COMENTÁRIO

Fim trágico para um conto de fadas: o caso que eu gostaria de poder reescrever

Dr. Mark E. Williams

Notificação

6 de junho de 2022

Dr. Mark E. Williams

A comunidade de aposentados na qual eu trabalhei no início da minha carreira acomodava uma grande variedade de pessoas abastadas de todo o mundo. Cuidar de pessoas frágeis que, em alguns casos, se sentiam no direito de ter privilégios ou tratamento especial às vezes era desafiador, mas foi um trabalho gratificante. O serviço era prestado no horário definido pelo paciente.

O local tinha vários níveis de atendimento, indo desde uma vida independente passando por serviços de enfermagem em domicílio e até contava com uma unidade de demência bloqueada.

Um dia, eu estava programado para atender Mary Elizabeth, uma paciente no início de sua sexta década de vida que tinha acabado de se mudar para a área de vida independente da nossa comunidade. Eu a acolhi na sala do consultório e percebi uma rigidez parkinsoniana na sua marcha. Ela estava muito bem cuidada, com cabelos tingidos de vermelho e olhos cor de mel. Seu exame foi essencialmente inocente, embora eu imaginasse que ela tivesse um transtorno alimentar. Sua história foi instrutiva.

Uma vida encantada

Mary Elizabeth era filha única de uma antiga família aristocrática. Seu pai teve vários negócios relacionados com material e equipamento para fazendas. Ela viveu uma vida muito privilegiada em uma grande propriedade com cavalos e jardins. Aprendeu a tocar piano com os melhores professores da região, tornando-se uma pianista realizada que tocava em uma orquestra e em grandes eventos sociais, inclusive em recepções formais na mansão do governador. Em seu quarto, tinha um retrato seu em um elegante vestido branco sentada à frente de seu piano de cauda Steinway, uma verdadeira antiguidade. Ela tinha muitos admiradores, mas manteve-os todos à distância, exceto por um amigo de escola, Mike, que ela considerava como irmão.

Mary Elizabeth tinha vivido uma vida de conto de fadas até meados da sua quinta década de vida, quando começou a notar o enrijecimento dos dedos. A rigidez evoluiu comprometendo sua performance no piano. Um neurologista diagnosticou doença de Parkinson. Procurou uma segunda opinião em várias clínicas de renome em todo o país; o diagnóstico foi confirmado.

Os medicamentos ajudaram, mas o tremor e a rigidez progrediram. Quando a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou um tratamento para a doença de Parkinson, ela era uma candidata ansiosa e disposta a submeter-se à cirurgia para estimulação cerebral profunda. Sua família podia facilmente pagar a despesa de 100 mil dólares, e ela foi uma das primeiras pessoas a fazer o procedimento. Depois disso, mudou-se para a maior casa disponível na nossa comunidade. Mike também veio morar nas redondezas, mas eles viviam separadamente.

"Ela prefere viver no palácio, mas eu fico mais confortável nas estrebarias", disse ele. Ele tinha um diploma em engenharia elétrica e estava aprendendo programação avançada de computadores.

Não era mais a mulher que tinha sido

Mary Elizabeth chegou para sua nova consulta com Mike, que ficou na sala de espera. Mary Elizabeth era culta e elegante sem ser arrogante. Ela admitiu que a doença de Parkinson tinha causado um grande golpe à sua vaidade.

"Isso não é de todo mau, mas eu sinto como se eu tivesse caído das alturas", disse ela.

Após seu exame, ela convidou Mike de volta para conversar durante a consulta. Ele obviamente gostava profundamente dela e disse que ela vinha tendo alterações de humor e que ele sabia quando ela estava ficando deprimida. Ela estava sendo acompanhada por uma psiquiatra e estava tomando um antidepressivo. Felizmente, uma autoridade internacional em doença de Parkinson era professor em um centro médico próximo, de modo que eu a encaminhei para ele. Ele confirmou o diagnóstico e fez ajustes em sua estimulação cerebral profunda.

Uma chamada fora do horário

Inicialmente, Mary Elizabeth teve boa resposta à estimulação cerebral profunda. Mas com o passar do tempo, os seus sinais e sintomas pioraram. Tornou-se cada vez mais difícil para ela se maquiar e tocar piano.

Uma noite, ela ligou para minha casa e perguntou se eu poderia vê-la na manhã seguinte.

"Claro, eu vou te ver. Há alguma coisa que eu possa fazer por você agora? Você nunca ligou para minha casa", eu disse.

"Não, estou bem. Mas Mike acabou de sair para ver seus pais, que estão doentes, e eu estou me sentindo sozinha."

"Você se sente mais deprimida? Você teve pensamentos suicidas?", perguntei.

"Sim. Tenho esses pensamentos o tempo todo, mas acho que o medicamento está ajudando e eu converso sobre isso com a minha psiquiatra."

"Você estaria de acordo que eu ligasse para sua psiquiatra esta noite para colocá-la a par dos seus sentimentos?”

"Não há necessidade de incomodá-la", disse ela. "Nos vemos amanhã."

Eu liguei para a psiquiatra de qualquer forma e deixei uma mensagem na caixa postal.

No dia seguinte, fiquei aliviado quando vi Mary Elizabeth no consultório. Como de costume, ela estava bem vestida, e recém-maquiada. Ela estava quase alegre demais; pediu desculpas profusamente por ter me ligado. Ela disse que teria uma consulta com sua psiquiatra em alguns dias e que Mike iria voltar no final da semana.

A próxima ligação telefônica mudou tudo

Alguns dias depois Mike me ligou no consultório. Sua voz estava trêmula, e eu sabia que algo ruim tinha acontecido.

"Mary Elizabeth morreu", ele disse. "Acabei de encontrá-la no seu quarto com frascos vazios dos seus medicamentos. Eu conversei com ela por telefone na noite passada e ela parecia estar realmente feliz. Ela me disse que tudo iria ficar bem. Ela me deixou uma nota."

Reflexão

Retrospectivamente, eu gostaria de ter assegurado que Mary Elizabeth tivesse sido atendida imediatamente pela sua psiquiatra. Minha culpa sobre o desenrolar dessa história me faz lembrar de permanecer sempre atento ao humor não somente de meus pacientes, mas dos meus colegas, amigos e familiares também.

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