Episiotomia no Brasil: tendência de queda, mas ainda acima do recomendado

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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14 de junho de 2022

A episiotomia, que já foi realizada de forma rotineira durante o parto, tem sido empregada de forma cada vez mais seletiva. Um estudo realizado no município de Rio Grande, no litoral sul do Rio Grande do Sul, mostra queda de 3,7 vezes na taxa de execução deste procedimento na região entre 2007 e 2019.

O resultado, publicado na Revista de Saúde Pública, [1] é positivo, entretanto, segundo os autores do estudo, afiliados à Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e à Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), também mostra que a prática vem sendo realizada principalmente em mulheres com baixo risco de laceração, quando o ideal seria o contrário.

O Medscape em português conversou com o primeiro autor da pesquisa, o Dr. Juraci Almeida Cesar, médico, mestre e doutor em epidemiologia e professor da FURG, sobre o trabalho.

Detalhes do estudo

Analisando os anos de 2007, 2010, 2013, 2016 e 2019, os autores identificaram registros de 12.914 partos na cidade do Rio Grande. Desse total, 12.645 foram investigados pelo grupo.

A pesquisa mostrou que, nos cinco inquéritos analisados, a episiotomia foi empregada em 51,3% das mulheres que deram à luz por parto vaginal. A análise por ano indica que, enquanto a taxa de realização do procedimento em 2007 foi de 70,9%, em 2019, a taxa foi de 19,4%. Houve uma queda, mas é importante lembrar que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a maior taxa aceitável é de 10%. [2]

Segundo o Dr. Juraci, a queda observada no estudo não está associada a uma intervenção específica, mas, provavelmente, a uma sucessão de medidas implementadas e eventos favoráveis ocorridos em pouco tempo, por exemplo: a necessidade de autorização, por escrito, da parturiente para a realização do procedimento; a exigência da presença de um acompanhante; a melhora na infraestrutura hospitalar da região, principalmente a do hospital universitário da FURG, onde é realizada a maior parte dos partos da cidade; uma participação mais efetiva da equipe de enfermagem, dando mais suporte à gestante desde a chegada ao hospital até o momento do parto; e o fechamento temporário da sala de parto e maternidade da Santa Casa de Misericórdia de Rio Grande, onde a taxa de ocorrência de episiotomia era cerca de duas vezes maior.

Os pesquisadores também identificaram fatores significativamente associados à realização do procedimento:

  • idade mais jovem;

  • maior nível educacional;

  • maior renda familiar;

  • gestante primípara;

  • atendimento em unidade de saúde da rede particular;

  • parto induzido por oxitocina;

  • instrumentalização do parto (uso de fórceps); e

  • nascimento de bebês ≥ 4.000 g.

Para o Dr. Juraci, a episiotomia deveria ser destinada às parturientes com maior risco de laceração, no entanto, os resultados de sua pesquisa indicam que, na prática, vem ocorrendo o inverso. “Há um longo caminho a percorrer visando inverter esta ordem, e isto passa pelo trabalho junto às mães e profissionais de saúde”, disse.

O uso desnecessário, abusivo da episiotomia, segundo o médico, traz mais risco do que benefício à mulher. “O princípio básico da atuação médica é não prejudicar, não trazer e nem causar dano ao paciente”, destacou, explicando que, mesmo que o procedimento esteja sendo feito principalmente nas pacientes de menor risco, ainda assim é uma prática que não se justifica, e que é desnecessária na maioria dos casos. “Por esta razão, deve ser coibida como prática de rotina e utilizada com muita parcimônia. Daí a necessidade de formar melhor o médico e de orientar as mães quanto às consequências deste procedimento”, ressaltou.

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