Doenças psiquiátricas concomitantes são a regra, e não a exceção

Megan Brooks

Notificação

27 de maio de 2022

Diferentes transtornos psiquiátricos geralmente compartilham a mesma arquitetura genética, o que pode ajudar a explicar por que muitos indivíduos diagnosticados com um transtorno psiquiátrico serão diagnosticados com outro transtorno durante a vida, sugere uma nova pesquisa.

Os pesquisadores realizaram uma análise genética de 11 principais transtornos psiquiátricos, entre eles esquizofrenia e transtorno bipolar.

“Nossos achados confirmam que o alto índice de comorbidade em alguns distúrbios reflete, em parte, a sobreposição de vias de risco genético”, disse em um comunicado à imprensa o primeiro autor do estudo, Andrew Grotzinger, do departamento de psicologia e neurociência da University of Colorado, nos Estados Unidos.

Os resultados podem levar ao desenvolvimento de tratamentos que abordem vários transtornos psiquiátricos de uma só vez e ajudar a reformular como os diagnósticos são estabelecidos, observaram os pesquisadores.

Os achados foram publicados on-line em 5 de maio no periódico Nature Genetics.

Padrões genéticos comuns

Usando o enorme UK Biobank e o Psychiatric Genomics Consortium, os pesquisadores aplicaram novos métodos genéticos estatísticos para identificar padrões comuns em 11 principais transtornos psiquiátricos: esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno depressivo maior, transtorno de ansiedade, anorexia nervosa, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de Tourette, transtorno de estresse pós-traumático, uso disfuncional de álcool, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e autismo.

O tamanho total médio da amostra por transtorno foi de 156.771 participantes, com uma variação de 9.725 a 802.939 participantes.

Ao todo, os pesquisadores identificaram 152 variantes genéticas compartilhadas entre vários transtornos, inclusive aquelas já conhecidas por influenciar certos tipos de células cerebrais.

Por exemplo, descobriu-se que 70% do sinal genético associado à esquizofrenia também estava associado ao transtorno bipolar.

Os resultados também mostraram que a anorexia nervosa e o transtorno obsessivo-compulsivo têm uma arquitetura genética forte e compartilhada e que indivíduos com predisposição genética para baixo índice de massa corporal também tendem a ter predisposição genética para esses dois transtornos.

Não surpreendentemente, observaram os pesquisadores, houve uma grande sobreposição genética entre o transtorno de ansiedade e o transtorno depressivo maior.

Também observaram que os transtornos psiquiátricos que tendem ocorrer concomitantemente também tendem a compartilhar genes que influenciam como e quando os indivíduos são fisicamente ativos durante o dia.

Por exemplo, pacientes com transtornos internalizantes, como ansiedade e depressão, geralmente têm uma arquitetura genética associada à baixa movimentação ao longo do dia. Por outro lado, aqueles com transtorno obsessivo-compulsivo e anorexia costumam ter genes associados a maior movimentação ao longo do dia.

“Quando se pensa a respeito, faz sentido”, disse Andrew. Indivíduos deprimidos geralmente apresentam fadiga ou baixa energia, enquanto aqueles com transtornos compulsivos podem ter dificuldade em ficar parados, observou.

Um tratamento para vários transtornos?

“Coletivamente, esses resultados apresentam percepções importantes sobre os mecanismos de risco genético de doenças psiquiátricas compartilhados e específicos de cada transtorno”, escreveram os pesquisadores.

Essa pesquisa também é um dos primeiros passos para o desenvolvimento de tratamentos que possam abordar vários transtornos ao mesmo tempo, acrescentaram.

“Atualmente, existe maior probabilidade de que os pacientes recebam vários medicamentos destinados a tratar múltiplos diagnósticos e, em alguns casos, esses medicamentos podem ter efeitos colaterais”, explicou Andrew.

“Ao identificar o que é compartilhado entre esses problemas, esperamos encontrar formas de enfrentá-los de uma maneira diferente que não exija quatro medicamentos distintos ou quatro intervenções psicoterapêuticas diferentes”, acrescentou.

Andrew observou que, por enquanto, o conhecimento de que a genética está por trás de seus transtornos pode proporcionar conforto a alguns pacientes.

“É importante que as pessoas saibam que elas não tiveram apenas um terrível azar na vida – que elas não estão enfrentando vários problemas diferentes, mas sim um conjunto de fatores de risco que causa todos eles”, disse.

Essa pesquisa não teve financiamento comercial. Andrew Grotzinger informou não ter conflitos de interesses.

Nat Gen. Publicado on-line em 05 de maio de 2022.  Abstract.

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