Exposição in utero à covid-19: uma análise preliminar do neurodesenvolvimento de recém-nascidos

Liam Davenport

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14 de junho de 2022

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Uma pequena metanálise sugere que a ocorrência de infecção por covid-19 durante a gestação esteja associada a um efeito discreto, porém significativo, no neurodesenvolvimento infantil. O trabalho indica a necessidade de mais estudos sobre o tema e de monitoramento ao longo da gestação.

O estudo avaliou 24 gestantes e a respectiva prole; houve 12 casos de covid-19 durante a gestação. Uma avaliação neonatal na sexta semana de vida indicou comprometimento no âmbito de interação social.

“Nem todos os neonatos de mães infectadas pela covid-19 [durante a gestação] apresentam diferenças no desenvolvimento neurológico, mas os nossos dados mostram que o risco é maior para esses bebês do que para os que não foram expostos à covid-19 no útero. Precisamos de um estudo maior que confirme a extensão exata dessa diferença”, disse em um comunicado a primeira autora do estudo, Dra. Rosa Ayesa Arriola, Ph.D., afiliada ao Hospital Universitario Marqués de Valdecilla – Instituto de Investigación Sanitaria Valdecilla (IDIVAL), na Espanha.

Os achados foram apresentados no congresso virtual de 2022 da European Psychiatric Association (EPA).

Diferentes respostas ao afago

A coautora Águeda Castro Quintas, doutoranda, afiliada ao Centro de Investigación Biomédica en Red de Salud Mental (CIBERSAM) e à Universitat de Barcelona, na Espanha, explicou que os exames mostraram que os neonatos expostos in utero à covid-19 apresentaram uma reação “ligeiramente diferente ao colo ou acolhimento físico.”

“É preciso pontuar que estes são resultados preliminares”, acrescentou a coautora. Trata-se de uma parte de um projeto que acompanha uma amostra de mais de 100 mães e respectivos bebês. Os autores pretendem comparar os resultados com os de outro estudo semelhante.

O grupo também acompanhará a linguagem infantil e o desenvolvimento motor entre 18 e 42 meses de idade.

“Este é um projeto em andamento, e estamos em estágio inicial”, disse Águeda. “Não sabemos se esses efeitos resultarão em algum problema no futuro”, mas a observação prolongada “pode nos ajudar a entender isso”.

“É claro que, em bebês tão pequenos, há vários elementos que simplesmente não dá para mensurar, como capacidade discursiva ou cognitiva”, acrescentou outra pesquisadora do estudo, Nerea San Martín González, afiliada ao Departamento de Biología Evolutiva, Ecología y Ciencias Ambientales da Universitat de Barcelona.

Ao destacar a necessidade de amostras maiores, a coautora disse que, “neste ínterim, precisamos enfatizar a importância do acompanhamento médico para contribuir com uma gestação saudável”.

As pesquisadoras observaram que as consequências da pandemia de covid-19 para recém-nascidos de mulheres que adoeceram durante a gestação ainda são “desconhecidas”.

No entanto, estudos anteriores de outras infecções gestacionais sugerem que a prole seja “especialmente vulnerável”, pois os mecanismos fisiopatológicos da infecção, como as tempestades de citocinas e a microcoagulação, “claramente podem comprometer o neurodesenvolvimento fetal”.

Para aprofundar a pesquisa, elas analisaram o neurodesenvolvimento de bebês nascidos tanto imediatamente antes quanto durante a pandemia de covid-19, de 2017 a 2021.

Vinte e uma pacientes que tiveram covid-19 durante a gestação foram pareadas com 21 controles saudáveis. As participantes foram avaliadas durante a gestação e após o parto, completando exames hormonais e bioquímicos, testes salivares, avaliações de movimento e questionários psicológicos, ajustados para vários fatores.

A equipe também usou a Neonatal Behavioural Assessment Scale (NBAS) para avaliar aspectos neurológicos, sociais e comportamentais dos bebês em sua sexta semana de vida.

“Estamos sendo especialmente sensíveis na condução dos exames”, disse Águeda. “Cada mãe e bebê foram cuidadosamente examinados por médicos especializados na área e nos exames realizados.”

Entre os bebês expostos à covid-19 in utero, houve uma diminuição significativa nas pontuações da NBAS relativas ao âmbito de interação social, principalmente quando a infecção ocorreu antes da 20ª semana de gestação.

Outras subescalas da NBAS não foram associadas à covid-19 durante a gestação.

São necessárias mais pesquisas

Comentando os achados, o Dr. Livio Provenzi, Ph.D., psicólogo e pesquisador de psicobiologia do desenvolvimento na Università degli Studi di Pavia, na Itália, observou que há uma “grande necessidade” de estudos sobre o efeito direto e indireto da pandemia de covid-19 em pais/mães e sua prole.

“A gestação é um período que molda muito do nosso desenvolvimento subsequente, e a exposição a adversidades durante a gestação pode deixar marcas biológicas duradouras.”

O Dr. Livio, que não participou do estudo, acrescentou no comunicado que os achados reforçam “as evidências de alterações epigenéticas em bebês nascidos de mães expostas ao estresse da pandemia durante a gestação”.

“Isso mostra que precisamos de mais pesquisas internacionais, em larga escala, para que possamos compreender os efeitos no desenvolvimento dessa emergência sanitária e oferecer a melhor qualidade de atendimento aos progenitores e seus bebês.”

O estudo foi financiado pelo Ministerio de Asuntos Económicos e Transformación Digital, Instituto de Salud Carlos III, Universitat de Barcelona e Governo da Cantábria. Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

EPA 2022. Abstract: The Impact of Maternal SARS-COV-2 Infection in Early Stages of Newborn Neurodevelopment: Preliminary Results in a Multicenter Spanish Study. Apresentado em 06 de junho de 2022.

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