Temas mais buscados em junho de 2022: Metformina

Ryan Syrek

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17 de junho de 2022

Ao final de cada semana nós identificamos o tema mais buscado no site do Medscape, procuramos compreender o que motivou a tendência e então compartilhamos um breve resumo sobre o tema acompanhado de um infográfico. Dúvidas ou sugestões? Entre em contato conosco pelo Twitter ou pelo Facebook

Um dos medicamentos geralmente mais prescritos no mundo, a metformina, é usado primariamente para tratar o diabetes mellitus tipo 2. Novas pesquisas sobre seus potenciais efeitos benéficos para tratar outras doenças, bem como questões emergentes sobre seus efeitos adversos, fizeram com que este medicamento se tornasse o tema clínico mais buscado da semana. Talvez mais especificamente, os resultados recém-divulgados de um ensaio clínico marcante tenham sido muito decepcionantes (veja infográfico abaixo).

Estes resultados "nos revelam que a metformina não é eficaz contra os tipos os mais comuns de câncer de mama e a qualquer utilização deste medicamento fora das indicações da bula, como para o tratamento destes tipos comuns de câncer de mama, deve ser suspensa”, disse em um comunicado à imprensa a médica oncologista e pesquisadora responsável pelo estudo Dra. Pamela Goodwin, pesquisadora especializada em câncer de mama no Lunenfeld-Tanenbaum Research Institute no Canadá.

O estudo foi feito com 3.649 pacientes com câncer de mama positivo ou negativo para receptores hormonais, sem diabetes. Os dois grupos de pacientes foram randomizados igualmente para receber metformina 850 mg duas vezes por dia ou placebo durante cinco anos. Entre 2.533 pacientes com câncer de mama positivo para receptores hormonais, a incidência de eventos de sobrevida livre de doença invasiva foi de 2,78 por 100 paciente-anos com a metformina em comparação a 2,74 por 100 paciente-anos com placebo (razão de risco de 1,01; p = 0,93). Entre 1.116 pacientes com doença negativa para receptores hormonais, a incidência de doença invasiva - eventos de sobrevida livre de doença foi de 3,58 com a metformina versus 3,60 com o placebo (razão de chances de 1,01; p = 0,92).

O único potencial ponto positivo: entre os pequenos grupos de pacientes (17% do total) com doença positiva para HER2, 1,93 casos de sobrevida livre de doença foram associados à metformina vs. 3,05 casos com o placebo (razão de risco de 0,64; p > 0,03) e 0,78 óbitos por 100 paciente-anos foram notificados no braço da metformina vs. 1,43 no braço do placebo (razão de risco de 0,54; p > 0,04). O benefício se limitou às pacientes com qualquer alelo C da variante de um nucleotídeo rs11212617. Estes resultados precisam ser confirmados em um ensaio clínico randomizado, mas é provável que a metformina "possa oferecer uma opção terapêutica adicional para o câncer de mama positivo para HER2", afirmou Dra. Pamela.

Os resultados de pesquisas recentes feitas com pacientes mais velhos com diabetes tipo 2 e câncer foram mais encorajadores. Uma análise de 7.725 pacientes com câncer de pulmão, mama, colorretal, próstata ou pâncreas revelou que 2.981 pacientes (38,5%) tinham recebido prescrição de metformina. Os pacientes que tomaram metformina apresentaram sobrevida global significativamente melhor nos dois modelos: o não ajustado (razão de risco de 0,73; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,69 a 0,76; p < 0,001) e o modelo ajustado (razão de risco ajustada de 0,77; IC 95% de 0,73 a 0,81; p < 0,001). As razões de risco entre os que receberam metformina foram 0,78 (IC 95% de 0,69 a 0,88; p < 0,001) para o câncer colorretal, 0,77 (IC 95% de 0,72 a 0,82; p < 0,001) para o câncer de pulmão, 0,82 (IC 95% de 0,72 a 0,93; p < 0,001) para o câncer de pâncreas e 0,74 (IC 95% de 0,62 a 0,88; p igual a 0,002) para o câncer de próstata.

A metformina também demonstrou recentemente ser promissora na atenuação do ganho de peso induzido por antipsicóticos. Novas diretrizes baseadas em evidências na Irlanda sugerem que os psiquiatras devem prescrever metformina cedo para os pacientes que ganham mais de 7% do seu peso inicial no primeiro mês de tratamento com antipsicóticos. Também respaldam o uso da metformina quando o ganho de peso já ocorreu. A dose inicial proposta é de 500 mg duas vezes ao dia às refeições, com incrementos de 500 mg a cada uma duas semanas até atingir uma dose alvo de 2 g/dia. No caso de intervenção precoce, as diretrizes propõem estabilizar inicialmente o peso ganho ou, se possível, reverter o excesso de peso. Quando o ganho de peso já tiver ocorrido, o objetivo é perder pelo menos 5% do peso nos próximos seis meses.

Um par de estudos também sugere que a metformina pode ter benefícios neuroprotetores. Um estudo pré-impresso que ainda não foi revisto pelos especialistas descobriu que o uso do medicamento provavelmente reduz o risco da doença de Alzheimer na população geral. O uso de metformina geneticamente aproximada equivalente a uma redução de 6,75 mmol/mol (1,09%) da hemoglobina glicada (A1c) foi associado a 4% menos chances de doença de Alzheimer (p =1,06 ˣ 10-4) em pessoas sem diabetes. Outra revisão sistemática com metanálise dos dados longitudinais constatou que a metformina pode estar associada a uma diminuição mais ampla do risco de doença neurodegenerativa. Dados agrupados mostraram que o risco relativo associado ao início da doença neurodegenerativa foi de 0,77 (IC 95% de 0,67 a 0,88) para os pacientes com diabetes tomando metformina. O efeito foi maior com uso mais prolongado, com risco relativo de 0,29 (IC 95% de 0,13 a 0,44) para os que tomaram metformina durante quatro anos ou mais.

De resultados decepcionantes a achados promissores para várias doenças sem relação com o diabetes, uma onda de pesquisas com a metformina ajudou a transformar esse conhecido medicamento no tema clínico mais popular da semana.

Saiba mais sobre metformina.

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