Tratamento de perda óssea pode aumentar sobrevida de pacientes com câncer de mama

Walter Alexander

Notificação

17 de junho de 2022

A análise definitiva do estudo “Adjuvant denosumab in breast cancer (ABCSG-18)”  constatou que o denosumabe, um tradicional medicamento para osteoporose usado em pacientes com história de tratamento de câncer de mama, não apenas reduz a ocorrência de fraturas em longo prazo, como pode aumentar a densidade óssea e a sobrevida global.

O trabalho foi apresentado na reunião anual de 2022 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

"O denosumabe como terapia adjuvante deve ser considerado para uso clínico de rotina em pacientes na menopausa com tumor na mama positivo para receptores hormonais [HR, do inglês hormone receptor] em tratamento com inibidores de aromatase", disse o primeiro autor do estudo, Dr. Michael Gnant, médico membro do American College of Surgeons e diretor do Departamento de Cirurgia da Universität Wien, na Áustria.

O denosumabe é recomendado pela ASCO como opção terapêutica para osteoporose em pacientes com doença não metastática tratada com sucesso.

O ABCSG-18 foi um estudo de fase 3, prospectivo, duplo-cego e controlado por placebo, composto de 3.420 pacientes (média de idade: 64,5 anos) de 58 centros de tratamento. A pesquisa incluiu pacientes na menopausa com câncer de mama inicial HR+ tratadas com inibidores de aromatase entre 2006 e 2013. Destas, 1.711 receberam 60 mg de denosumabe e 1.709 receberam placebo a cada seis meses.

O desfecho primário foi o período transcorrido até a primeira fratura clínica, e os desfechos secundários relacionados à doença foram sobrevida livre de doença, sobrevida livre de metástase óssea e sobrevida global.

A razão de risco para sobrevida livre de doença no grupo que recebeu denosumabe foi de 0,83 (intervalo de confiança [IC] de 95% de 0,71 a 0,97; P = 0,02) após um acompanhamento mediano de oito anos. A sobrevida livre de doença foi de 69,0% no braço do estudo que recebeu placebo e 74,4% no braço denosumabe, com eventos ocorrendo em 19,8% do total de pacientes, incluindo morte (8,3%).

As taxas de sobrevida livre de metástase óssea foram de 81,3% e 85,7% nos braços de placebo e denosumabe, respectivamente (RR de 0,81; IC 95% de 0,65 a 1,00; P = 0,05). A sobrevida global foi de 83,6% e 88,8% nos braços de placebo e denosumabe, respectivamente (RR de 0,80; IC 95% de 0,63 a 1,01; P = 0,06).

Não houve toxicidades inéditas nem ocorrência de osteonecrose de mandíbula durante o período do estudo, o que pode ter sido devido à baixa dosagem de denosumabe. A dose de denosumabe para proteção óssea é muito menor do que a utilizada no tratamento de metástases, que pode ser 12 vezes maior. Nesses casos, 4% a 6% dos pacientes podem desenvolver osteonecrose de mandíbula. "Nessas doses muito baixas, mesmo após um total de 30.000 anos de tratamento, não observamos nenhum caso confirmado de osteonecrose de mandíbula", disse o Dr. Michael.

Observações exploratórias mostraram que a maioria dos eventos incluiu recidivas metastáticas nos ossos, fígado e pulmões. A análise revelou uma tendência de redução do câncer de mama contralateral no braço de denosumabe (24 versus 29 eventos) e redução do segundo câncer primário não mamário (101 vs. 127 eventos).

Em um estudo de 2015, muito anterior ao ABCSG-18, o desfecho primário de risco de fratura diminuiu significativamente com denosumabe (RR de 0,50; P < 0,0001), com um período significativamente maior para a primeira fratura clínica, maior aumento percentual na densidade mineral óssea (P < 0,0001 para ambos) e menos fraturas vertebrais (P = 0,009). Há indícios de que os bifosfonatos de gerações mais antigas tenham potenciais além da saúde óssea, como redução do metabolismo (beneficiando a renovação óssea) e melhora de desfechos no câncer de mama. Esses benefícios despertaram interesse em uma potencial diminuição do câncer em longo prazo com o denosumabe, disse o Dr. Michael.

"A medula óssea é uma suposta fonte de recidivas tardias. As células tumorais podem ficar abrigadas nesse local em um estado quiescente por 10, 15, 20 anos, e então, por alguma razão, "acordar" e causar metástases. Por isso, todos os medicamentos para distúrbios ósseos também são avaliados quanto à diminuição do câncer, o motivo pelo qual buscamos analisar esses 15 anos de dados", disse ele. O denosumabe é mais específico que os bifosfonatos, inibindo diretamente o ligante RANK, um importante mediador da ativação de osteoclastos. "Acredita-se que esse ligante auxilie no processo de ativação das metástases", disse o Dr. Michael.

Uma limitação do estudo foi o fato de os desfechos do ABCSG-18 serem secundários, tornando os resultados tecnicamente descritivos.

O estudo foi patrocinado pela Amgen.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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