Qual é o 'número mágico' de horas de sono?

Heidi Splete

Notificação

13 de maio de 2022

Dormir sete horas por noite de forma constante está associado a função cognitiva e saúde mental ideais em adultos de meia-idade, segundo achados de um novo estudo.

Distúrbios do sono são comuns em pessoas mais velhas, sendo que estudos prévios mostraram associações entre o excesso ou a privação de sono e o aumento do risco de declínio cognitivo; porém, a quantidade ideal de sono para preservar a saúde mental ainda não foi bem descrita, de acordo com os autores do novo artigo.

No estudo publicado no periódico Nature Aging , a equipe de pesquisadores da China e do Reino Unido analisou dados do UK Biobank, uma base nacional de dados de indivíduos do Reino Unido, que contém avaliações cognitivas, questionários de saúde mental e dados de neuroimagem, assim como informações genéticas.

O sono é importante para a saúde física e psicológica, além disso, tem uma função neuroprotetora através da eliminação de resíduos metabólicos do cérebro, escreveram o primeiro autor Yuzhu Li, da Universidade Fudan, na China, e colaboradores.

A população do estudo era composta por 498.277 participantes, entre 38 e 73 anos, que preencheram questionários eletrônicos sobre duração do sono entre 2006 e 2010. A média de idade no início do estudo era de 56,5 anos, 54% dos participantes eram mulheres e a média de duração do sono foi de 7,15 horas.

Os pesquisadores também analisaram registros de neuroimagem e dados genéticos de 39.692 participantes em 2014 para avaliar as relações entre duração do sono e estrutura cerebral, e entre duração do sono e risco genético. Além disso, 156.884 participantes preencheram um questionário on-line de acompanhamento da saúde mental entre 2016 e 2017 para avaliar o impacto longitudinal do sono sobre a saúde mental.

Tanto o sono excessivo quanto o insuficiente foram associados ao declínio do desempenho cognitivo, fato evidenciado pela curva em U encontrada pelos pesquisadores nas análises de dados utilizando associações quadráticas.

Funções cognitivas específicas, como capacidade de fazer pares, criação de trilhas, memória prospectiva e tempo de reação, foram prejudicadas significativamente pelo excesso ou pela privação do sono, disseram os pesquisadores. "Isso demonstrou a associação positiva do sono com duração tanto insuficiente quanto excessiva a um desempenho inferior em tarefas cognitivas."

Quando os pesquisadores analisaram a associação entre duração do sono e saúde mental, a duração do sono também apresentou uma associação em U a sintomas como ansiedade, depressão, sofrimento mental, mania e automutilação, enquanto a associação ao bem-estar apresentou uma curva em U invertido. Todas as associações entre duração do sono e saúde mental foram estatisticamente significativas após ajustes para variáveis de confusão (P < 0,001).

Em análises posteriores (utilizando testes do tipo “duas linhas”), os pesquisadores determinaram que uma duração de sono constante de aproximadamente sete horas por noite se mostrou ideal para o desempenho cognitivo e para a boa saúde mental.

Os pesquisadores também utilizaram dados de neuroimagem para examinar a relação entre duração do sono e estrutura cerebral. De forma geral, as maiores mudanças foram observadas nas regiões do cérebro envolvidas no processamento cognitivo e na memória.

"Os volumes corticais mais significativos associados de forma não linear à duração do sono foram o giro pré-central, o giro frontal superior, o córtex orbitofrontal lateral, a parte orbital do giro frontal inferior, o polo frontal e giro temporal médio", escreveram os pesquisadores (P < 0,05 para todos).

A associação entre a duração do sono e a função cognitiva diminuiu em indivíduos com mais de 65 anos, em comparação com indivíduos com cerca de 40 anos, o que sugere que a duração de sono ideal pode ser mais benéfica na meia-idade, observaram os pesquisadores. No entanto, não foi observado um impacto semelhante da idade sobre a saúde mental. No caso da estrutura cerebral, a relação não linear entre a duração do sono e os volumes corticais foi maior nos indivíduos com idade entre 44 e 59 anos, gradualmente atingindo um platô com o avançar da idade.

Pesquisa corrobora discussões sobre sono com pacientes 

"Médicos da atenção primária poderiam utilizar esse estudo em suas discussões com pacientes de meia-idade e mais velhos para recomendar uma duração de sono ideal e medidas para atingir essa meta de sono", disse em uma entrevista o médico especialista em medicina interna Dr. Noel Deep, dos Estados Unidos, que não participou do estudo.

"Este estudo é importante, pois demonstra que tanto o padrão de sono inadequado quanto o excessivo foram associados a alterações cognitivas e de saúde mental", disse o Dr. Noel. "Ele também corroborou observações prévias de que o declínio cognitivo e transtornos de saúde mental estão associados a distúrbios do sono. Além disso, este estudo foi peculiar, pois forneceu dados embasando uma duração ideal de sono de sete horas e os efeitos deletérios tanto do sono insuficiente quanto do excessivo.

"O pensamento habitual era presumir que indivíduos mais velhos talvez não necessitassem da mesma quantidade de sono que indivíduos mais jovens, porém esse estudo corrobora um período ideal de sete horas de sono que beneficiaria os mais velhos. Também foi interessante observar os efeitos na saúde mental causados pelo sono inadequado ou excessivo", acrescentou.

Já com relação a pesquisas adicionais, "eu gostaria de analisar a qualidade do sono, além da duração", disse o Dr. Noel. Por exemplo, se o sono excessivo foi ou não causado por um sono de qualidade ruim, ou um sono fragmentado levando ao declínio cognitivo estrutural e subsequente.

Limitações do estudo 

"O estudo atual se baseou em autorrelatos de duração do sono e não houve observação e registro de dados", observou o Dr. Noel. "Também seria benéfico depender não apenas de voluntários saudáveis relatando a duração do sono, mas também obter dados do sono de indivíduos com distúrbios cerebrais conhecidos."

Os achados do estudo foram limitados por diversos outros fatores, como o uso apenas da duração total do sono, sem outras mensurações de higiene do sono, observaram os pesquisadores. São necessárias mais pesquisas para investigar os mecanismos envolvidos na associação entre o sono excessivo e insuficiente e o comprometimento da saúde mental e da função cognitiva.

O estudo foi apoiado pelo Programa Nacional de P&D da China, pelo Projeto Principal de Ciência e Tecnologia Municipal de Xangai, pelo Centro de Ciência Cerebral e Tecnologia Inspirada no Cérebro de Xangai, pelo Projeto 111, pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China e pelo Programa de Estrelas em Ascensão de Xangai.

Os autores informaram não ter conflitos de interesses. O Dr. Noel Deep informou não ter conflitos de interesses, porém atua no conselho editorial do Internal Medicine News.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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