Covid-19: como gerenciar interações medicamentosas com nirmatrelvir/ritonavir

Marcia Frellick

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31 de maio de 2022

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

A desinformação sobre a ação do nirmatrelvir/ritonavir no tratamento de covid-19 leve a moderada em pacientes com alto risco de doença grave vem causando mal-entendidos entre médicos e pacientes fora do Brasil, segundo dois especialistas da Infectious Diseases Society of America (IDSA).

Eles resumiram as potenciais interações medicamentosas e os casos incomuns de efeito "rebote" associados ao uso do fármaco, que, em dezembro de 2021, recebeu da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos uma autorização de uso emergencial em pacientes a partir de 12 anos de idade. No Brasil, o medicamento, que tem o nome comercial de Paxlovid, recebeu autorização emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 30 de março de 2022, porém ainda não tem data para ser comercializado no país.

A combinação de fármacos funciona "como uma tesoura, cortando proteínas produzidas à medida que o vírus se replica dentro das células. A inibição dessa enzima leva à cessação da replicação", disse Jason C. Gallagher, farmacêutico na Temple University School of Pharmacy, nos Estados Unidos.

Isso é importante, porque outros tratamentos que têm como alvo a proteína da espícula (tradução livre do inglês spike protein), como anticorpos monoclonais, podem perder sua eficácia à medida que o vírus muda. Ele disse que, embora isso não seja impossível para o nirmatrelvir/ritonavir, "não vimos variantes emergentes resistentes ao fármaco".

Possíveis interações medicamentosas

A IDSA publicou recentemente orientações atualizadas sobre potenciais interações entre o nirmatrelvir/ritonavir e 100 medicamentos relevantes, além de considerações importantes para a prescrição.

“Existe a preocupação de que não estejam prescrevendo por causa do medo das interações”, disse Jason, explicando que, embora em alguns casos o receio possa ser válido, em muitos outros essa interação é administrável.

Um exemplo está em duas estatinas populares para doenças cardíacas: lovastatina e sinvastatina.

"Essa é uma interação que pode ser administrada a partir da manutenção [desses medicamentos] durante os cinco dias que o indivíduo receber nirmatrelvir/ritonavir", disse ele.

Também há rumores circulando sobre a situação de distribuição do fármaco, disse Jason.

"Por esse ponto de vista, há um panorama muito diferente do que tínhamos há um ou dois meses", pontuou, acrescentando que o medicamento se encontra amplamente disponível não em todas, mas em um grande número de farmácias nos Estados Unidos.

Ele enfatizou a importância da reconciliação medicamentosa, já que muitos pacientes compram o nirmatrelvir/ritonavir em farmácias diferentes das que adquirem seus medicamentos usuais; assim, sem uma relação completa das prescrições e suplementos, as interações potenciais podem ser perdidas.

Interações importantes a serem observadas

A Dra. Melanie Thompson, médica copresidente do HIVMA/IDSA HIV Primary Care Guidance Panel, destacou algumas classes de medicamentos a serem observadas; entre elas, os antiarrítmicos, a maioria contraindicados para uso com nirmatrelvir/ritonavir.

Há também interações importantes com vários antineoplásicos, e as interconsultas com oncologistas são essenciais, disse ela.

"Da mesma forma, indivíduos submetidos a transplantes provavelmente estão em uso de medicamentos que apresentam interações significativas com o ritonavir", observou a médica.

As pessoas em uso de derivados da ergotamina (para migrânea) não podem tomar nirmatrelvir/ritonavir, relatou ela. E "indivíduos que tomam colchicina (para gota) precisam ter muito cuidado".

A Dra. Melanie disse que é melhor não usar colchicina junto com a combinação de fármacos para covid-19, visto que é contraindicado, "mas que pode ser utilizada em certas circunstâncias com redução substancial da dose".

Vários psicotrópicos podem ser administrados com nirmatrelvir/ritonavir, observou a médica. Para o antipsicótico quetiapina, é necessária uma "diminuição considerável da dose".

O uso da sildenafila

O uso da sildenafila depende do motivo para o qual é prescrita, disse a Dra. Melanie. Se for usada para hipertensão pulmonar, a dose é muito alta e, portanto, contraindicada. Mas se usada para disfunção erétil, a dose precisa ser ajustada quando houver uso concomitante de nirmatrelvir/ritonavir.

Ela ressaltou que os médicos devem conhecer a função renal dos pacientes.

"É necessário reduzir a dose para indivíduos com função renal prejudicada, mas abaixo de um certo nível de função, que é de 30 mL/min, não é recomendado o uso do nirmatrelvir/ritonavir".

A Dra. Melanie destacou duas páginas na internet para informações completas sobre interações medicamentosas com nirmatrelvir/ritonavir, disponíveis para impressão: o verificador de interação medicamentosa da University of Liverpool, no Reino Unido, e um folheto para impressão da University of Waterloo, no Canadá.

"Precisamos de uma linha direta de atendimento médico 24 horas por dia, sete dias por semana, para que o fármaco se torne realmente acessível", disse ela.

Ainda não há dados sobre o efeito "rebote"

Quanto a alguns relatos recentes de efeito "rebote", de indivíduos desenvolvendo sintomas de covid-19 após concluir o tratamento com nirmatrelvir/ritonavir, ainda não há dados suficientes para determinar um padrão ou causa claros.

A Dra. Melanie disse que "temos apenas dados anedóticos". As questões atuais para estudo incluem avaliar se o período de cinco dias de tratamento é suficiente, disse ela, e se indivíduos sob maior risco devem receber um segundo curso terapêutico do fármaco caso evoluam com efeito “rebote”.

Jason ressaltou a importância de lembrar que o objetivo terapêutico do medicamento é evitar hospitalizações e mortes e, embora qualquer “rebote” seja problemático, "é possível que o uso do fármaco já tenha salvado vidas".

Jason e a Dra. Melanie Thompson informaram não ter conflitos de interesses financeiros relevantes.

Marcia Frellick é jornalista freelancer residente em Chicago. Ela já assinou artigos em Chicago Tribune, Science News e Nurse.com, e atuou como editora no Chicago Sun-Times, Cincinnati Enquirer e no St. Cloud Times. Acompanhe seu trabalho no Twitter:  @mfrellick

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