Disfunção erétil no diabetes é subestimada

Ute Eppinger

Notificação

3 de junho de 2022

A chance de disfunção erétil aumenta com a idade, e o diabetes mellitus pode elevar ainda mais este risco. Em um estudo de 351 homens com diagnóstico recente de diabetes mellitus, cientistas do Centro Alemão de Diabetes (Deutsches Diabetes-Zentrum – DDZ) descobriram que a disfunção erétil também ocorre nos homens que acabaram de abrir o quadro da doença e que a sua prevalência varia entre os subtipos de diabetes. O Medscape conversou com o autor do estudo, a médica Dra. Haifa Maalmi, que participou da pesquisa no DDZ, sobre os resultados do estudo e o que significam para a prática clínica.

Medscape: A disfunção erétil geralmente acomete homens mais velhos que têm diabetes há muitos anos, cuja hiperglicemia é descompensada ou que apresentam comorbidades, como hipertensão arterial ou hipercolesterolemia. Contudo, o diabetes havia sido recém-diagnosticado nos participantes do seu estudo. A alta proporção de disfunção erétil é surpreendente, considerando a curta evolução da doença? E os resultados significam que o início da disfunção erétil independe da duração do diabetes?

Dra. Haifa: A prevalência relativamente alta (23%) da disfunção erétil nos homens ao longo do primeiro ano após o diagnóstico de diabetes observada em nosso estudo não nos surpreendeu.

Em primeiro lugar, o metabolismo diabético muitas vezes já existe meses ou anos antes do diagnóstico efetivo; e, embora o tempo desde o diagnóstico de diabetes fosse menor do que um ano entre os participantes desse estudo, a duração exata da doença é desconhecida.

Em segundo lugar, a maioria das complicações relacionadas com o diabetes (como a disfunção erétil) aparece durante o estágio pré-diabético, quando a hiperglicemia está acima do normal, mas ainda abaixo do limiar definidor do diabetes. Lesões precoces nas artérias penianas podem ter ocorrido durante a fase pré-diabetes e levado à disfunção erétil pouco depois do diagnóstico.

Em terceiro lugar, a prevalência da disfunção erétil identificada no nosso estudo corresponde à prevalência determinada em estudos anteriores de homens com diagnóstico recente de diabetes (20% a 37%).

Nesse contexto, deve-se notar também que a prevalência da disfunção erétil no diabetes recém-diagnosticado, como em nosso estudo, é muito menor do que nos homens com diabetes há mais tempo (prevalência entre 35% e 90%). Todavia, se você considerar que nossos sujeitos de estudo são relativamente jovens (média de idade: 49 anos), a prevalência de 23% ainda pode ser considerada alta.

Medscape: O estudo incluiu homens entre 18 e 69 anos de idade. Havia diferenças da gravidade da disfunção erétil relacionadas com a idade? Ou seja, os homens mais velhos eram acometidos mais frequentemente e, se assim for, a disfunção erétil era mais grave?

Dra. Haifa: Sim, houve correlação entre idade e pior ereção (reconhecível por valores menores no Índice Internacional da Função Erétil). Essa correlação é conhecida e foi confirmada no nosso estudo.

Medscape: O que você acha: a extensão da disfunção erétil com diabetes tipo 2 costuma ser subestimada?

Dra. Haifa: Acreditamos que a disfunção erétil nos homens com diabetes tipo 2 e diabetes tipo 1 seja bastante subestimada. Na prática clínica, o tema do desempenho sexual pode ser percebido como muito pessoal e íntimo. Portanto, muitos homens (especialmente os mais velhos, que não são muito ativos sexualmente) não vão ao médico e permanecem não detectados.

Nos estudos epidemiológicos em que a disfunção erétil é determinada por meio do preenchimento de um questionário, a maioria dos homens sente que o seu desempenho sexual é um assunto de foro íntimo e prefere não responder a algumas perguntas. Consequentemente, o estado da disfunção erétil não pode ser determinado para os homens, com informações incompletas sobre sua função erétil.

Medscape: A ciência está cada vez mais unida em torno do fato de que não há apenas o diabetes tipo 1 e tipo 2, mas sim os cinco subtipos a seguir:

  • Diabetes autoimunitária grave, correspondente ao diabetes clássico tipo 1

  • Diabetes grave com insuficiência de insulina

  • Diabetes grave com resistência à insulina

  • Diabetes leve relacionado com a obesidade

  • Diabetes leve relacionado com a idade

Estes cinco subtipos desempenham agora um papel na prática médica?

Dra. Haifa: Os cinco subtipos são bem novos (a primeira publicação foi em 2019) e foram utilizados apenas para fins científicos. Ainda é muito cedo para usar os subtipos do diabetes na prática clínica.

Uma razão para isso é que o algoritmo de agrupamento é muito sofisticado. Outra razão é que o peptídeo C (usado para calcular HOMA2-B e HOMA2-IR, duas variáveis necessárias para o agrupamento) não é uma medida feita de rotina.

Ainda mais importante é que ainda não temos evidências suficientes para saber se o tratamento adaptado aos subgrupos individuais de diabetes seria realmente benéfico, em comparação às diretrizes atuais. A abordagem terapêutica específica a cada subgrupo deve ser investigada em ensaios clínicos randomizados e controlados.

Medscape: Uma conclusão do estudo é que pacientes os com diabetes grave com resistência à insulina e diabetes grave com insuficiência de insulina devem ser investigados especificamente para disfunção erétil. Em termos de prática clínica, isto significa que o médico deve fazer perguntas específicas aos pacientes diabéticos sobre problemas da função erétil?

Dra. Haifa: Sim. Porque embora ainda não possamos usar essa nova classificação do diabetes na prática clínica, homens com uma forma de diabetes que é caraterizada pela obesidade e resistência à insulina e que demonstram altos níveis de insulina em jejum (semelhante aos pacientes no subgrupo diabetes grave com resistência à insulina) e diabéticos com deficiência grave de insulina (semelhante aos pacientes no subgrupo do diabetes grave com insuficiência de insulina) devem ser indagados explicitamente sobre sua função erétil.

Medscape: Muito obrigado pela conversa.

Este artigo foi traduzido do alemão para o inglês e então para o português.

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