COMENTÁRIO

Subutilização de estatinas: de quem é a culpa?

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

15 de junho de 2022

Os benefícios das estatinas são inegáveis. Sobram evidências há mais de 30 anos. Contudo, vários estudos mostram uma subutilização desses fármacos em pacientes com indicação absoluta de recebe-los. Um estudo recente [1] analisou a utilização de estatinas em mais de 600 mil pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica, ou seja, com indicação Classe I para o tratamento. Os achados foram preocupantes:

  1. A terapia com estatina foi prescrita para apenas a metade dos pacientes;

  2. apenas 20% receberam estatinas de alta intensidade;

  3. os mais jovens, as mulheres e os pacientes com aterosclerose em leitos não coronarianos (doença arterial periférica ou doença cerebrovascular) tiveram menos probabilidade de receber o tratamento preconizado pelas diretrizes; e

  4. a adesão às estatinas foi baixa.

Diante desses resultados, a pergunta: Por quê?

Um editorial sobre o estudo apontou as possíveis determinantes. [2] Destaco três:

  1. A inércia terapêutica é muito prevalente entre os clínicos (ou seja, a falha em iniciar ou intensificar uma terapia clinicamente indicada).

  2. A hipervalorização dos efeitos adversos associados às estatinas, que são relatados na prática clínica com muito mais frequência do que nos ensaios clínicos.

  3. Desinformação sobre as estatinas tanto entre os médicos como entre a população geral. Com relação aos médicos, a desinformação estaria relacionada a problemas das próprias diretrizes. Já a na população geral, seria proveniente das fontes de círculos e mídias sociais, que valorizam os efeitos adversos sem destacar adequadamente os benefícios das estatinas.

Seria possível melhorar? O editorial sugere algumas ações. Como o seu título aponta, elas podem evitar a espera por “intervenções divinas” para resolver o problema. Em resumo, as ações são:

  • Aprimorar a disseminação e a implementação das diretrizes; torná-las mais curtas, objetivas e práticas. Reduzir o número de diretrizes, unificando e harmonizando as inúmeras diretrizes sobre os mesmos temas.

  • Envolver equipes multidisciplinares para educar, orientar e monitorar os pacientes quanto aos cuidados de saúde, estilo de vida e adesão terapêutica.

Implicações

A rigor, já discuti essas questões anteriormente. Relembro de um exemplo claro da falha de implementação de diretrizes: mais de 25% das tentativas de reanimação cardiorrespiratória de pacientes hospitalizados que sofreram parada cardíaca devido a arritmia ventricular não seguem as recomendações das diretrizes. Uma situação em que a recomendação é uma verdadeira “receita de bolo”. [3]

Da mesma forma, é conhecido o papel da equipe multidisciplinar para melhorar a adesão às orientações médicas.

O mais difícil, porém, é enfrentar informações distorcidas disseminadas entre a população geral. Todos os dias vejo pacientes com “medo” das estatinas, usando suplementos, vitaminas, hormônios e tantos outros tratamentos no mínimo duvidosos. Esse é um problema importante. Tanto que a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados tem divulgado um programa de educação e informação para a população geral e os profissionais da saúde sobre possíveis problemas relacionados ao uso de suplementos. [4]

A divulgação de programas como esse, bem como a implementação de equipes multiprofissionais, podem ajudar a reduzir os impactos negativos da desinformação na saúde.

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