Pré-eclâmpsia ou covid-19? Um simples exame de sangue dá a resposta

Carmen Espinosa

1 de junho de 2022

A pré-eclâmpsia caracteriza-se pelo aumento da pressão arterial e pode cursar com insuficiência renal e hepática; a única solução é a indução do parto e a retirada da placenta. Essa complicação acomete 2% a 10% das gestações, [1] constituindo a principal causa de morbidade e mortalidade materna e perinatal no mundo.

Durante a pandemia, profissionais das Unidades de Medicina Materno-Fetal do mundo inteiro enfrentaram um verdadeiro dilema diagnóstico: diferenciar entre a pré-eclâmpsia e a infecção causada pelo vírus SARS-CoV-2. Alguns dos trabalhos científicos publicados até o momento [2,3] descrevem semelhanças entre essas duas doenças e há até mesmo autores que propõem que a covid-19 cause aumento da incidência de pré-eclâmpsia.

Havia gestantes com manifestações clínicas indicando pré-eclâmpsia, que tiveram resultado positivo para covid-19 confirmada por ensaio de reação em cadeia da polimerase (PCR, do inglês Polymerase Chain Reaction). Nesses casos, pairavam dúvidas sobre a existência de pré-eclâmpsia com covid-19 assintomática ou covid-19 sem pré-eclâmpsia, pois as manifestações clínicas dos dois quadros podem ser semelhantes.

No intuito de diferenciar as duas doenças, uma equipe de pesquisadores liderada pela Dra. Marta Palomo, da Barcelona Endothelium Team (BET) do Instituto de Investigación contra la Leucemia Josep Carreras, na Espanha, e a Dra. Fátima Crispi, da BCNatal-IDIBAPS, decidiram fazer um estudo para descobrir em que medida a pré-eclâmpsia e a covid-19 compartilham caraterísticas fisiopatológicas graves.

Elas estudaram biomarcadores de lesão endotelial, coagulação sanguínea, resposta imunitária inata e angiogênese de gestantes diagnosticadas com pré-eclâmpsia ou covid-19 e compararam-nas com as de gestantes saudáveis.

Os resultados do estudo, publicado no periódico American Journal of Obstetrics and Gynecology, [4] podem ajudar a resolver essa dúvida diagnóstica. "No nosso estudo, demonstramos claramente que são duas doenças diferentes e aprimoramos o conhecimento de sua fisiopatologia", explicou a Dra. Marta Palomo para a Univadis España.

O trabalho também mostra a existência de elementos compartilhados entre as duas doenças, como a ativação excessiva do sistema do complemento, parte importante do sistema imunitário, sendo as alterações causadas pela covid-19 menores do que as da pré-eclâmpsia.

Diagnóstico diferencial

"Nosso estudo oferece um grupo de biomarcadores fáceis e rápidos de analisar em uma amostra de sangue materno, que pode contribuir para o diagnóstico diferencial entre a pré-eclâmpsia e a covid-19", disse a pesquisadora.

As diferenças mais relevantes entre a pré-eclâmpsia e a infecção pelo SARS-CoV-2 são "as que se referem aos marcadores de lesão endotelial (VCAM-1 e sTNFRI), à coagulação sanguínea (antígeno do fator de von Willebrand) e à angiogênese (SFlt-1, Ang2 i PIGF)", resumiu Dra. Marta.

Tanto a pré-eclâmpsia quanto a covid-19 grave apresentaram sinais de lesão endotelial, mas com padrão diferenciado. Enquanto as pacientes com pré-eclâmpsia apresentaram aumento muito significativo de VCAM-1 e sTNFRI, com sulfato de heparana preservado, casos graves de covid-19 apresentaram um aumento mais discreto de VCAM-1 e sTNFRI, com alteração significativa do sulfato de heparana. Por outro lado, a pré-eclâmpsia foi associada a alterações importantes do antígeno e da função do fator de von Willebrand. Além disso, as gestantes com covid-19 apresentaram correlação positiva entre o fator de von Willebrand e a gravidade da doença. Contrariamente, na pré-eclâmpsia, os pesquisadores observaram uma queda marcante dos níveis do antígeno do fator de von Willebrand.

Uma alteração profunda do equilíbrio angiogênico também foi observada na pré-eclâmpsia, quando comparada aos controles e às gestações com resultado positivo para o SARS-CoV-2, com níveis muito altos de SFlt-1 e Ang2 e diminuídos de PIGF.

"Dirimir esta dúvida diagnóstica é importante porque o tratamento das duas doenças é radicalmente diferente: no caso da pré-eclâmpsia, o único tratamento que existe hoje é o término da gestação, enquanto na covid-19 tenta-se que o parto não ocorra até que a paciente tenha se recuperado do ponto de vista clínico", disse a pesquisadora.

Na verdade, esse achado não só irá melhorar o diagnóstico diferencial entre essas duas doenças, como também abrir oportunidades terapêuticas que podem melhorar as lesões endoteliais subjacentes observadas tanto na covid-19 quanto na pré-eclâmpsia. "Compreender melhor os mecanismos específicos dessa lesão pode contribuir para a geração de novos alvos terapêuticos em uma doença, como a pré-eclâmpsia, que atualmente não tem tratamento", concluiu Dra. Marta.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Univadis Espanha Medscape Professional Network.

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