nos pacientes.

"No mínimo, esses pacientes seriam candidatos a uma modificação intensa do estilo de vida visando a perda ponderal e o tratamento de comorbidades comuns, como hipertensão e dislipidemia", disse o Dr. Deepak.

A Dra. Geethika informou não ter conflitos de interesses. O Dr. Deepak informou vínculos financeiros com mais de 30 empresas farmacêuticas, muitas das quais fabricam produtos relevantes para o controle de diabetes e doenças cardiovasculares.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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