Novo teste pode modificar a infertilidade masculina

Ted Bosworth

Notificação

1 de junho de 2022

Um novo estudo sugere que, pelo menos para certos pacientes do sexo masculino, a resposta à infertilidade pode estar na epigenética.

De acordo com o estudo, um exame comercialmente disponível de anomalias epigenéticas – fatores que afetam a forma como os genes se expressam – pode classificar a probabilidade de que o esperma seja viável para a concepção.

“A singularidade da epigenética é que algumas das anomalias detectadas têm o potencial de serem modificadas com o estilo de vida”, disse o Dr. Larry I. Lipshultz, médico e chefe da divisão de medicina e cirurgia reprodutiva masculina do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, que apresentou os novos achados na reunião anual de 2022 da American Urological Association (AUA).

Durante décadas, a análise do sêmen baseou-se na motilidade, morfologia e concentração. Mas esses parâmetros, embora úteis, são limitados. O sêmen ainda pode ter baixa capacidade de produzir uma gravidez, mesmo quando todos os três parâmetros são normais, explicou o Dr. Larry ao Medscape.

O exame, chamado Path SpermQT (Inherent Biosciences), detecta promotores de genes instáveis, que são os marcadores epigenéticos para a expressão gênica. Em trabalhos anteriores com mais de 1.300 amostras de genes, a expressão de genes específicos regulados por esses promotores estava ligada a uma ampla variedade de funções relevantes para a fertilização, como a espermatogênese.

O exame não tenta identificar a expressão de promotores instáveis específicos, mas os quantifica para caracterizar a qualidade do esperma como excelente (≤ 10 promotores instáveis), mediana (11 a 42) ou baixa (≥ 43).

Nos estudos que levaram à criação do exame Path SpermQT, o número de promotores instáveis se correlacionou com o sucesso da gestação. A gestação foi alcançada mesmo entre aqueles do grupo com baixa qualidade de esperma, mas em taxas muito reduzidas.

Das 172 amostras de sêmen coletadas até agora na análise em andamento, a qualidade do esperma foi caracterizada como excelente em 31%, mediana em 59% e baixa em 10%.

As estratificações para a qualidade do esperma não foram significativamente correlacionadas com parâmetros comuns de viabilidade espermática, como concentração, relatou o Dr. Larry.

Certas características do paciente foram associadas a maior qualidade do esperma. Essas características foram o uso de suplementação de antioxidantes e baixos níveis de estrogênio, como observado em homens que tomaram inibidores da aromatase.

Até agora, apenas uma concepção natural ocorreu no grupo com esperma de baixa qualidade versus oito nos grupos com qualidade mediana ou excelente.

O papel prognóstico do exame é apenas parte do quadro.

“O animador sobre esta área de pesquisa é que a epigenética pode ser alterada”, disse o Dr. Larry ao Medscape. Com base nos dados até agora, o médico disse que já está começando a considerar a suplementação de antioxidantes e modificações hormonais quando a qualidade do esperma é baixa.

O valor do exame Path SpermQT para identificar alvos de tratamento pode no futuro revolucionar o tratamento da infertilidade masculina, explicou o Dr. Larry, mas tem um potencial mais imediato de ajudar os casais a decidir se devem prosseguir com a fertilização in vitro .

“Muitas vezes vemos pacientes em um impasse quando estão tentando decidir se optam pela fertilização in vitro”, disse o médico. “Um exame como esse pode fornecer alguma direção. Se a qualidade do esperma for boa, a recomendação pode ser continuar tentando. Se for ruim, o casal pode querer tentar a fertilização in vitro mais rapidamente.”

Um exame de qualidade do esperma com base na epigenética “poderia mudar a forma como avaliamos os casais que tentam conceber”, concordou o Dr. Peter N. Schlegel, médico e professor de urologia e medicina reprodutiva da Weill Cornell Medicine, nos EUA.

O Dr. Peter elogiou várias características do exame epigenético, entre elas o fato de que 70% a 80% dos homens com baixa qualidade no Path SpermQT têm resultados normais em avaliações padrão de sêmen. Esse achado sugere que o exame está fornecendo informações exclusivas sobre os pacientes. Ele também observou que os estudos até agora indicam que o esperma de baixa qualidade para a concepção natural ainda é viável para fertilização in vitro, o que pode ser útil para casais que estão avaliando suas opções.

No entanto, embora o exame já esteja disponível, o Dr. Peter alertou que grande parte do que ele promete ainda não foi documentada.

“Os resultados até agora, apesar de estatisticamente significativos, só foram vislumbrados a partir de um pequeno grupo de pacientes”, disse o médico. “Estudos muito maiores são necessários antes que uma mudança na prática seja recomendada.”

O valor do Path SpermQT para identificar riscos modificáveis pode estar ainda mais distante.

“É bem reconhecido que mudanças ambientais e de estilo de vida podem afetar a metilação, mas não se sabe se as anomalias detectadas até agora podem ser influenciadas por mudanças no estilo de vida”, disse o Dr. Peter. Entre as inúmeras etapas necessárias para responder a essa pergunta, ele sugeriu que poderia ser importante primeiro “avaliar por que ocorrem tais mudanças na metilação”.

O Dr. Larry I. Lipshultz informou ter relações financeiras com diversas empresas farmacêuticas, entre elas a Inherent Biosciences, que comercializa o exame Path SpermQT. O Dr. Peter N. Schlegel informou ter relações financeiras com as empresas Theralogix, Posterity Health e Roman Health.

Reunião anual de 2022 da American Urological Association (AUA): Abstract P09-02. Apresentado em 13 de maio de 2022.

Ted Bosworth é um escritor médico que vive na cidade de Nova York.

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