Hepatite aguda grave pediátrica de etiologia desconhecida: o que precisamos saber?

Dra. Sabrine Teixeira Grünewald

Notificação

13 de maio de 2022

Há pouco mais de um mês, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada sobre a ocorrência de 10 casos de hepatite aguda grave de etiologia desconhecida em crianças e adolescentes previamente saudáveis na Escócia. De lá para cá, novos casos foram registrados em diversos países, e agências de saúde de todo o mundo estão colaborando para reunir informações e publicar diretrizes de conduta para os profissionais de saúde.

Segundo a OMS, até dia 10 de maio de 2022, haviam sido registrados 348 casos de hepatite aguda grave pediátrica de etiologia desconhecida em diversos países, com mais de 70 casos em investigação. No dia 4, quando os casos oficiais estavam em 228, 18 (7,8%) necessitaram de transplante hepático. No Brasil, há no momento 28 casos suspeitos sendo monitorados pelo Ministério da Saúde e pelas Secretarias Estaduais de Saúde.

A OMS recomenda a coleta de amostras, como sangue, urina, fezes e amostras respiratórias, para avaliação de todos os casos suspeitos. Até o momento, a organização não sugeriu nenhuma restrição em relação a viagens para os países com maiores números de casos.

Apresentação do quadro

Segundo a definição de hepatite aguda grave infantil de etiologia desconhecida mais recente, são considerados confirmados os casos em crianças de até 16 anos de idade com quadro de hepatite aguda e aspartato aminotransferase ou alanina aminotransferase > 500U/L. A infecção pelos vírus da hepatite A, B, C, D e E deve ser descartada nesses pacientes.

Icterícia é a apresentação clínica mais frequente, presente em mais de 70% dos pacientes. Sintomas gastrointestinais também são comuns, como náuseas e vômitos, dor abdominal, hipocolia e diarreia. Aproximadamente 30% dos casos descritos até o momento apresentaram febre.

Como há relatos de casos graves, com necessidade de transplante e mesmo evolução para óbito, pode ser necessário hospitalizar os pacientes com suspeita de hepatite aguda grave para avaliação e acompanhamento mais cuidadosos.

Hipóteses na mesa

Em termos de etiologia, a principal hipótese é que a causa seja um adenovírus, embora a possibilidade de uma implicação do SARS-CoV-2 ainda não tenha sido descartada. Em uma série de casos britânica, foi possível detectar a presença de um adenovírus em 72% dos pacientes testados, enquanto o SARS-CoV-2 foi encontrado em apenas 18% dos pacientes.

Há várias teorias para a causa deste surto de casos de hepatite aguda entre crianças: uma nova variante do adenovírus, aumento da susceptibilidade ao adenovírus devido a coinfecção pelo SARS-CoV-2, síndrome pós-infecciosa da covid-19. Um relatório da UK Health Security Agency afirma que estas e outras hipóteses estão sendo investigadas, e que nenhuma pode ser descartada.

Embora existam relatos na literatura de casos de hepatite aguda associada à infecção pelo SARS-CoV-2, inclusive com evolução grave, falência hepática e óbito, esta não parece ser a principal hipótese no momento.

Também especula-se sobre a possibilidade de associação com a vacinação infantil contra a covid-19, entretanto, na Inglaterra, todas as vacinas anticovídicas são recomendadas apenas para crianças acima de cinco anos de idade, e cerca de 75% dos casos notificados no país são de pacientes abaixo dessa faixa etária, tornando improvável essa associação.

Embora o alerta para o aumento do número de casos tenha acontecido em abril de 2022, um grupo de pesquisadores estadunidenses descreveu a identificação de nove casos de hepatite aguda em crianças entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022 no Children’s of Alabama, nos Estados Unidos. Todas testaram positivo para infecção por adenovírus tipo 41. Dessa forma, parece que os quadros de hepatite são mais antigos do que se pensava inicialmente.

Enquanto as agências de saúde seguem monitorando os casos e buscando identificar a etiologia, os profissionais de saúde devem ficar atentos às manifestações clínicas e acompanhar as informações disponibilizadas pelos órgãos oficiais. As atualizações da OMS podem ser obtidas no site da organização, na seção sobre surtos de doenças.

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