Médicos que atuam na atenção primária precisam estar atentos à saúde mental dos pacientes

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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19 de maio de 2022

É possível separar o coração da mente? Segundo especialistas reunidos no 39° Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), evento realizado de forma virtual em maio deste ano, a resposta é não. Em um colóquio sobre saúde mental, médicos e psicólogos lembraram que dados de longa data já sugeriam que pessoas estressadas apresentavam eventos cardiovasculares com mais facilidade, sendo a síndrome de Takotsubo um exemplo extremo.

A literatura traz diferentes trabalhos que mostram como emoções negativas podem comprometer a saúde. Segundo o debatedor Dr. Gustavo Barbirato, médico cardiologista e membro do Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (DEMCA) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), um estudo realizado durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha e publicado no periódico New England Journal of Medicine[1] mostrou, por exemplo, que assistir a uma partida de futebol estressante mais do que dobrou o risco de evento cardiovascular agudo.

Por outro lado, as emoções positivas têm sido associadas a resultados benéficos. De acordo com o Dr. Gustavo, ensaios clínicos revelam que gratidão, otimismo, religiosidade e a terapia do perdão, por exemplo, parecem contribuir para a redução de fatores de risco relacionados ao estresse e a eventos cardiovasculares. O cardiologista lembrou que já há estudos sugerindo que abordagens dessa natureza possam ajudar o paciente tanto a modificar a resposta a algumas doenças (como hipertensão e insuficiência cardíaca) quanto a reduzir os níveis pressóricos e melhorar a adesão ao tratamento. É importante lembrar que, embora benéficas, terapias alternativas, como meditação, atenção plena e yoga, não substituem o cuidado médico e/ou psicológico quando este é necessário.

Desde 1938, pesquisadores da Harvard University avaliam a relação entre felicidade e longevidade. Segundo o moderador da sessão científica, Dr. Cláudio Domênico, cardiologista clínico do Hospital Pró-Cardíaco, o estudo Harvard Study of Adult Development do Dr. Robert Waldinger e colaboradores já mostrou, por exemplo, que, aos 50 anos de idade, a qualidade dos relacionamentos que temos, ou seja, as nossas conexões sociais, são mais importantes do que nosso nível de colesterol para determinar como vamos envelhecer [2].

Como abordar a saúde mental no idoso?

Para o Dr. Kalil Lays Mohallem, médico cardiologista e geriatra do Hospital Pró-Cardíaco, todo o médico que atua na atenção primária deveria investigar dois aspectos importantes diante do paciente idoso: o déficit cognitivo e a depressão.

Quanto ao primeiro problema, o debatedor lembrou que já está comprovado que a triagem daqueles que não apresentam queixa não é vantajosa, ou seja, só vale a pena investigar a presença de déficit cognitivo em quem tem alguma queixa ou quando familiares referem sinais que podem indicar um possível problema nesse campo.

Já em relação à depressão, é importante lembrar, segundo o Dr. Kalil, que nem sempre o paciente deprimido chega ao consultório triste ou chorando. “Muitas vezes, ele chega com uma queixa somática ou queixas não muito explicadas, está correndo consultórios, tem passagens por vários médicos. Nesses casos, vale a pena fazer uma investigação”, destacou, explicando que, para isso, é possível utilizar ferramentas específicas, tal como a Geriatric Depression Scale (GDS). Outra opção é questionar o paciente quanto à possível perda de interesse por coisas que gostava de fazer habitualmente e à possível perda de energia e de disposição para a execução de atividades diárias. Se a resposta for positiva para uma delas, é necessário investigar mais a fundo.

Segundo a Dra. Lilian Scheinkman, médica psiquiatra e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a presença de depressão em pacientes com infarto agudo do miocárdio e com doença coronariana aumenta muito a mortalidade e a morbidade; portanto, é importante estar atento, avaliar e encaminhar o paciente para o especialista quando necessário.

Os especialistas destacaram ainda a importância da prática de atividade física, bem como as vantagens de se ter uma abordagem multidisciplinar. Para eles, quando profissionais de várias áreas trabalham em equipe, proporcionam um suporte completo ao paciente, o que também facilita o acompanhamento da polifarmácia, uma questão importante para o paciente idoso. “Todas as drogas, psiquiátricas e não psiquiátricas têm muitos efeitos colaterais e muitas interações medicamentosas”, alertou a Dra. Lilian, destacando a necessidade de acompanhamento criterioso e individualização do tratamento.

Segundo a Dra. Natalia Telles, psicóloga e coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Pró-Cardíaco, a saúde mental e a saúde cardiovascular estão muito ligadas. “Qual o paciente que apresentando uma questão cardíaca, tal como arritmia ou dor precordial, não vai ficar ansioso, não vai ficar com receio, com medo da morte?”, questionou a debatedora e disse que o diagnóstico diferencial de comorbidades é algo importante. Além disso, um fator pode aumentar o risco de outro. “Sabemos que um paciente muito ansioso tem mais chance de ter um problema cardiovascular e vice-versa”, pontuou, reforçando a necessidade de se trabalhar em conjunto. O atendimento do idoso, para ela, acaba sendo um paradigma, porque frequentemente acaba exigindo o contato com outros profissionais. “É o paradigma do que a gente deveria fazer com todas as idades”, destacou.

Efeitos da pandemia de covid-19 sobre a saúde mental

Para o cientista social francês Edgar Morin, explicou o Dr. Cláudio Domênico, a pandemia trouxe um desafio à humanidade: a necessidade de desenvolver tolerância à incerteza.[3] Isso é especialmente impactante, visto que convivemos com a ilusão do controle. Embora, de fato, não tenhamos controle sobre as coisas, essa ilusão nos ajuda a nos organizar, a ter disciplina. “A pandemia veio como um corte dessa ilusão”, explicou a Dra. Lilian durante o colóquio.

As incertezas impostas pelo novo coronavírus, completou a Dra. Natalia, deixaram “a vida em suspenso”. Isto é, houve uma suspensão de desejos e motivação, fazendo com que todos ficassem mais restritos a si mesmos.

O comprometimento da vida social gerou, por sua vez, um impacto na saúde mental, com destaque, principalmente, para o aumento de casos de compulsão alimentar, uso e abuso de álcool e outras drogas, depressão, transtorno do pânico e insônia.

O dia a dia, segundo a Dra. Lilian, mostrou uma elevação relevante da busca por ajuda profissional, tanto de psiquiatras quanto de psicólogos. “Acho que houve um aumento importante do sofrimento das pessoas”, ponderou a debatedora, acrescentando que dois grupos especialmente afetados pela pandemia foram os idosos e os adolescentes.

Outra questão que ganhou destaque na pandemia foi o burnout. "O trabalho invadiu a casa, então aquele limite de horário em que você ia trabalhar e saía do trabalho parou de existir", afirmou a Dra. Natalia, complementando que, para os profissionais de saúde, foi ainda mais desafiador. Nesse sentido, o Dr. Kalil ressaltou a importância de os médicos estarem atentos à própria saúde: “temos que cuidar da nossa saúde mental, pois não posso querer cuidar de alguém se não cuido de mim”, pontuou. 

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