Covid-19: segurança da vacina é a maior preocupação das gestantes

Richard Mark Kirkner

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24 de maio de 2022

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No Canadá, o maior motivo para gestantes terem se recusado a tomar a vacina anticovídica foi preocupação com a segurança, segundo nova pesquisa.

Uma enquete transversal com 193 gestantes constatou que a maioria topou tomar a vacina. Proteger a própria família contra a infecção pelo novo coronavírus foi o motivo mais indicado para essa escolha (89,1%).

"Realmente precisamos continuar explorando o que pode ser feito para ajudar as gestantes a decidirem sobre a imunização [contra o SARS-CoV-2], bem como facilitar ao máximo o processo de vacinação", disse ao Medscape a Dra. Laura Reifferscheid, enfermeira e doutoranda da University of Alberta, no Canadá.

O estudo foi publicado on-line em 27 de abril no periódico Canadian Journal of Public Health.

Segurança vs. doença

Gestantes infectadas pelo SARS-CoV-2 apresentam mais risco de morbidade e mortalidade do que não gestantes. Dentre os desfechos adversos vistos nessa população há pré-eclâmpsia e parto prematuro.

Os pesquisadores realizaram uma pesquisa on-line de 28 de maio a 07 de junho de 2021 para tirar uma "fotografia" das atitudes em relação às vacinas anticovídicas das gestantes canadenses, disse a Dra. Laura. Participaram da pesquisa 193 gestantes, das quais 57,5% (n = 110) já haviam sido vacinadas ou pretendiam fazê-lo.

"Há muitos fatores em jogo na decisão de tomar vacinas durante a gestação", disse a Dra. Laura. "A segurança é, de longe, a maior preocupação tanto de quem tomou quanto de quem não tomou a vacina."

Concentrando-se nas 81 participantes que afirmaram que não tomariam a vacina, 73 (90,1%) mencionaram preocupações com a segurança da vacina, mais especificamente, risco de comprometimento materno ou fetal, e 66 (81,5%) disseram que a vacina havia sido desenvolvida rápido demais por conta da pandemia. Outros motivos apontados como justificativa para não tomar a vacina foram a novidade da vacina (77,8%; n = 63), a preocupação de que ela não funcione (22,2%; n = 18) e a falta de confiança em vacinas de modo geral (13,6%; n = 11).

Por outro lado, as 110 participantes que já haviam tomado ou que pretendiam tomar a vacina anticovídica deram os seguintes motivos para justificar a decisão: proteger a própria família (89%; n = 98) e a si mesmas da covid-19 (88,1%; n = 97); acabar com a pandemia e voltar à normalidade (57%; n = 63); e evitar a disseminação da doença (53,7%; n = 59). Um percentual muito menor, 13,6% (n = 15), disse ter baseado a decisão nas recomendações de especialistas ou profissionais da saúde.

"Ao analisarmos a associação entre as diferentes percepções em relação à vacina e à aceitação da vacina, constatamos que as preocupações com a segurança definitivamente superavam as preocupações com a doença causada pelo vírus", disse Dra. Laura.

O estudo também identificou fatores associados à aceitação da vacina. Em uma análise multivariada, as participantes indígenas (autodeclaradas), as que tinham uma ocupação de alto risco (excluindo a área da saúde) e as confiantes na segurança da vacina (versus neutras ou convictas de que a vacina não era segura), [estavam ligadas à aceitação da vacina]. Características sociodemográficas, doença crônica (informada pela participante) ou percepção de barreira ao acesso à vacinação não foram fatores associados à aceitação da vacina.

Informar é importante

A enquete foi realizada quando as "informações de segurança ainda eram bastante limitadas", disse a Dra. Laura. Em dezembro de 2020, o National Advisory Committee on Immunization (NACI) do Canadá emitiu um aviso de que as gestantes não deveriam receber a vacina anticovídica, a menos que os benefícios individuais fossem considerados superiores aos riscos. Um mês depois, o NACI disse que as gestantes poderiam receber a vacina. Em maio de 2021, o NACI recomendou que as gestantes recebessem a vacina de ácido ribonucleico mensageiro (ARNm).

"Sabemos que ainda havia muita confusão e incerteza, não apenas entre as gestantes, mas também entre os fabricantes de vacinas quanto a oferecer a vacina para as gestantes ou não, e até mesmo sobre como falar com elas sobre a vacinação", acrescentou a Dra. Laura.

O estudo oferece insights sobre a última questão, continuou ela. "Qualquer informação sobre a vacinação durante a gestação precisa ser muito clara, não apenas em relação à segurança da mulher, mas também do feto e do bebê", disse a Dra. Laura.

As informações também precisam ser claras sobre os benefícios da vacinação, "qual é o risco da doença para a mãe e para o feto, e a eficácia da vacina na redução desses riscos", disse ela.

A forma como a informação é dada também é importante. "Julgar ou ‘ficar pregando’ a vacinação não ajuda em nada", disse a Dra. Laura. "As gestantes são expostas a informações conflitantes o tempo todo sobre o que é ou não seguro durante a gravidez, então é totalmente justo que elas tenham perguntas e preocupações, e é totalmente justo esperar conversas a respeito dessas perguntas e preocupações."

Em geral, os médicos podem se comunicar de forma eficaz, concentrando-se nos benefícios da vacina (em vez dos riscos de não a receber), entendendo que a saúde do feto é a principal preocupação da gestante e abstendo-se de julgar a escolha da paciente, de acordo com os pesquisadores.

Maior aceitação?

Pesquisas recentes não publicadas do estudo International covid-19 Awareness and Responses Evaluation (iCARE) mostraram maior disposição das gestantes no Canadá em relação à vacinação, disse a Dra. Eva Suarthana, Ph.D. médica pesquisadora de epidemiologia reprodutiva na McGill University, no Canadá, e colaboradora do iCARE.

O estudo iCARE entrevistou mais de 100 mil participantes. "Entre junho de 2021 e fevereiro de 2022, 289 participantes afirmaram que estavam grávidas durante a pesquisa", disse a Dra. Eva. "O percentual de gestantes vacinadas foi consistentemente > 80% ao longo do tempo", disse ela. "Vacinado" foi definido como pessoas que receberam pelo menos uma dose de um imunizante de duas doses ou uma dose de um imunizante de dose única.

"A boa notícia é que a adesão é muito maior do que a aceitação da vacina anticovídica relatada em 57,5% pela pesquisa de Dra. Laura e colegas", disse a Dra. Eva.

O estudo foi financiado pelos Canadian Institutes of Health Research. As Dras. Laura Reifferscheid e Eva Suarthana informaram não ter relações financeiras relevantes.

Can J Public Health. Publicado on-line em 27 de abril de 2022. Texto completo

Richard Mark Kirkner é um jornalista médico reside na Filadélfia, EUA.

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