Nova opção terapêutica? Antipsicótico eficaz para depressão refratária em ensaio clínico de fase 3

Pauline Anderson

Notificação

1 de junho de 2022

A cariprazina (Vraylar) é um tratamento auxiliar seguro e eficaz para adultos com transtorno depressivo maior e resposta inadequada à monoterapia antidepressiva, revelam novos resultados de um ensaio clínico de fase 3.

aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos para tratar adultos com esquizofrenia e episódios maníacos, mistos ou depressivos do transtorno bipolar I, a cariprazina está sendo investigada como tratamento complementar para os casos de transtorno depressivo maior.

"Mesmo os pacientes que parecem não responder aos antidepressivos convencionais têm uma possibilidade muito boa de responder à cariprazina", disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, o médico Dr. Gary Sachs, preceptor associado de psiquiatria no Massachusetts General Hospital nos Estados Unidos.

O pesquisador indicou que a cariprazina, que age como agonista parcial em D2, D3 e 5-HT1A, "é uma classe farmacológica inteiramente diferente".

"Vale a pena entender como usar fármacos como a cariprazina e expandir nossa nomenclatura; em vez de se referir a essas substâncias como antipsicóticos atípicos, talvez faça mais sentido se referir a elas como antidepressivos atípicos", disse o Dr. Gary.

Os resultados foram apresentados na reunião anual de 2022 da American Psychiatric Association (APA).

É fundamental haver mais opções

O transtorno depressivo maior está entre os transtornos psiquiátricos mais comuns nos Estados Unidos. Em 2020, estima-se que 21 milhões de adultos tiveram pelo menos um episódio de transtorno depressivo maior.

Pesquisas anteriores mostraram que quase metade dos pacientes com transtorno depressivo maior não apresenta resultados satisfatórios com seu esquema terapêutico atual. Portanto, pesquisas sobre mais opções para os pacientes são críticas, disse o Dr. Gary.

Os resultados de um estudo controlado por placebo já publicado mostraram que o tratamento adjunto com cariprazina em doses de 2 mg a 4,5 mg por dia foi mais eficaz do que o placebo na melhora dos sinais e sintomas depressivos de adultos com transtorno depressivo maior.

A nova análise foi feita com pacientes com transtorno depressivo maior e resposta inadequada ao tratamento antidepressivo, com inibidores seletivos de recaptação da serotonina, inibidores de recaptação da serotonina e da norepinefrina ou antidepressivos tricíclicos. Os participantes foram recrutados em 116 centros nos EUA e na Europa.

O Dr. Gary observou que a ausência de resposta a uma dose adequada de algum antidepressivo geralmente é representada como menos de 50% de melhora em seis semanas ou mais.

Os pesquisadores randomizaram os pacientes para cariprazina oral 1,5 mg/dia, cariprazina oral 3 mg/dia ou placebo. Todos continuaram a tomar seu antidepressivo normalmente.

A análise foi feita com 757 participantes, predominantemente brancos (média de idade de 44,8 anos; 73,4% mulheres). Todos sofriam de depressão por uma parte "enorme" de sua vida (média, cerca de 14 anos), "para não mencionar sua vida adulta", disse o Dr. Gary.

Além disso, no início do estudo, os participantes estavam deprimidos há quase oito meses, em média.

O desfecho primário foi a mudança na sexta semana da pontuação total na Escala de Avaliação da Depressão de Montgomery-Åsberg (MADRS, do inglês Montgomery-Åsberg Depression Rating Scale). A média da pontuação total na MADRS ao início do estudo foi de 32,5.

Às vezes menos é mais

Os resultados mostraram uma redução média significativamente maior na pontuação total na MADRS para cariprazina 1,5 mg/dia versus placebo na sexta semana (P = 0,005). Diferenças significativas do placebo foram observadas já na segunda semana e mantidas na quarta semana, bem como na sexta semana.

"Posso dizer com grande certeza que a dose de 1,5 mg atendeu a todos os padrões de eficácia", disse o Dr. Gary.

Entretanto, isso não ocorreu com a dose de 3 mg/dia. Apesar de haver uma redução numericamente maior na pontuação total na MADRS com essa dose do fármaco vs. placebo na sexta semana, a diferença não foi estatisticamente significativa (P = 0,07).

Na sexta semana, mais pacientes que receberam o medicamento ativo na dose de 1,5 mg/dia do que placebo responderam ao tratamento, resposta essa definida como redução de 50% ou mais da pontuação total na MADRS (44,0% vs. 34,9%, respectivamente; P < 0,05).

Os pesquisadores também avaliaram a pontuação nas Impressões Globais Clínicas (Clinical Global Impressions), encontrando melhora significativa da pontuação nos grupos de 1,5 mg/dia (P = 0,0026 ) e 3 mg/dia (P = 0,0076 ) em relação ao grupo do placebo.

A melhora da média de pontuação total na Escala de Avaliação da Depressão de Hamilton (HAM-17, do inglês Hamilton Depression Rating Scale) na sexta semana atingiu significância estatística nominal para a cariprazina 1,5 mg/dia vs. placebo, mas não para a dose de 3 mg/dia.

Os resultados deste estudo de grupos paralelos, controlado, randomizado e duplo-cego de alta qualidade oferecem "o que eu considero como eficácia comprovada", disse o Dr. Gary.

O pesquisador acrescentou que o fármaco experimental também era relativamente seguro. "A grande maioria dos pacientes tolerou muito bem", destacou. Além disso, o número de saída do estudo em decorrência de eventos adversos foi "bastante baixo em geral".

Os únicos eventos adversos que ocorreram com o tratamento ativo com frequência de 5% ou mais e o dobro do placebo foram acatisia e náuseas. As alterações de peso foram relativamente pequenas, de menos de 1 kg, em todos os grupos terapêuticos.

Houve um evento adverso grave em cada grupo de medicamento ativo, dos quais um foi infeção renal. Foram notificados dois eventos adversos graves no grupo do placebo, inclusive um paciente com esclerose múltipla. Não houve mortes.

O Dr. Gary notou que uma vantagem da cariprazina é sua longa meia-vida, o que a torna mais fácil de usar porque "ela te perdoa se você esquecer uma ou duas doses", disse o pesquisador.

A submissão complementar de autorização de novo fármaco da AbbVie para a cariprazina está atualmente sendo revisada pela FDA para uso expandido como tratamento adjunto do transtorno depressivo maior. Espera-se uma decisão da FDA até ao final deste ano.

Outra potencial opção terapêutica 

Comentando os achados para o Medscape, o médico Dr. James Murrough, Ph.D., professor associado de psiquiatria e de neurociência e diretor do Depression and Anxiety Center for Discovery and Treatment na Icahn School of Medicine no hospital Mount Sinai, nos EUA, disse que comemora a pesquisa sobre novos tratamentos para o transtorno depressivo maior.

"Cada medicamento de uma determinada classe tem características farmacológicas únicas, portanto, um maior número de opções terapêuticas pode ajudar o médico a encontrar um bom pareamento para cada paciente", disse o Dr. James, que não participou da pesquisa.

O comentarista observou que a cariprazina é "um tanto singular" entre os moduladores de dopamina com "interações preferenciais com o receptor D3, um dos muitos tipos de receptores da dopamina".

Embora os resultados do estudo tenham demonstrado que a cariprazina foi eficaz para tratar o transtorno depressivo maior, "não abre novos caminhos" porque pesquisas anteriores já comprovaram a eficácia desse fármaco como adjunto para os pacientes com depressão que não respondem a um antidepressivo convencional, disse o Dr. James.

O médico também notou que a menor dose, mas não a dose mais alta, do medicamento foi significativamente mais benéfica para os pacientes comparada ao placebo.

"Este é um bom lembrete de que doses mais altas de um medicamento nem sempre são as melhores", disse o Dr. James.

O estudo foi financiado pela empresa AbbVie. O Dr. Gary Sachs é funcionário em tempo integral da empresa Signant Health, que fez o treinamento e o controle de qualidade deste estudo. O Dr. James Murrough informou não ter conflitos de interesses.

American Psychiatric Association (APA) 2022 Annual Meeting: Abstract P7-037. Apresentado em 24 de maio de 2022.

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