O que esperar do ASCO 2022: após 2 anos on-line, o maior congresso de oncologia está de volta ao presencial

Zosia Chustecka

Notificação

31 de maio de 2022

Após duas edições virtuais por conta da pandemia da covid-19, o maior congresso de oncologia do mundo volta a ser presencial. E pelo visto as pessoas estão ansiosas para comparecer à reunião anual de 2022 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

No início de maio, a ASCO já contabilizava 30 mil inscrições: 80% presenciais. Também já havia 27 mil reservas de hotéis.

"Os números são praticamente idênticos ao de 2019 a essa altura", disse ao Medscape a diretora médica da ASCO, Dra. Julie Gralow.

Esses números, do dia 11 de maio, tendem a aumentar. Nos últimos anos, houve um pico de inscrições pouco antes do primeiro dia.

O congresso começa na sexta-feira, dia 03 de junho, e vai até terça-feira, dia 07. Será novamente realizado em Chicago, nos Estados Unidos, no grande centro de convenções McCormick Place, que foi parcialmente transformado em hospital de campanha quando a pandemia estourou, em 2020. 

A reunião também será transmitida on-line, como nos últimos dois anos, para quem não puder comparecer pessoalmente.

"Eu acredito que o modelo híbrido irá perdurar", disse a Dra. Julie. "Conseguimos ter muitos participantes, especialmente de lugares muito distantes, para os quais viajar é complicado ou inviável. E nós aprendemos a tornar essa experiência melhor para essas pessoas também."

Os participantes também podem mudar de ideia se, por exemplo, um aumento do número de casos de covid-19 próximo à data do congresso os impedir de viajar. "Estamos permitindo que as pessoas troquem [seus ingressos] para o virtual. Então acho que isso pode ocorrer em certa medida, dependendo do que acontecer em relação à covid-19 nas diferentes partes do mundo", comentou a Dra. Julie.

Para quem comparecer ao evento, a organização está "fazendo o máximo para que todos fiquem seguros", disse a Dra. Julie, que já foi professora de saúde global e atualmente é oncologista de mama e pesquisadora clínica.

Para entrar no congresso, a ASCO exigirá comprovante de vacinação (o que nos Estados Unidos equivale a duas doses da vacina anticovídica, ou dose única). "Se você comprovar antecipadamente que está vacinado(a), lhe enviaremos seu crachá para que não precise enfrentar filas", acrescentou médica.

"Com relação ao uso de máscara, informamos desde já que estamos respeitando as regras de Chicago, segundo as quais não há obrigatoriedade do uso de máscara em ambientes fechados", ela continuou. "Estamos recomendando o uso de máscara por ser um grupo de médicos que tratam pacientes imunocomprometidos. Sendo assim, estamos fazendo essa recomendação."

Essa decisão teve algum impacto negativo no Twitter tanto entre defensores de médicos quanto de pacientes, com algumas pessoas manifestando surpresa com o fato de o uso de máscara não ser obrigatório.

"Sei que o 'uso opcional de máscara' significa que muitos não usarão máscara. Eu literalmente acabei de ver isso na minha última reunião, sendo uma das poucas médicas que estava usando máscara", comentou a radio-oncologista Dra. Fumiko Ladd Chino. Ela fez um apelo aos organizadores: "Ainda há tempo de mudar as políticas da #ASCO22. É pela saúde do paciente."

A defensora de pacientes, Dra. Manju George, Ph.D., mestre em ciências veterinárias, sobrevivente de um câncer de reto, também fez campanha por uma mudança nessa política por meio de um abaixo-assinado, acrescentando que "a diretoria da ASCO está sendo inundada com apelos de profissionais da saúde preocupados".

Em relação à possibilidade de mudança na política de uso de máscaras, a ASCO respondeu: "Com relação à saúde e segurança, os protocolos que implementamos cumprem ou até superam as diretrizes atuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos US Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e da cidade de Chicago. A ASCO também está trabalhando em conjunto com a prefeitura e o centro de convenções. Além disso, estamos monitorando ativamente a situação local."

"Para proteger a saúde e a segurança de todos os participantes do congresso, nossos protocolos exigem que os participantes estejam totalmente vacinados e possuam um teste com resultado negativo para covid-19 no máximo 48 horas antes do início do congresso. Além disso, esperamos que todos os participantes usem máscara quando estiverem na parte de dentro e incentivamos a testagem regular. Estimamos que os membros da nossa comunidade façam a própria parte, contribuindo para que todos permaneçam em segurança, e estamos facilitando o cumprimento das nossas políticas por meio do fornecimento de máscaras de alta qualidade e de testes rápidos de antígeno e PCR para covid-19", disse a organização ao Medscape.

Também haverá um sistema de identificação para os participantes sinalizarem como se sentem em relação à aproximação física, no qual vermelho significa ‘afaste-se, sem abraços nem apertos de mão’; amarelo significa algo intermediário e verde indica que a pessoa não se importa em ter contato físico, seja por meio de um aperto de mão ou de um abraço. Esse sistema foi utilizado em eventos menores, de subespecialidades da ASCO, no começo de 2022, e o retorno dos participantes foi positivo, comentou a Dra. Julie.

Promovendo equidade em saúde 

O tema do congresso deste ano, escolhido pelo presidente da ASCO, o médico Dr. Everett Vokes, é promoção da equidade no tratamento do câncer através da inovação.

Está na esteira do tema de 2021, escolhido pela ex-presidente, a médica Dra. Lori Pierce, que foi "Equidade: Todos os pacientes. Todos os dias. Em todos os lugares.

Tem um pouco a ver com as desigualdades, comentou a Dra. Julie. Esse foi o foco da coletiva de imprensa anterior ao congresso, no dia 26 de maio, que destacou alguns Abstracts que focaram nessas disparidades e em possíveis abordagens. Um estudo (Abstract 6511) focou na telemedicina, cujo uso aumentou muito com a pandemia, porém, os resultados mostraram que nem todas as populações de pacientes nos Estados Unidos conseguiram acessar o tratamento com a especialidade desejada dessa forma.

Descalonamento terapêutico 

O descalonamento terapêutico é outro tema que será abordado no congresso.

"Há neoplasias nas quais já atingimos desfechos tão bons que está na hora de pensar em descalonar o tratamento, pois sabemos que provavelmente uma parte dos pacientes está recebendo tratamento excessivo (...). Dessa forma, estamos buscando subpopulações nas quais seria possível recuar no tratamento", comentou a Dra. Julie.

Um exemplo é o estudo LUMINA sobre o câncer de mama (Abstract LBA-501), que analisou a omissão da radioterapia após cirurgia. "Na prática médica habitual, já fazemos isso, não com base em dados sólidos, mas com base em um acúmulo de análises retrospectivas e evidências similares", comentou a Dra. Julie. Esse estudo testou a abordagem de forma prospectiva, reduziu o intervalo de idade das pacientes e definiu melhor quais pacientes provavelmente se beneficiariam.

Outro exemplo é o estudo DYNAMIC sobre o câncer colorretal (Abstract LBA-100), que analisou a omissão de quimioterapia com base nos níveis circulantes de ADN tumoral após a cirurgia. Esses pacientes estavam no estádio 2 da doença e em geral tiveram uma resposta muito boa à cirurgia e quimioterapia adjuvante, disse a Dra. Julie. O objetivo desse estudo é encontrar o subconjunto de pacientes que poderia ter uma resposta tão boa quanto ao tratamento convencional mesmo sem a quimioterapia. A pesquisa também pode identificar os pacientes na outra extremidade do espectro, que talvez precisem de um pouco mais de tratamento, acrescentou.  

Foco na inovação

O foco na inovação inclui a avaliar medicamentos desenvolvidos fora dos EUA. Um exemplo é o nimotuzumabe, já aprovado na China para uso no câncer nasofaríngeo mas também explorado em outros tipos de câncer. No ASCO 2022, serão apresentados dados do uso em pacientes com câncer pancreático com KRAS selvagem (Abstract 4011). Esse estudo, tal como outros ensaios com o nimotuzumabe, foi conduzido na China.

Isso traz à tona um ponto importante sobre os dados que a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA exige para a aprovação de novos medicamentos, comentou a Dra. Julie.

A médica observou que a FDA recentemente rejeitou um pedido para o sintilimabe, também desenvolvido na China, com a justificativa de que todos os dados do estudo submetidos para aprovação eram chineses. A agência disse que gostaria de ver ensaios clínicos multirregionais e ensaios que refletissem a população oncológica dos EUA.

Dicas para os participantes 

Um grande ensaio sobre um câncer raro promete estabelecer um novo padrão terapêutico, visto que anteriormente vários esquemas diferentes foram utilizados em diversas partes do mundo e até mesmo em diferentes hospitais no mesmo país. Esses são os resultados de um ensaio internacional com crianças e adolescentes/adultos jovens com sarcoma de Ewing (LBA-02). "Especialistas na área me disseram que esses resultados transformarão a prática clínica... [e] terão um impacto global", comentou a Dra. Julie.

Além das sessões científicas que analisarão novos dados, haverá uma grande quantidade de sessões educacionais que abordarão difíceis questões enfrentadas pelos médicos. "Microagressões, preconceito e equidade no local de trabalho" serão discutidos em uma sessão, enquanto outra promete falar sobre "estratégias para abordar o sofrimento moral em médicos: o que devemos fazer quando não sabemos o que fazer?"

Também haverá uma sessão especial com o tema "Uma fotografia do câncer: abordando as desigualdades nacionais e globais no tratamento do câncer". Esse é um movimento liderado pelo Dr. Bishal Gyawali, Ph.D., médico do Brigham and Women's Hospital, nos EUA, em reação às ousadas metas do programa Cancer Moonshot , incluindo o objetivo de "acabar com o câncer como nós o conhecemos". Em uma postagem em um blog feita em 2016 o Dr. Bishal sugeriu: "Esqueçamos as metas grandiosas, vamos voltar para a realidade de carne e osso (...) e para pesquisas que possam ser imediatamente aplicadas a todas as comunidades globais." O médico contou a trajetória de 'uma postagem em um blog até uma sessão no [evento da] ASCO' em um comentário recente para o Medscape.

O Dr. Bishal também tem um conselho para os participantes do evento deste ano: procure pessoas que você respeita, confie que as conexões acontecerão, examine minuciosamente os dados, ouça os jargões criticamente, e talvez o mais importante, divirta-se.

"A vida é mais do que o seu trabalho", ele escreveu. "Não se estresse. Pense no panorama geral. Pense nos seus pacientes. E lembre-se, a vida é bela, mesmo quando não parece ser."

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