Riscos neuropsiquiátricos da covid-19: novos dados

Megan Brooks

Notificação

19 de maio de 2022

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As consequências neuropsiquiátricas da covid-19 grave parecem não diferir daquelas que ocorrem em outras síndromes respiratórias agudas graves (SRAG).

Resultados de um grande estudo mostraram que houve um aumento significativo do risco de doenças neuropsiquiátricas inéditas, sendo esse aumento similar entre adultos que sobreviveram após a forma grave da covid-19 e adultos que sobreviveram a outras SRAG, em comparação com a população geral.

Esse achado sugere que a gravidade da doença, em vez do patógeno, seja o fato mais relevante no surgimento de doenças neuropsiquiátricas, observaram os pesquisadores.

O risco do surgimento de doenças neuropsicológicas após a covid-19 grave é "substancial, porém similar ao observado após outras infecções respiratórias graves," disse ao Medscape o pesquisador do estudo, o médico Dr. Peter Watkinson, do Nuffield Department of Clinical Neurosciences, na University of Oxford, e do John Radcliffe Hospital, ambos na Inglaterra.

"Tanto os trabalhadores quanto os coordenadores dos serviços de saúde devem considerar as sequelas neuropsicológicas após todas as infeções respiratórias graves, em vez de acompanhar somente casos graves de covid-19", disse o Dr. Peter.

O estudo foi publicado on-line em 11 de maio no periódico JAMA Psychiatry.

Carga significativa para a saúde mental

Pesquisas mostraram um aumento significativo do número de casos de doenças neuropsicológicas após a covid-19 grave. No entanto, não está claro como esse risco se compara ao da SRAG.

Para investigar essa questão, o Dr. Peter e colaboradores avaliaram prontuários eletrônicos de mais de 8,3 milhões de adultos, entre os quais 16.679 (0,02%) que sobreviveram após internação hospitalar por SRAG e 32.525 (0,03%) que sobreviveram após internação hospitalar por covid-19.

Na comparação com o restante da população, o risco de novos diagnósticos de transtorno de ansiedade, demência, transtorno psicótico, depressão e transtorno bipolar teve um aumento significativo e similar em adultos após hospitalização tanto por covid-19 quanto por SRAG.

Diagnóstico RR(1) SRAG (IC(2) 95%) RR covid-19 (IC 95%)

Ansiedade

1,86 (de 1,56 a 2,21)

2,36 (de 2,03 a 2,74)

Demência

2,55 (de 2,17 a 3,00)

2,63 (de 2,21 a 3,14)

Transtorno psicótico

3,63 (de 1,88 a 7,00)

3,05 (de 1,58 a 5,90)

Depressão

3,46 (de 2,21 a 5,40)

1,95 (de 1,05 a 3,65)

Transtorno bipolar

2,26 (de 1,25 a 4,08)

2,26 (de 1,25 a 4,07)

(1) RR = razão de risco.
(2) IC = intervalo de confiança.

Também houve um aumento do risco de iniciar tratamentos com antidepressivos, hipnóticos/ansiolíticos ou antipsicóticos entre os sobreviventes de SRAG grave ou covid-19 grave, comparados com a população geral.

Ao comparar sobreviventes de internação por SRAG com sobreviventes de internação por covid-19, não foram observadas diferenças significativas nas taxas de incidência de transtorno de ansiedade, demência, depressão ou transtorno afetivo bipolar após a alta.

Os grupos de SRAG e covid-19 também não diferiram em termos de risco de uso de antidepressivos ou hipnóticos/ansiolíticos após a alta, porém os sobreviventes de covid-19 tiveram um risco 20% menor de iniciar o uso de antipsicóticos.

"Nesse estudo de coorte, foi descoberto que a SRAG se associou a uma morbidade neuropsiquiátrica significativa após a fase aguda da infecção, o que não foi muito diferente no caso da covid-19", escreveram o Dr. Peter e colaboradores.

"Esses resultados podem ajudar a refinar nosso entendimento do fenótipo pós-covid-19 grave e sinalizar o acompanhamento pós-alta para pacientes que necessitem de internação hospitalar e tratamento intensivo para SRAG, independentemente do patógeno causador", escreveram.

Ressalvas e notas de advertência 

O Dr. Kevin McConway, PhD, professor emérito de estatística aplicada na Open University, na Inglaterra, descreveu o estudo como "impressionante”; entretanto, apontou que o desenho observacional foi uma limitação.

"Nunca se pode ter certeza sobre a interpretação dos achados de um estudo observacional. O que a pesquisa não conseguiu nos dizer foi o que causou o aumento do risco de transtornos psiquiátricos em pessoas hospitalizadas por covid-19 ou alguma outra doença respiratória grave", disse o Dr. Kevin.

"Ela não consegue nos dizer o que poderia acontecer no futuro, quando, esperamos todos, muito menos pessoas serão hospitalizadas por covid-19 do que nas duas primeiras ondas e a sobrecarga dos serviços de saúde terá diminuído", acrescentou.

"Dessa forma, nós não podemos simplesmente dizer que, de uma forma geral, a covid-19 grave teria as mesmas consequências neuropsiquiátricas que várias outras doenças respiratórias bem sérias. Talvez ela tenha, talvez não", advertiu o Dr. Kevin.

O médico Dr. Max Taquet, PhD, da University of Oxford, na Inglaterra, observou que o estudo foi limitado aos pacientes adultos hospitalizados, deixando em aberto a questão do risco em indivíduos não hospitalizados (a esmagadora maioria dos pacientes com covid-19) e em crianças.

Se os riscos neuropsiquiátricos se mantiveram ou não desde o surgimento da variante Ômicron ainda "está em aberto, visto que todos os pacientes nesse estudo foram diagnosticados antes de julho de 2021", disse o Dr. Max em uma declaração.

O estudo foi financiado pelo Wellcome Trust, pelo John Fell Oxford University Press Research Fund, pelo Oxford-Wellcome Institutional Strategic Support Fund e pela Cancer Research UK, através do Cancer Research UK Oxford Centre. O Dr. Peter Watkinson informou ter recebido verbas do National Institute for Health and Care Research e honorários da Sensyne Health sem relação com o trabalho publicado. Também informou ter atuado como diretor médico na Sensyne Health antes da realização desta pesquisa, além de possuir ações da empresa. O Dr. Kevin McConway é um administrador do Science Media Centre e membro do seu comitê consultivo. Seus comentários foram feitos na qualidade de estatístico profissional independente. O Dr. Max Taquet trabalhou em estudos similares que buscaram identificar, quantificar e especificar as consequências neurológicas e psiquiátricas da covid-19.

JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 11 de maio de 2022. Texto completo

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