Identificando desnutrição na avaliação pré-operatória de pacientes com câncer ginecológico

Megan Brooks

Notificação

8 de junho de 2022

A presença de indicadores de desnutrição em pacientes com câncer ginecológico prestes a receberem tratamento cirúrgico está associada a risco de maus desfechos pós-operatórios. Todavia, o valor da avaliação pré-operatória para desnutrição depende do tipo de câncer e do critério de desnutrição utilizado, segundo novos achados publicados no periódico Gynecologic Oncology.

No câncer de ovário, duas definições de desnutrição (a segunda definição da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism [ESPEN2] e albumina baixa) foram associadas ao maior número de desfechos adversos. Já no câncer de endométrio, a albumina baixa e os critérios do American College of Surgeons (ACS) foram associados a mais desfechos adversos.

"Ao identificarmos as definições de desnutrição mais relevantes para cada câncer ginecológico, esperamos fornecer informações específicas para cada paciente sobre manejo nutricional perioperatório e aconselhamento baseado em risco", escreveram a autora correspondente, Dra. Laura Havrilesky, e seus colaboradores, todos da Duke University, nos Estados Unidos.

Até 80% dos pacientes com câncer apresentam desnutrição. Estudos anteriores mostraram que o estado nutricional impacta nos desfechos pós-operatórios em neoplasias ginecológicas, inclusive na mortalidade. Entretanto, saber quais definições de desnutrição são mais apropriadas para cada tipo de câncer ainda é uma questão pouco clara.

Utilizando a base de dados do National Surgical Quality Improvement Program (NSQIP), os pesquisadores identificaram 76.290 pacientes submetidas a cirurgias oncológicas de endométrio (68,8%), ovário (23,3%) ou colo do útero (7,9%) entre 2005 e 2019. Em seguida os autores classificaram as pacientes a partir dos seguintes seis critérios e definições de desnutrição.

A ESPEN utiliza duas definições de desnutrição, a ESPEN 1 e a ESPEN 2: A primeira define desnutrição como: história de perda ponderal involuntária (> 10% do peso corporal ao longo de qualquer período ou > 5% ao longo dos últimos três meses) + índice de massa corporal (IMC) entre 18,5 e 20 kg/m2 (pessoas < 70 anos de idade) ou IMC entre 18,5 e 22 kg/m2 (pessoas ≥ 70 anos de idade). A ESPEN 2 define desnutrição como IMC < 18,5 kg/m2.

O ACS define desnutrição como perda ponderal > 10% até seis meses antes da cirurgia para pacientes com um IMC na categoria normal ou de sobrepeso.

Uma definição de desnutrição grave seria IMC < 18,5 kg/m2 + perda > 10% do peso corporal, e de desnutrição leve seria IMC entre 18,5 e 20 kg/m2 para pessoas > 70 anos e entre 18,5 e 22 kg/m2 para pessoas ≥ 70 anos. E, por fim, a albumina baixa (< 3,5 g/dL) também é um indicador de desnutrição.

Os autores identificaram que 3,7% das pacientes preencheram os critérios de desnutrição leve, 0,1% de desnutrição grave, 0,2% para ESPEN1, 1,1% para ESPEN2 e 1,3% para a definição do ACS. A albumina sérica de 11% das pacientes com registro pré-operatório deste parâmetro (61,4% do estudo) era < 3,5 g/dL.

Pacientes que se encaixaram em todas as definições de desnutrição tiveram mais risco de complicações maiores, independentemente do tipo de câncer. Ao todo, 13,5% das pacientes apresentaram complicações maiores, 5,5% precisaram ser internadas novamente e 1,7% precisaram de reabordagem cirúrgica.

No câncer de endométrio, a desnutrição (definição ACS) e a albumina baixa foram associadas ao maior número de eventos adversos. A desnutrição (definição ACS) foi associada a aumento do risco de reinternação (risco relativo ajustado [RRa] = 2,74), reabordagem cirúrgica (RRa = 3,61), complicações maiores (RRa = 3,92) e complicações menores (RRa = 2,03).

De forma similar, no câncer de endométrio, a albumina baixa foi associada a aumento do risco de reinternação (RRa = 2,38), reabordagem cirúrgica (RRa = 2,56), complicações maiores (RRa = 3,74) e complicações menores (RRa = 2,17).

No câncer de ovário, a desnutrição (definição ESPEN 2) e a albumina baixa foram associadas ao maior número de desfechos adversos. A desnutrição (definição ESPEN 2) foi associada a mais reinternações (RRa = 1,69), reabordagens cirúrgicas (RRa = 2,53) e complicações maiores (RRa = 1,36). De forma similar, a albumina baixa foi associada a um risco maior de reinternação (RRa = 1,28), reabordagem cirúrgica (RRa = 1,31) e complicações maiores (RRa = 1,74). 

As pacientes com câncer de ovário apresentaram o maior grau de desnutrição dentre as neoplasias ginecológicas malignas, possivelmente devido à alta taxa de diagnósticos em estágios 3 e 4, observaram os autores.

No câncer de colo do útero, a albumina baixa foi associada a aumento do risco de reinternação (RRa = 1,48), reabordagem cirúrgica (RRa = 2,25), internação prolongada (quatro dias), complicações maiores (RRa = 2,59) e complicações menores (RRa = 1,52). 

Na verdade, "a albumina baixa foi associada a todos os principais desfechos negativos em todas as neoplasias e deve ser dosada antes da cirurgia", observaram os autores. Pacientes com albumina baixa tiveram um risco de morte 10 vezes maior nos 30 dias após a cirurgia do que as pacientes com albumina normal, e tiveram maior probabilidade de apresentar complicações (maiores e menores) e internação prolongada.

De forma geral, esse estudo demonstra como diferentes definições de desnutrição estão associadas a diferentes desfechos pós-operatórios em três neoplasias ginecológicas.

"Marcadores nutricionais como IMC, perda ponderal e albumina devem ser avaliados em todas as pacientes com câncer ginecológico para diagnosticar a desnutrição pré-operatória de forma precisa", concluíram os autores.

O estudo não teve financiamento específico. Os autores informaram não ter conflitos de interesses. 

Gynecol Cancer. Publicado on-line em 28 de fevereiro de 2022.  Abstract.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....