Reposição adequada de hormônio tireoidiano é essencial para a saúde cardíaca

Nancy A. Melville

Notificação

24 de maio de 2022

Novo estudo ressalta importância de se evitar hipertireoidismo e hipotireoidismo exógenos a fim de reduzir risco cardiovascular e morte em pacientes em tratamento com hormônio tireoidiano.

"Nossos achados sugerem que os médicos deveriam fazer todos os esforços para manter o eutireoidismo nos pacientes em tratamento com hormônio tireoidiano, independentemente do risco cardiovascular de base, particularmente em populações vulneráveis, como indivíduos mais velhos", disse ao Medscape a autora sênior do estudo, a médica Dra. Maria Papaleontiou.

Comentando sobre o estudo, o médico Dr. David S. Cooper, da Johns Hopkins University School of Medicine, nos Estados Unidos, concordou que os achados são significativos.

"Tanto o tratamento insatisfatório quanto o tratamento desnecessário foram associados a desfechos cardiovasculares desfavoráveis, indicando que a função tireoidiana dos pacientes precisa ser monitorada e a levotiroxina deve ser ajustada continuamente, se necessário", disse o médico ao Medscape.

Alcançar o equilíbrio: uma tarefa complicada

Variações nos níveis de hormônio tireoidiano, tanto abaixo quanto acima dos valores-alvo, são comuns na terapia hormonal tireoidiana, visto que uma ampla variedade de fatores pode levar à necessidade de ajuste regular da dose para manter níveis "ideais". Embora as diretrizes da American Thyroid Association (ATA) recomendem manter os níveis de hormônio estimulante da tireoide (TSH, do inglês thyroid-stimulating hormone) em valores normais durante o tratamento, a tarefa é complicada.

"Apesar dessas diretrizes [da ATA], estudos anteriores em adultos com hipotireoidismo mostraram que até 30% deles são tratados de forma insatisfatória e até 48% recebem tratamento desnecessário", disse a Dra. Maria, professora assistente na divisão de metabolismo e endocrinologia da University of Michigan, nos Estados Unidos.

Em um estudo anterior, a Dra. Maria e colaboradores mostraram que a intensidade do tratamento com hormônio tireoidiano é um fator de risco modificável para fibrilação atrial e AVC incidentes, entretanto, a associação com mortalidade cardiovascular é menos compreendida.

No novo estudo, publicado no periódico JAMA Network Open, o médico Dr. Josh M. Evron, da University of North Carolina, nos Estados Unidos, e colaboradores aprofundaram a investigação dessa questão em uma grande coorte retrospectiva com 705.307 adultos do Veterans Health Administration Corporate Data Warehouse, que foram tratados com hormônio tireoidiano entre 1º de janeiro de 2004 e 31 de dezembro de 2017, com uma mediana de acompanhamento de quatro anos.

Os pesquisadores analisaram a função dos níveis de TSH e de tiroxina livre em 701.929 adultos do grupo com dados sobre o TSH e 373.981 pacientes com dados sobre a tiroxina livre.

A média de idade dos participantes foi de 67 anos e 88,7% eram homens.

Durante o período do estudo, 10,8% dos pacientes (75.963) morreram de causas cardiovasculares.

Comparados com pacientes com níveis normais de hormônio tireoidiano, os indivíduos com hipertireoidismo exógeno relacionado ao tratamento com hormônio tireoidiano apresentaram aumento do risco de mortalidade cardiovascular, especificamente quando os níveis de TSH estavam abaixo de 0,1 mUI/L (razão de risco ajustada [RRa] de 1,39) e quando os níveis de tiroxina livre estavam acima de 1,9 ng/dL (RRa de 1,29), independentemente de fatores como idade, sexo e fatores de risco cardiovascular tradicionais tais como hipertensão, tabagismo, doença cardiovascular prévia ou arritmia.

Além disso, o aumento do risco de mortalidade cardiovascular também foi observado no hipotireoidismo exógeno, especificamente nos pacientes com níveis de TSH acima de 20 mUI/L (RRa de 2,67) e níveis de tiroxina livre abaixo de 0,7 ng/dL (RRa de 1,56), após ajuste multivariado.

É importante salientar que o risco de mortalidade cardiovascular foi dependente da dose e esse risco aumentou progressivamente conforme os níveis de TSH diminuíam ou aumentavam, comparados com níveis normais.

O aumento do risco de mortalidade em relação aos níveis de TSH foi mais acentuado em pacientes mais velhos quando comparados com as associações com os níveis de tiroxina livre, observaram os autores.

"De uma perspectiva clínica, os pacientes mais velhos, em particular aqueles com idade mais avançada (85 anos), parecem ser os mais vulneráveis, com aumento do risco de mortalidade cardiovascular tanto com hipertireoidismo quanto hipotireoidismo exógenos", relataram os pesquisadores.

Uma das principais limitações foi que as mulheres, que constituem a maioria dos pacientes com doença tireoidiana, foram sub-representadas na população predominantemente masculina da Veterans Health Administration.

Mesmo assim, "como o risco de doença cardiovascular é maior tanto para homens quanto para mulheres, e como mais de 70.000 mulheres foram incluídas nessa coorte, os resultados desse estudo são alta e clinicamente relevantes", observaram os autores.

Abordar o tratamento insatisfatório e o tratamento desnecessário evitará danos

Os resultados também são importantes considerando-se o status da levotiroxina (para hipotireoidismo), que consistentemente aparece entre os três medicamentos mais prescritos nos Estados Unidos.

Além disso, com a ocorrência comum de hipertireoidismo ou hipotireoidismo exógenos, os achados têm implicações importantes.

"Abordar o tratamento insatisfatório e o tratamento desnecessário do hipotireoidismo diminuirá rapidamente os danos aos pacientes, particularmente em populações vulneráveis como pacientes mais velhos, com maior risco de efeitos adversos", disse a Dra. Maria.

O Dr. David comentou ainda que os achados enfatizam a necessidade de se estar ciente dos ajustes no tratamento e dos alvos que podem variar de acordo com a idade do paciente.

"Em pessoas mais velhas, acima de 65 a 70 anos, o TSH-alvo pode ser mais alto (por exemplo, 2 mUI/L a 4 mUI/L) do que em pessoas mais jovens, e em pacientes acima de 70 ou 80 anos, é permitido que os níveis séricos de TSH atinjam até mesmo entre 4 mUI/L e 6 mUI/L", explicou.

"Quanto mais velho o paciente, maior a chance de um desfecho cardiovascular desfavorável se o TSH estiver abaixo do normal devido a uma tireotoxicose iatrogênica", explicou o Dr. David.

"Em contraste, em indivíduos mais jovens, um TSH elevado indicando hipotireoidismo [subclínico] leve pode estar associado ao aumento do risco cardiovascular, especialmente com níveis séricos de TSH maiores do que 7 mUI/L."

Os autores informaram não ter conflitos de interesse relevantes.

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