HDL muito alto: excesso de coisa boa ou problema à vista?

Batya Swift Yasgur

Notificação

3 de junho de 2022

Novo estudo sugere que níveis muito altos de lipoproteína de alta densidade do colesterol (HDL-C, sigla do inglês High-Density Lipoprotein cholesterol) estejam associados a maior risco de morte para pacientes com doença coronariana.

Os pesquisadores estudaram cerca de 10 mil pacientes com doença coronariana em duas coortes diferentes. Após o ajuste por uma gama de covariáveis, eles identificaram que, para pacientes com HDL-C > 80 mg/dL, o risco de morte por todas as causas e de morte de origem cardiovascular foi, respectivamente, 96% e 71% maior do que para os pacientes com HDL-C entre 40 e 60 mg/dL.

Foi encontrada uma associação em forma de U, com maior risco de morte por todas as causas e de morte de origem cardiovascular para os pacientes com valores muito baixos e muito altos, em comparação aos valores médios de HDL-C.

"Níveis muito altos de HDL foram associados a aumento do risco de desfechos adversos, e não a redução desse risco, como se pensava. Isto se aplica tanto para a população geral, como para pessoas com diagnóstico de doença coronariana", disse o autor sênior, Dr. Arshed A. Quyumi, médico e professor de medicina da Divisão de Cardiologia, Emory University School of Medicine, nos Estados Unidos, para o Medscape.

"Os médicos precisam saber que com níveis de HDL-C acima de 80 mg/dL é necessário mais agressividade na redução do risco, sem acreditar que o paciente seja de ‘baixo risco’ diante de altos níveis de ‘bom’ colesterol”, disse Dr. Arshed, que é diretor do Emory Clinical Cardiovascular Research Institute.

O estudo foi publicado on-line em 18 de março no periódico JAMA Cardiology.

Associação inversa?

Historicamente, os níveis de HDL-C têm sido "inversamente associados ao aumento do risco de doença cardiovascular; entretanto, estudos recentes têm questionado a eficácia dos tratamentos visando aumentar os níveis de HDL-C", escreveram os autores. Além disso, as variantes genéticas associadas ao HDL-C não estão relacionadas com o risco de doença cardiovascular.

"Ainda não se sabe se, para pacientes com doença coronariana, níveis muito altos de HDL-C estão associados a risco de morte", escreveram. Neste estudo, os pesquisadores investigaram não somente o potencial risco dos níveis elevados de HDL-C para esses pacientes, mas também a associação de variantes genéticas conhecidas da HDL-C com esse risco.

Para isso, eles analisaram dados de um subconjunto de pacientes com doença coronariana em dois grupos de estudo independentes: O UK Biobank do Reino Unido (UKB; n = 14.478; média de idade [DP] de 61,2 [5,8] anos; 76,2% do sexo masculino; 93,8% brancos) e o Biobank Cardiovascular Emory (EmCAB; n = 5.467; média de idade [DP] de 63,8 [12,3] anos; 66,4% do sexo masculino; 73,2% brancos). Os participantes foram acompanhados prospectivamente por uma mediana de 8,9 (intervalo interquartil de 8,0 a 9,7) anos e 6,7 (intervalo interquartil de 4,0 a 10,8) anos, respectivamente.

Outros dados obtidos incluíram história médica e de uso de medicamentos e caraterísticas demográficas, que foram utilizadas como covariáveis, bem como informações genômicas.

Da coorte do UKB, houve 12,4% e 7,9% mortes por todas as causas ou de origem cardiovascular, respectivamente, durante o período de acompanhamento, e 1,8% dos participantes tinham HDL-C > 80 mg/dL.

Entre esses participantes com níveis muito elevados de HDL-C, houve 16,9% e 8,6% mortes por todas as causas ou de origem cardiovascular, respectivamente. Em comparação com a categoria de referência (HDL-C entre 40 e 60 mg/dL), os pacientes com baixos níveis de HDL-C (≤ 30 mg/dL) tiveram maior estimativa de risco de morte por todas as causas e de origem cardiovascular, mesmo após o ajuste por covariáveis (razão de risco de 1,33; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,07 a 1,64 e razão de risco de 1,42; IC 95% de 1,09 a 1,85, respectivamente; p = 0,009).

Segundo os autores, é importante pontuar que, "comparados com a categoria de referência, os pacientes com níveis muito altos de HDL-C (> 80 mg/dL) também tiveram mais risco de morte por todas as causas (razão de risco de 1,58 de 1,16 a 2,14; p = 0,004)”.

Embora a prevalência de mortalidade cardiovascular não tenha sido significativamente maior nas análises não ajustadas, após o ajuste, o grupo da HDL-C mais alta apresentou maior risco de morte por todas as causas e de origem cardiovascular (razão de risco de 1,96; IC 95% de 1,42 a 2,71; p < 0,001 e razão de risco de 1,71; IC 95% de 1,09 a 2,68, respectivamente; p = 0,02).

Em comparação ao sexo feminino, os pacientes do sexo masculino com HDL-C > 80 mg/dL apresentaram maior risco de morte por todas as causas e de morte de origem cardiovascular.

Risco de morte por todas as causas e morte de origem cardiovascular com HDL-C > 80 vs. 40 a 60 mg/dL, por sexo

 

Homens

Mulheres

Motivo

R (IC 95%)

Valor de p

Razão de risco (IC 95%)

Valor de p

Todas as causas

2,63 (1,75 a 3,95)

< 0,001

1,39 (0,82 a 2,35)

0,23

Cardiovascular

2,50 (1,47 a 4,27)

< 0,001

0,89 (0,39 a 2,07)

0,79

Achados semelhantes foram observados nos pacientes do EmCAB, dos quais 1,6% tinham níveis de HDL-C > 80 mg/dL. No período de acompanhamento, foram registradas 26,9% e 13,8% de mortes por todas as causas e de origem cardiovascular, respectivamente. No grupo HDL-C > 80 mg/dL, foram registradas 30,0% e 16,7% de mortes por todas as causas e de origem cardiovascular, respectivamente.

Em comparação aos níveis de HDL-C de 40 a 60 mg/dL, os níveis nos grupos mais baixos (≤ 30 mg/dL) e mais altos (> 80 mg/dL) tiveram risco "estatisticamente significativo ou quase significativo de morte por todas as causas nos dois modelos, não ajustado e totalmente ajustado.

Risco de morte com baixos e altos níveis de HDL vs. 40 a 60 mg/dL em modelos não ajustados e ajustados

 

Razão de risco não ajustada (IC 95%) Valor de p

Razão de risco ajustada (IC 95%) Valor de p

Motivo

HDL ≤ 30 mg/dL

HDL > 80 mg/dL

HDL ≤ 30 mg/dL

HDL > 80 mg/dL

Todas as causas

1,26 (1,09 a 1,46) 0,002

1,43 (0,97 a 2,10) 0,07

1,22 (1,03 a 1,45) 0,02

1,63 (1,09 a 2,43) 0,02

Cardiovascular

1,37 (1,13 a 1,68) 0,002

1,46 (0,88 a 2,44) 0,14

1,35 (1,06 a 1,72) 0,01

1,57 (0,95 a 2,61) 0,08

"Utilizando curvas ajustadas de razão de risco, uma associação em forma de U entre a HDL-C e os eventos adversos ficou evidente com maior número de mortes tanto com níveis muito altos quanto com níveis muito baixos de HDL-C", observaram os autores.

Em comparação com os pacientes sem diabetes, os pacientes com diabetes e HDL-C > 80 mg/dL tiveram maior risco de morte por todas as causas e de origem cardiovascular, e os pacientes com menos de 65 anos tiveram maior risco de morte cardiovascular do que os pacientes com 65 anos ou mais.

Os pesquisadores identificaram uma "associação linear positiva" entre a pontuação de risco genético HDL-C e os níveis de HDL-C, na qual um desvio padrão maior de HDL-C foi associado a nível de HDL-C 3,03 mg/dL maior (2,83 a 3,22; p < 0,001; R 2= 0,06).

A pontuação de risco genético da HDL-C não foi associada ao risco de morte por todas as causa ou morte de origem cardiovascular em modelos não ajustados, e após o acréscimo da pontuação de risco genético da HDL-C aos modelos totalmente ajustados, a associação com a HDL-C > 80 mg/dL não foi atenuada, "indicando que as variações genéticas do HDL-C na pontuação de risco genético não contribuem substancialmente para o risco".

"Os potenciais mecanismos pelos quais a HDL-C muito alta pode causar desfechos cardiovasculares adversos em pacientes com doença coronariana precisam ser estudados", comentou Dr. Arshed. "Ainda não se sabe se a capacidade funcional da partícula HDL é alterada quando seu nível é muito alto. É necessário investigar se é mais capaz de oxidar e, por conseguinte, passar de um papel protetor para um prejudicial".

Bandeira vermelha

Comentando ao Medscape, a médica Dra. Sadiya Sana Khan, professora assistente da Northwestern University Feinberg School of Medicine, nos EUA, disse: "Acho que o ponto mais importante do estudo é identificar pessoas com HDL-C muito alto. Isso pode servir de lembrete para conversar sobre estilos de vida saudáveis para o coração e sobre o tratamento com estatina, se necessário, indicado pela lipoproteína de alta densidade do colesterol (HDL, sigla do inglês High-Density Lipoprotein cholesterol)."

No editorial que acompanha o estudo, assinado pela Dra. Sadiya e pelo Dr. Gregg Fonarow, médico da University of California, Los Angeles (UCLA), EUA, os dois escreveram: "Embora os achados atuais possam estar relacionados com confusão residual, níveis elevados de HDL-C não devem ser automaticamente considerados protetores".

Os editorialistas orientam os médicos a "usar os níveis de HDL-C como um marcador alternativo, com níveis muito baixos e muito altos como alerta para direcionar a prevenção primária e secundária mais intensiva, visto que a afirmação de que o HDL-C é o colesterol "bom" só é verdadeira em caso de HDL-C ≤ 80 mg/dL".

Este estudo foi parcialmente subsidiado por doações dos National Institutes of Health, American Heart Association e Abraham J. & Phyllis Katz Foundation. O Dr. Arshed A. Quyyumi e os coautores informaram não ter conflitos de interesses. A Dra. Sadiya Sana Khan informou que recebe subsídios da AHA e do NIH sem relação com o trabalho apresentado. O Dr. Gregg Fonarow informou que recebe honorários das empresas Abbott, Amgen, AstraZeneca, Bayer, Cytokinetics, Edwards, Janssen, Medtronic, Merck e Novartis sem relação com o trabalho apresentado. Não foram revelados outros conflitos de interesse.

JAMA Cardiology. Publicado on-line em 18 de maio de 2022. Abstract , Editorial  

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