Canabinoides na medicina: esperança ilimitada ou 'hype'?

Christoph Renninger

Notificação

20 de maio de 2022

Qual é o atual papel dos canabinoides como entorpecentes e no contexto clínico? Essa foi a questão abordada pelo Dr. Dieter Braus, psiquiatra e neurologista na Clínica Vitos Rheingau, na Alemanha, no congresso de 2022 da Deutschen Gesellschtaf fur Innere Medizin.

Inibindo o sistema dopaminérgico

Independentemente do tipo de vício em substâncias que causam dependência (álcool, opioides, nicotina ou canabinoides), a via cerebral é a mesma: o sistema dopaminérgico. Este sistema também é responsável por curiosidade, desejo, aprendizado e ações. Várias substâncias elevam a liberação de dopamina.

O sistema endocanabinoide atua como um inibidor deste sistema [dopaminérgico]. A estabilização do sistema é inibida pela ligação de alta afinidade do delta-9-trans-tetraidrocanabinol (THC) aos receptores CB1. O componente psicotrópico da Cannabis responde naturalmente por 1% a 2% da substância ativa, entretanto, essa proporção aumentou para 10%­ a 20% como resultado da reprodução seletiva. Ao mesmo tempo, a proporção de canabidiol (CBD), a contraparte não psicoativa, diminuiu.

Além do efeito agudo do THC, com uma sensação eufórica e agradável, o consumo crônico produz diferentes efeitos. Vias de sinalização retrógradas são interrompidas levando ao comportamento viciante, à redução da motivação e à emotividade negativa. Esses efeitos crônicos podem ocorrer até mesmo após poucos episódios de uso.

Regiões cerebrais profundas, como o hipocampo, a substância negra, a amígdala e o hipotálamo, possuem as maiores densidades de receptores CB1. Essas regiões estão todas envolvidas em doenças relacionadas ao estresse, inclusive transtornos de ansiedade, depressão e transtorno obsessivo compulsivo.

Risco de psicose

Devido a um desequilíbrio em sistemas importantes, o consumo de Cannabis pode causar comprometimento cognitivo, reduzir a motivação e deflagrar psicose, especialmente se for usada durante fases vulneráveis do desenvolvimento cerebral.

O consumo diário de Cannabis quintuplica o risco de transtorno psicótico. Após a legalização, diversos países têm visto um forte aumento de casos de psicose. Por essa razão, o Dr. Dieter expressou um ponto de vista crítico sobre o assunto. Ele defendeu uma idade mínima de 21 anos para a legalização, pois o consumo antes dos 18 anos tem efeitos graves sobre o desenvolvimento do sistema dopaminérgico. O uso durante a adolescência tem efeitos significativos sobre o desempenho cognitivo na idade adulta, levando a déficits de atenção, alta distração, menor capacidade de aprendizado, comprometimento da articulação verbal, dificuldade com matemática e outras funções de memória. Mesmo após somente um ou dois usos, podem ser detectadas alterações estruturais no cérebro, particularmente no córtex pré-frontal medial.

Esse desenvolvimento cerebral desfavorável contribui para a formação de redes neurais de ansiedade, com aumento da irritabilidade e tendência a transtornos de ansiedade. O Dr. Dieter disse que é alarmante pensar que um a cada três alunos do ensino médio nos Estados Unidos já experimentou Cannabis.

Uso em neuropsiquiatria

Como consequência da fisiopatologia, o sistema endocanabinoide é um potencial alvo de tratamento para várias doenças, dor, inflamação, depressão, transtornos de ansiedade e câncer. Foram conduzidas pesquisas básicas em muitas dessas áreas, porém, frequentemente os dados são insuficientes.

Na maior metanálise feita até então sobre o uso medicinal de canabinoides, 79 estudos recrutaram 6.462 pacientes, o que o Dr. Dieter descreveu como um número manejável. Essa análise forneceu evidências moderadas para o uso de Cannabis no tratamento de dor crônica e espasmos. Existe uma pequena quantidade de evidências da redução de náuseas e vômitos durante a quimioterapia, e em casos de ganho ponderal, distúrbios do sono e síndrome de Tourette.

Todas as aplicações levaram a eventos adversos de curto prazo, incluindo tontura, xerostomia, náuseas, desorientação, confusão, alucinações e distúrbios metabólicos.

Revisões mais recentes na área de psiquiatria, por exemplo, não chegaram a conclusões definitivas, pois frequentemente os estudos não foram suficientemente metódicos. Além disso, o número de fármacos contendo diferentes quantidades de THC dificulta a regulamentação.

Resumo do neuropsiquiatra

O Dr. Dieter resumiu sua apresentação nos seguintes pontos:

  • A legalização da Cannabis está ligada ao aumento do consumo, mesmo entre pessoas mais velhas.

  • É necessário cautela, especialmente com relação ao uso por adolescentes (devido aos efeitos na rede neural de ansiedade).

  • A droga está associada a aumento do risco de psicose.

  • O consumo de Cannabis por pessoas entre 13 e 16 anos, mesmo leve, está ligado ao triplo do risco [de psicose]

  • A exposição intrauterina à Cannabis pode comprometer o crescimento cerebral.

  • Existem evidências razoáveis da eficácia da Cannabis para o controle de dor crônica e espasmos.

  • Ainda não foram realizados importantes estudos convencionais, apenas relatos informais. No entanto, em teoria, existe um grande potencial [para o controle da dor crônica/espasmos]

Este conteúdo foi originalmente publicado em alemão no site Coliquio Medscape Professional Network.

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