COMENTÁRIO

Devemos anticoagular pacientes que apresentam fibrilação atrial transitória após uma infecção?

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

14 de junho de 2022

Há poucos dias, passei visita em um paciente idoso internado por apresentar fibrilação atrial (FA) durante uma infecção urinária. Era o primeiro episódio conhecido da arritmia, e foi rapidamente revertido com a administração de amiodarona endovenosa. O paciente tinha antecedente de doença coronariana tratada com revascularização percutânea e ótima evolução. Confesso que veio a dúvida: haveria indicação de anticoagulação apesar da transitoriedade e curtíssima duração da FA?

As diretrizes não fornecem recomendações claras e há poucos dados sobre esse contexto clínico.

Em uma agradável coincidência, acabara de ser publicado um estudo de coorte dinamarquês que avaliou o risco de tromboembolia e FA recorrente em pacientes com FA de início recente, transitória, após pneumonia adquirida na comunidade, que não usaram terapia anticoagulante. Além disso, os autores analisaram a evolução dos pacientes que iniciaram a terapia anticoagulante até três anos após o diagnóstico de FA incidente. [1]

O estudo

Entre mais de 274 mil pacientes hospitalizados por pneumonia adquirida na comunidade, 6.553 pacientes (média de idade: 79 anos) desenvolveram FA de início recente. 

Um ano após a FA incidente , o risco de tromboembolia foi de 0,8% para os pacientes sem FA versus 2,1% para os pacientes com FA de início recente que não receberam terapia anticoagulante. Esse risco foi maior para os pacientes com FA e alto risco de acidente vascular cerebral (AVC). 

Três anos após a FA incidente, o risco de tromboembolia foi de 3,5% para os pacientes com risco intermediário de AVC e de 5,3% para os pacientes com alto risco de AVC. Nesse período, 33% dos pacientes tiveram um novo diagnóstico hospitalar de FA e 14% iniciaram terapia anticoagulante. Dentre os 274 mil pacientes que tiveram pneumonia, a mortalidade por todas as causas foi de 25% nos sem FA vs. 49% nos pacientes com recorrência da FA.

Implicações

O estudo concluiu que a FA de início recente após pneumonia adquirida na comunidade esteve associada a um risco aumentado de tromboembolia. Além disso, mostrou que cerca de um terço dos pacientes teve um novo atendimento hospitalar ou ambulatorial para FA durante o seguimento de três anos.

Pneumonia e FA frequentemente coexistem e a FA de início recente é uma complicação comum. Estima-se que ocorra em 5% a 10% dos pacientes com pneumonia. Infecções podem desencadear FA por vários mecanismos (inflamação, por exemplo), especialmente em pacientes predispostos a desenvolver a arritmia, como idosos e pessoas com comorbidades.

O estudo em questão sugere duas mensagens importantes:

  1. A FA desencadeada por infecções agudas não é uma condição transitória e autolimitada que reverte com a resolução da infecção; e

  2. os riscos aumentados de tromboembolia (e de mortalidade) podem justificar a terapia de anticoagulação nesses pacientes.

Isto posto, iniciei a anticoagulação no paciente cujo caso descrevi acima.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....