Segurança cardiovascular da testosterona? Ainda não foi dado o apito final

Marlene Busko

Notificação

15 de junho de 2022

Uma nova metanálise indica que a terapia de reposição de testosterona não aumente o risco de desfechos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio (IAM) ou acidente vascular cerebral (AVC), em homens com hipogonadismo, mas especialistas dizem que essa bola ainda está rolando.

Uma resposta mais definitiva sobre a segurança cardiovascular da terapia com testosterona virá com o TRAVERSE, um estudo de desfechos cardiovasculares patrocinado pela empresa farmacêutica AbbVie, que terá até cinco anos de acompanhamento – com resultados esperados ainda este ano.

A metanálise mencionada foi conduzida por Jemma Hudson, afiliada à University of Aberdeen, no Reino Unido, et al., publicada on-line em 08 de junho no periódico The Lancet Healthy Longevity e seus resultados foram apresentados em 13 de junho pela autora sênior, Dra. Channa Y. Jayasena, Ph.D., na reunião anual da Endocrine Society (ENDO 2022), nos Estados Unidos.

Em 2014, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA exigiu que os rótulos dos produtos de testosterona passassem a conter um aviso alertando para a possibilidade de aumento do risco cardiovascular, e que a terapia fosse reservada apenas para pacientes com hipogonadismo sintomático. Na Europa, no entanto, a European Medicines Agency (EMA) concluiu que, quando o hipogonadismo é diagnosticado e devidamente controlado, não há evidências claras e consistentes de que a terapia com testosterona aumente o risco cardiovascular.

Buscando abordar esse impasse, Jemma e colaboradores montaram uma colaboração global para obter dados individuais dos desfechos cardiovasculares de participantes de ensaios clínicos randomizados que analisaram o uso de testosterona em homens com hipogonadismo.

Os pesquisadores agruparam dados de 35 ensaios publicados de 1992 a 2018, dentre estes, os pesquisadores obtiveram dados em nível dos pacientes de 17 ensaios (somando 3.431 pacientes). Os ensaios individuais tiveram de 3 a 12 meses de duração, com exceção de um, que durou três anos.

Ao longo de um acompanhamento médio de 9,5 meses, não houve aumento significativo nos desfechos cardiovasculares dos pacientes randomizados para terapia com testosterona versus placebo (razão de chances [RC] = 1,07; P = 0,62), nem houve aumento significativo dos riscos de morte, AVC ou diferentes tipos de desfecho cardiovascular, embora esses números tenham sido pequenos.

Este é “o estudo mais abrangente já realizado para avaliar a segurança do tratamento do hipogonadismo com testosterona”, de acordo com os pesquisadores. “Os resultados atuais fornecem alguma garantia de segurança da testosterona em curto e médio prazos para tratar o hipogonadismo masculino”, concluíram.

No entanto, eles também reconheceram que “são necessários dados de longo prazo para avaliar a segurança da testosterona de forma completa”.

A Dra. Erin D. Michos, médica e coautora de um editorial que acompanha o estudo, disse ao Medscape: “Este estudo não me diz que a testosterona baixa necessariamente precisa ser tratada. Ainda não é [uma intervenção] indicada apenas por conta de um número baixo [de testosterona sérica] diante de sintomas menos graves. De fato, acaba sendo caso a caso, o quão sintomática a pessoa está e qual é o seu risco cardiovascular.”

“Não é definitiva”

A Dra. Erin não é a única cética. Ela e o Dr. Steven Nissen, médico e pesquisador do estudo TRAVERSE, concordam que essa nova evidência ainda não é decisiva, em grande parte porque os estudos individuais incluídos na metanálise eram curtos e não haviam sido projetados como estudo de desfechos cardiovasculares.

O Dr. Steven, cardiologista da Cleveland Clinic, nos EUA, acrescentou que os ensaios individuais eram heterogêneos, com “muito poucos eventos cardiovasculares reais”, então a metanálise “não é definitiva”, disse ele em entrevista.

Embora esta metanálise, “que agrupou muitos estudos menores, seja tranquilizadora em relação à ausência de sinal de malefício, é realmente inconclusiva, porque o acompanhamento foi muito curto, com média de apenas 9,5 meses, e é realmente necessário um estudo maior, com acompanhamento mais longo, para ser mais conclusivo”, observou.

“A gente deve ter mais dados em breve”, provenientes do TRAVERSE, disse a Dra. Erin, afiliada à Divisão de Cardiologia da Johns Hopkins University School of Medicine, nos EUA, que não participou do estudo.

Enquanto isso, “não acho que esta análise mude as recomendações atuais”, disse ela.

“Devemos continuar a ter cautela, tal como indicado pela tarja da FDA, e usar a terapia com testosterona seletivamente para pessoas que apresentam verdadeiros sintomas de hipogonadismo”, mantendo a cautela ao usá-la, especialmente em homens com maior risco cardiovascular devido a história familiar ou com doença cardíaca conhecida.

Por outro lado, a metanálise não mostrou malefício, ela observou, “portanto, não precisamos necessariamente suspender a terapia se o paciente já a estiver tomando. Mas eu não iniciaria agora para novos pacientes, a menos que tivessem uma forte indicação”.

“Certamente, muita cautela é recomendada em relação ao uso da terapia de reposição de testosterona em pessoas com aterosclerose estabelecida, devido aos achados de progressão da placa nos estudos com testosterona e ao excesso de eventos cardiovasculares observados no estudo TOM, escreveram a Dra. Erin e seu colega editorialista Dr. Matthew J. Budoff , médico da University of California, Los Angeles (UCLA), nos EUA, no editorial.

Dados anteriores inconclusivos

As concentrações de testosterona diminuem progressivamente nos homens com o passar dos anos, cerca de 2% ao ano, escreveram os editorialistas. Além disso, homens com obesidade ou diabetes têm baixos níveis de testosterona, observou a Dra. Erin.

Níveis séricos baixos de testosterona foram associados a resistência à insulina, inflamação, dislipidemia e aterosclerose. A terapia de reposição de testosterona tem sido usada para aumentar a libido, melhorar a disfunção erétil e aumentar os níveis de energia, humor e força muscular.

Mas é sabido que a testosterona aumenta o hematócrito, e pode aumentar o risco de tromboembolia venosa.

Dois grandes estudos observacionais descrevem aumento do risco de IAM, AVC e morte para homens em uso de testosterona, em comparação com homens que não fizeram a terapia hormonal, mas o desenho dos estudos foi muito criticado, disseram Jemma et al. em sua metanálise.

Um estudo controlado por placebo foi interrompido precocemente por seu conselho de monitoramento de dados e segurança após um aumento de eventos cardiovasculares entre os homens a partir dos 65 anos que receberam seis meses de testosterona. Outros ensaios controlados não observaram esses efeitos, mas nenhum foi suficientemente forte.

Resultados da metanálise

Jemma et al. realizaram uma metanálise de 35 estudos em 5.601 homens a partir de 18 anos de idade com testosterona basal baixa (≤ 350 ng/dL) que foram randomizados para receber terapia de reposição de testosterona ou placebo por ao menos três meses, e para os quais havia dados sobre mortalidade, AVC e desfechos cardiovasculares.

Os homens tinham média de idade de 65 anos, índice de massa corporal médio de 30 kg/m² e a maioria (88%) era branca. Um quarto tinha angina, 8% tinham história de IAM e 27% tinham diabetes.

Os desfechos cardiovasculares e cerebrovasculares não foram desfechos primários.

Durante um acompanhamento médio de 9,5 meses, nos 13 estudos que forneceram essa informação, a taxa de eventos cardiovasculares foi semelhante entre os homens que receberam testosterona (120/1.601; 7,5%) e os que receberam placebo (110/1.519; 7,2%).

Nos 14 ensaios que forneceram essa informação, foram relatadas menos mortes durante o tratamento com testosterona (6/1.621; 0,4%) do que durante o tratamento com placebo (12/1.537; 0,8%), mas esses números foram muito pequenos para estabelecer se a testosterona reduziu o risco de morte.

Os eventos cardiovasculares mais comuns foram arritmia, seguido de doença coronariana, insuficiência cardíaca e IAM.

Idade, testosterona basal, tabagismo ou diabetes não foram fatores associados ao risco cardiovascular.

Os únicos efeitos adversos detectados foram edema e uma modesta redução da lipoproteína de alta densidade (HDL, sigla do inglês High-Density Lipoprotein) do colesterol.

“Homens diagnosticados com disfunção sexual, anemia inexplicada ou osteoporose devem ser avaliados para baixa testosterona”, disse a Dra. Channa por e-mail ao Medscape, mas acrescentou: “O rastreio em massa para níveis de testosterona não traz benefícios para homens assintomáticos.”

“Homens mais velhos ainda podem se beneficiar da testosterona, mas apenas se tiverem as características clínicas do hipogonadismo e baixos níveis [séricos] de testosterona”, concluiu.

O estudo recebeu apoio do programa Health Technology Assessment do National Institute for Health Research dos EUA. O ensaio TRAVERSE é patrocinado pela AbbVie. A Dra. Channa informou relações financeiras com a LogixX Pharma. Jemma informou não ter conflitos de interesses. A declaração de conflitos de interesses dos demais autores consta no artigo. A Dra. Erin informou relações financeiras com o Amato Fund in Women's Cardiovascular Health na Johns Hopkins School of Medicine, Novartis, Esperion, Amarin e AstraZeneca, não relacionadas com o trabalho submetido. O Dr. Matthew informou relações financeiras com a General Electric.

Lancet Healthy Longev. 2022;3:E381-E393, E368-E369. Texto completoEditorial

ENDO 2022. Apresentação em 13 de junho de 2022. Abstract OR-25.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....