Você pergunta se o seu paciente bebe?

Roxana Tabakman

Notificação

17 de junho de 2022

Na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, 73,5% dos brasileiros informaram que não haviam consumido bebidas alcoólicas nos 30 dias anteriores à participação na pesquisa, que, entre outras coisas, avaliou os padrões de consumo de álcool em 87.555 adultos.

O estudo, no qual a maioria dos homens (62,7%) e mulheres (82,9%) declararam não beber, é a maior pesquisa domiciliar realizada pelo Ministério da Saúde do Brasil em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [1] As informações foram coletadas por meio de entrevistas presenciais – e o consumo de álcool, autodeclarado.

De acordo com a PNS de 2019, quem relatou que nunca bebe ou que bebeu menos de uma vez no último mês foi considerado “não bebedor”. Uma dose de bebida alcoólica (uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de cachaça, uísque ou qualquer outra bebida destilada) foi calculada como 12,5 g de álcool para definir as seguintes categorias: abstenção (0 g/dia), consumo leve (1,0 a 12,5 g/dia), consumo moderado (12,6 a 49,9 g/dia) e consumo excessivo (≥ 50 g/dia).

Qual é o perfil do consumidor de bebidas alcoólicas?

No total, 26,5% dos entrevistados declararam ter consumido bebidas alcoólicas nos 30 dias anteriores à participação na pesquisa. A maioria dos bebedores tinha entre 25 e 44 anos de idade. Entre os que se autodeclararam bebedores, a maioria era de homens não casados. De acordo aos pesquisadores, ser solteiro, divorciado ou separado foi um forte preditor de comportamentos perigosos relacionados ao consumo de álcool.

Ter um grau de instrução maior foi associado a aumento do consumo de álcool: dentre os homens que não realizaram ou não haviam completado a educação primária no momento da entrevista, 70,2% informaram que não consumiam bebidas alcoólicas; dentre os universitários, apenas 52,1% disseram não ter consumido bebidas alcoólicas nos 30 dias anteriores à sua participação na pesquisa. Entre as mulheres, a tendencia foi similar: 90,8% e 72,6%, respectivamente.

A tendência de consumo de álcool foi maior entre os participantes brancos do que entre os participantes não brancos, com exceção das mulheres negras que eram 38% mais propensas a serem bebedoras moderadas do que as mulheres brancas. Em relação à distribuição por estados, os maiores índices de consumo entre os homens foram registrados em Sergipe e no Mato Grosso; e, entre as mulheres, no Mato Grosso do Sul e na Bahia.

Dezoito por cento dos homens foram classificados como consumidores leves, pouco menos do que a soma de consumidores moderados e consumidores excessivos: 16,0% + 3,2%. O mesmo não foi observado entre as mulheres, que registraram prevalência de: 11,9% de consumo leve, 4,6% de consumo moderado e 0,6% de consumo excessivo.

As mulheres com mais de 55 anos de idade e os homens com mais de 65 foram menos propensos a beber.

“É muito bom saber que 70% das populações de baixa renda e baixo nível educacional não bebem. Mas, dentro dos que bebem, 3% têm dependência e 10% bebem perigosamente; seja por uso nocivo ou dependência. Isso é muito alto. Se fosse na cidade do Rio de Janeiro, seriam 400 mil pessoas”, disse ao Medscape a Dra. Sandra Fortes, psiquiatra e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado de Rio de Janeiro (UERJ). “Apesar disso, na atenção primária, [os profissionais da saúde] não perguntam qual é o consumo de álcool dos pacientes.”

A Dra. Sandra é coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde (LIPAPS) e da pesquisa sobre capacitação para o cuidado do uso problemático de álcool na atenção primária. Ela trabalha há 20 anos em parceria com a City University of New York (CUNY). Neste período, ela percebeu que uma das questões fundamentais da atenção primária no Brasil é que as questões do consumo do álcool não eram tratadas. “Mas o álcool é altamente prevalente. Temos vários estudos mostrando que 10% da população adulta faz uso nocivo ou tem dependência [alcoólica].”

Um dos objetivos da equipe é desenvolver capacitações para que médicos e enfermeiros não especialistas, apoiados pelos profissionais especializados em saúde mental, identifiquem o consumo alcoólico dos pacientes e conversem a esse respeito com eles.

O grupo publicou recentemente uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro sobre a percepção dos profissionais da saúde em relação ao uso nocivo do álcool por parte dos pacientes. [2] O trabalho mostrou que os médicos e enfermeiros entrevistados raramente identificavam problemas relacionados ao álcool entre seus pacientes. Os problemas eram vistos apenas quando já havia consequências graves ou óbvias. Houve uma forte tendência em perceber o uso de álcool como simples estratégia de enfrentamento de problemas. De forma geral, os médicos e enfermeiros entrevistados não consideraram o consumo leve a moderado como prejudicial. Uma das conclusões é que a aceitação social do álcool reduz a priorização do rastreamento do consumo pelos profissionais da saúde.

“Por que os médicos de atenção primária não perguntam sobre o consumo de álcool? Porque muitas vezes é algo visto como uma questão pessoal, não como um hábito de saúde”, afirmou a Dra. Sandra.

De acordo com a especialista, a deficiência no treinamento dos médicos em relação ao rastreamento do alcoolismo vem desde a graduação. “Mas qualquer médico tem que perguntar sobre o consumo de álcool, conversar com o paciente sobre seus hábitos alcoólicos e, se for caracterizado um transtorno de uso nocivo ou de dependência, esse médico não especialista deve pedir o apoio do especialista.”

“Consumo social e alcoolismo são termos que deveriam ser abolidos. Os profissionais da saúde têm de se sentir confiantes em perguntar, de forma direta: ‘Você bebe?’ E, se a resposta for sim, perguntar sobre o consumo de álcool da pessoa de forma quantificada”,

“O médico não pode se esconder atrás de conceitos vagos, como beber socialmente ou alcoolismo. ‘Beber socialmente’ é um termo que deveria ser abolido da anamnese médica, porque não oferece informação. Alcoolismo não é uma categoria diagnóstica e traz estigma.”

A Dra. Sandra indica que, se o médico se sentir confortável, pode aplicar o Alcool Use Disorders Identification Test (AUDIT), que vai mostrar o nível real de risco. O AUDIT é o instrumento de avaliação preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a triagem de problemas ligados ao consumo de álcool em serviços de atenção primária. O teste foi adaptado e validado para o Brasil. [3]

De acordo com a pontuação obtida em 10 questões, o AUDIT auxilia a identificar quatro diferentes padrões de consumo: uso de baixo risco (consumo que provavelmente não levará a problemas), uso de risco (consumo que pode levar a problemas), uso nocivo (consumo que provavelmente já levou a problemas) e provável dependência. Os especialistas usam o termo "uso problemático" para os três últimos padrões de consumo.

Mesmo que esse recurso não seja usado, a informação sobre o nível de consumo de bebidas alcoólicas dos pacientes não deve ser deixada de lado. A Dra. Sandra explica que, pelas evidências atuais, qualquer consumo de álcool traz danos, mas pode se falar com o paciente de que as doses que estão associadas a um risco baixo são até sete doses por semana (para mulheres) ou 14 doses por semana (para homens), se limitando a três ou quatro doses, respectivamente, por ocasião social.

Não fazer as perguntas certas sobre o consumo de álcool pode exacerbar outras doenças físicas e de saúde mental. A identificação e a intervenção precoces, no entanto, podem reduzir os problemas relacionados ao álcool. Baixas taxas de detecção podem concentrar o problema em um pequeno conjunto de indivíduos facilmente caracterizados, ocultando um problema em uma população maior de pacientes.

“A falta de rastreamento regular é incompatível com a ênfase da atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) e representa uma oportunidade perdida para detectar o uso nocivo de álcool antes que os problemas se intensifiquem”, afirmam os autores do estudo.

Eles acreditam que a próxima geração de profissionais será fundamental para aumentar a detecção precoce de problemas relacionados ao álcool. Integrar o teor de álcool em currículos médicos e de enfermagem, e ensinar os alunos a usar um instrumento de triagem padrão deve fazer parte da educação médica. E propõem: “A instrução pode incluir como monitorar o uso de álcool para mudanças ao longo do tempo, semelhante à forma como são monitoradas as mudanças de peso ou pressão arterial”. [2]

A Dra. Sandra Fortes informou não ter conflitos de interesses.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A Saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para Médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). A acompanhe no Twitter: @roxanatabakman.

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