TDAH é o quadro mais prevalente em crianças e adolescentes que buscam atendimento nos CAPSi

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

12 de maio de 2022

Quais doenças psiquiátricas são mais frequentes nos serviços públicos de saúde mental do Brasil? Buscando responder a essa pergunta e, ainda, comparar as características clínicas e epidemiológicas da população atendida nos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) de diferentes regiões do país, pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) – Instituto Gonçalo Moniz Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Bahia analisaram dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Os resultados foram publicados em março no periódico International Journal of Population Data Science.[1] A autora da pesquisa, Dra. Jacyra Araujo, médica psiquiatra do Cidacs/Fiocruz, falou ao Medscape sobre o trabalho.

Detalhes do estudo

Os autores identificaram que, entre 2008 e 2012, foram prestados 1.120.141 atendimentos psiquiátricos a menores de 18 anos nos serviços de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. A média de idade dos pacientes era de 11 anos. A faixa etária que recebeu mais atendimentos foi a de 8 a 12 anos.

Segundo a Dra. Jacyra, a quantidade de atendimentos verificados na pesquisa é inferior à estimativa de prevalência nacional de transtornos psiquiátricos entre menores de 18 anos no período avaliado, de mais de 7 milhões de casos. Este, que não foi o objeto de estudo da equipe, e o resultado não causou surpresa. Segundo a médica, um estudo publicado em 2014 no periódico PLOS ONE [2] mostrou que, no Brasil, apenas 19,8% das crianças e adolescentes com alguma doença psiquiátrica receberam tratamento nos 12 meses anteriores ao período estudado. “Para compararmos, um estudo feito nos Estados Unidos, publicado em 2013, encontrou que 45,3% dos menores [de 18 anos] com algum transtorno mental haviam recebido tratamento no ano anterior”, [3] destacou.

Quanto às doenças mais frequentes, a pesquisa aponta que o transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) foi o mais comum. Para a Dra. Jacyra, isso não significa que o TDAH seja o transtorno psiquiátrico mais prevalente entre crianças e adolescentes no Brasil. A médica lembrou que estudos recentes de prevalência mundial de transtornos psiquiátricos na infância mostram que o transtorno de ansiedade aparece em primeiro lugar. Contudo, a pesquisa do Cidacs identificou que as doenças que, de acordo com Classificação Internacional de Doenças (CID-10), compõem o bloco F90-F98, o que inclui o TDAH, são os principais motivos de consulta nos serviços do SUS.

De acordo com a Dra. Jacyra, o resultado não indica a presença de diagnósticos excessivos/prescindíveis de TDAH, visto que a literatura aponta que o transtorno acomete cerca 2 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. “Provavelmente, o que ocorre é que esses quadros são mais facilmente identificados por educadores e familiares e, portanto, encaminhados com maior frequência para tratamento”, destacou, lembrando que transtornos como ansiedade e depressão são mais difíceis de serem detectados, pois seus sintomas são marcados por introspecção, são internalizantes.

Ao analisarem os dados por região brasileira, os autores observaram diferenças importantes. Na região Nordeste, a maioria das consultas realizadas envolveu diagnósticos do bloco de deficiência mental (F70-F79 da CID-10). Já na região Sul, houve, proporcionalmente, uma alta frequência de consultas para transtornos do humor (bloco F30-F39 do CID 10), enquanto no Sudeste notou-se uma alta porcentagem de consultas para transtornos do espectro autista (bloco F80-F89 do CID-10).

Segundo a Dra. Jacyra, essas diferenças são resultado de diversidades regionais na implantação dos serviços psiquiátricos, principalmente os CAPSi. Também refletem diferenças em investimentos na formação dos profissionais, o que resulta em maior dificuldade de realizar diagnósticos mais especializados (p. ex.: de transtorno do espectro autista) em alguns cenários, e diferenças no acesso da população aos serviços.

Para a médica, os dados levantados pelo grupo podem ser úteis para nortear investimentos governamentais e apontar para os gestores em saúde áreas de deficiência no desempenho dos serviços. “Pouco se estuda no Brasil sobre o desempenho dos CAPS. Nosso estudo vem contribuir com mais informações sobre o funcionamento dos mesmos”, ressaltou.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....