Hormônios são responsáveis por 10% das alterações lipídicas na menopausa

Pam Harrison

Notificação

27 de maio de 2022

A transição da perimenopausa para a menopausa é acompanhada por uma alteração pró-aterogênica em lipídios e outros metabólitos circulantes que potencialmente predispõem as mulheres a doenças cardiovasculares. Agora, pela primeira vez, um estudo de coorte prospectivo quantifica a ligação entre mudanças hormonais e essas alterações lipídicas.

Todavia, a terapia de reposição hormonal (TRH) atenua um pouco as alterações e pode ajudar a proteger mulheres na menopausa de um risco elevado de doenças cardiovasculares, sugere o mesmo estudo.

"A menopausa não é evitável, mas talvez as alterações negativas nos metabólitos possam ser diminuídas com escolhas de estilo de vida, tais como comer de forma de saudável e ser fisicamente ativa", escreveu em um e-mail ao Medscape a autora sênior do estudo, a médica Dra. Eija Laakkonen, da Jyväskylän yliopisto, na Finlândia.

"As mulheres também deveriam prestar atenção, especialmente, à qualidade das gorduras na dieta e à quantidade de exercício que praticam para manter o condicionamento cardiorrespiratório", disse a médica, acrescentando que as mulheres deveriam discutir a opção da TRH com seu médico.

Convidada pelo Medscape a comentar o estudo, a médica Dra. JoAnn Manson, da Harvard Medical School, e ex-presidente da North American Menopause Society, nos Estados Unidos, disse haver evidências sólidas de que as mulheres sofram mudanças cardiometabólicas negativas durante a transição menopáusica.

Essas mudanças compreendem alterações na composição corporal (aumento da gordura visceral e circunferência da cintura), assim como mudanças desfavoráveis no perfil lipídico, como aumento na lipoproteína de baixa de densidade (do inglês LDL, low-density lipoprotein) e triglicérides, e redução na lipoproteína de alta densidade (do inglês HDL, high-density lipoprotein).

Também está claro, com base em diversos estudos de coorte, que a TRH atenua o aumento de peso e de porcentagem de gordura corporais (assim como de gordura visceral) relacionado à menopausa, disse a médica.

Dessa forma, os novos achados parecem, de fato, "espelhar" os de outros estudos sobre a transição da perimenopausa para a menopausa, inclusive a TRH ter "um efeito favorável sobre os lipídios", disse a Dra. JoAnn. A TRH "diminui a LDL e aumenta a HDL, e isso é particularmente verdadeiro quando ela é administrada por via oral", mas mesmo o uso transdérmico demonstrou alguns benefícios, observou.

10% das alterações lipídicas na menopausa são devido às mudanças hormonais

O novo estudo, feito pelo Dr. Jari E. Karppinen, também da Universidade de Jyväskylän yliopisto, e colaboradores foi publicado recentemente no periódico European Journal of Preventive Cardiology. Os dados são do estudo de coorte prospectivo Estrogenic Regulation of Muscle Apoptosis (ERMA).

No total, 218 mulheres foram acompanhadas da perimenopausa até o início da menopausa, sendo que 35 delas iniciaram a TRH, a maioria com medicamentos orais. Essas mulheres foram acompanhadas por uma mediana de 14 meses. A média de idade dessas pacientes era de 51,7 anos quando seus níveis de hormônios e metabólitos foram dosados pela primeira vez.

Estudos anteriores mostraram que a menopausa está associada com níveis de metabólitos que levam a doenças cardiovasculares, mas este é o primeiro estudo a relacionar essas alterações com mudanças nos hormônios sexuais femininos de forma específica, salientaram os pesquisadores.

"A menopausa foi associada com uma mudança estatisticamente significativa nos níveis de 85 metabólitos", relataram o Dr. Jari e colaboradores.

Análises mostraram que a mudança hormonal na menopausa explicou diretamente as alterações em 64 dos 85 metabólitos, com tamanhos de efeito variando de 2,1% a 11,2%. 

Entre essas alterações, podemos mencionar aumentos na LDL, nos triglicérides e nos ácidos graxos. As análises foram ajustadas por idade no início do estudo, duração do acompanhamento, escolaridade, uso de tabaco, uso de álcool, atividade física e qualidade de dieta.

Mais especificamente, os pesquisadores descobriram que todas as contagens e os diâmetros de partículas contendo apolipoproteína B (apoB) aumentaram ao longo do acompanhamento, apesar de não ter ocorrido mudança nas partículas de HDL.

Também descobriram que houve aumento nas concentrações de colesterol em todas as classes de lipoproteínas contendo apoB e aumento nas concentrações de triglicérides em lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL, do inglês very low-density lipoprotein) e partículas de HDL.

"Esses achados, inclusive os triglicérides HDL, podem ser interpretados como sinais de saúde metabólica ruim, visto que, apesar do colesterol HDL mais alto ser bom para a saúde, altos níveis de triglicérides HDL estão associados com maior risco de doença arterial coronariana", enfatizou a Dra. Eija.

Entre as 35 mulheres que iniciaram a TRH após o recrutamento para o estudo, os pesquisadores observaram, em uma análise exploratória, aumento na HDL e redução na LDL.

Porém, "o número de mulheres iniciando a TRH foi pequeno e o tipo de TRH não foi controlado", advertiu a Dra. Eija.

"Mesmo assim, nossas observações indicam que as diretrizes clínicas iniciem a TRH logo no início da menopausa, visto que esse momento oferece o maior efeito cardioprotetor", acrescentou.

O estudo foi apoiado pela Academia da Finlândia. Os autores e a Dra. JoAnn Manson  informaram não ter conflitos de interesses. A Dra. JoAnn é uma colaboradora do Medscape.

Eur J Prev Cardiol. Publicado on-line em 12 de maio de 2022. Texto completo

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