'Saí do sofá': um relato em primeira mão da fronteira da Polônia com a Ucrânia

Daniela Ovadia

Notificação

11 de maio de 2022

Quando fui de carro para Milão com um paramédico da Defesa Civil e um neurologista do Ospedale Niguarda para Przemysl (pronuncia-se Pshemishl), uma cidade perto da fronteira entre a Polônia e a Ucrânia, eu não tinha especiais expectativas, além de combater o sentimento de impotência que havia se apoderado de mim ao assistir a guerra do sofá na minha sala.

Nossa tarefa era entregar um pacote de medicamentos doados pela Università di Pavia, na Itália, e por algumas pessoas físicas para o centro de triagem de refugiados localizado na cidade polonesa.

Até mesmo o destino foi quase aleatório: entrei em contato com uma associação de escoteiros que administra uma pequena creche dentro do centro de refugiados, serviço que permite às mães, exaustas pelos dias de viagem e que precisam de tempo para tirar documentos e registrar pedidos de asilo, deixarem seus filhos por algumas horas em mãos confiáveis.

A estrada de Milão até a fronteira ucraniana é longa: leva cerca de 19 horas, incluindo as paradas, atravessando Áustria, Hungria, República Checa e toda a Polônia.

Nem eu, que trabalho como editora na Univadis Itália e como pesquisadora em uma universidade, nem o médico que viajava comigo, tínhamos experiência com trabalho voluntário em campo na medicina, mas ouvimos dizer que o número de refugiados continuava aumentando e que qualquer pessoa com algum tipo de experiência médica era bem-vinda. Uma semana de férias, junto com os feriados da Páscoa, nos pareceu a oportunidade perfeita para ver se poderíamos ser úteis, nem que fosse somente para distribuir roupas e alimentos quentes.

A cidadezinha do voluntariado

O que aconteceu: não chegamos a tempo para nos registrarmos como voluntários no centro de refugiados para o qual o nosso contato local nos chamou. Uma ONG franco-israelita, a Rescuers Without Borders , que administra a tenda médica na barreira da fronteira da Ucrânia com Medyca, uma cidade vizinha, buscava com urgência médicos que pudessem cobrir alguns plantões. Topamos mesmo antes de entender exatamente no que estávamos nos metendo: depois da liberação de nossas credenciais profissionais, a gente se viu em uma tenda militar, montada na própria cancela da fronteira, em uma plataforma de madeira sobre a lama. Ao lado, a grande tenda administrada pela mesma ONG para dar abrigo de emergência para mulheres e crianças cansadas demais para continuar até o centro de refugiados: um lugar intermediário, no qual as pessoas permanecem por um, no máximo dois dias.

O ambulatório em Medyca faz parte de uma espécie de "cidadezinha do voluntariado", uma longa linha de tendas e toldos que margeiam a estrada ao longo da fronteira. Quem vem a pé da Ucrânia, com malas e animais a reboque, necessariamente passa por ali. Entre os voluntários, há os que distribuem roupas quentes (as temperaturas, mesmo com sol, são muito frias e as pessoas que atravessam a fronteira muitas vezes ficaram pelo menos oito horas seguidas em pé na fila para passar pelo controle na fronteira), os que oferecem comida e bebida (em particular uma ONG estadunidense chamada World Central Kitchen, que faz um trabalho benemérito tanto nos centros de refugiados como na própria Ucrânia) e os que distribuem cartões SIM gratuitos disponibilizados para os refugiados pelas maiores empresas de telefonia europeias.

Mulheres, crianças e idosos

Do ponto de vista médico, os que trabalham no local têm à disposição uma farmácia básica, com produtos classificados de acordo com os códigos das Nações Unidas para emergências: anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, insulina, alguns hipoglicemiantes orais, antibióticos de amplo espectro, pomadas dermatológicas, anticonvulsivos (essencialmente, fenobarbital e carbamazepina), corticoides e diversos ansiolíticos, bem como formulações pediátricas dos medicamentos mais comuns. Completando o equipamento, um kit de emergência que felizmente não precisamos usar e um desfibrilador semiautomático.

Na fronteira, passam principalmente mulheres com crianças (muitas vezes muito pequenas) e idosos.

A maioria dos casos que atendemos foi de doenças crônicas: diabéticos ou hipertensos que ficaram sem seus medicamentos durante a viagem e, em alguns casos, durante mais tempo, se estivessem vindo das zonas de guerra.

Os transtornos da ansiedade são frequentes, com dispneia ou verdadeiras crises de pânico. Além disso, a maioria das mulheres só se dá conta de que perdeu sua casa quando chega em um país estrangeiro, tendo deixado marido e companheiro do outro lado da barreira, bloqueados na Ucrânia pelo recrutamento geral. Não ajuda a aceitar o futuro o fato de, mesmo que as tendas do abrigo sejam acolhedoras e equipadas, a pessoa tenha que dormir em camas improvisadas, coberta com lençóis e cobertores usados.

Os idosos, por sua vez, apresentam forte dor articular e muscular, muitas vezes causada por dias ou semanas dormindo em camas improvisadas em porões frios para se proteger das bombas. Eles costumam estar desidratados e descompensados.

Em dois casos, tivemos de lidar com ferimentos de guerra. Uma mulher, vindo da estação de Kramatorsk, que foi bombardeada pelos russos durante o transporte de um trem de refugiados, chegou com uma atadura enfaixando um pé vermelho azulado, claramente infectado e edematoso. É provável que um fragmento de metal ou outro material tenha penetrado o pé, já que outros fragmentos tinham permanecido colados na sua veste pelo calor da propulsão. Tudo o que pudemos fazer foi administrar um antibiótico intravenoso e enviá-la para a Cruz Vermelha Polaca, torcendo para que eles pudessem ao menos fazer um raio X.

Um jovem, por outro lado, mostrou um clássico edema de explosão, tratado pelos paramédicos com bandagem compressiva.

Ninguém está pronto para tratar feridas de guerra, menos ainda quando você nunca recebeu nenhum preparo específico. Os médicos que trabalham nestas estruturas temporariamente administradas por ONG têm diferentes especialidades, quase sempre clínicas, provenientes do mundo inteiro (trabalharam conosco um médico indiano, dois estadunidenses, dois israelitas e um francês). Se disponibilizam por curtos períodos, de 10 dias a três semanas, e têm à sua disposição um equipamento básico, que é inadequado para verdadeiras emergências. Esta experiência também serviu para que eu compreendesse a escassez, na formação dos médicos italianos, de capacitação para o atendimento de grandes emergências e o quão precioso isso seria, não só em condições extremas como na guerra.

Falta de medicamentos

Um problema generalizado foi a falta de medicamentos. Os kits recomendados pelas Nações Unidas contêm substâncias básicas que sequer cobrem remotamente o amplo espectro de prescrições anteriores com as quais nossos pacientes chegavam ao ambulatório. Nem sempre é possível substituir um medicamento por outro ou, pelo menos, não é possível fazê-lo sem um período adequado de observação e superposição que não tínhamos disponível.

O caso mais complexo que atendemos foi o de uma jovem epiléptica que teve uma convulsão na fila da fronteira. Não tínhamos seu medicamento disponível e, por um golpe de sorte e pela tenacidade de alguns voluntários, que foram literalmente à caça do medicamento em todas as unidades médicas da região, conseguimos algumas doses. A moça estava viajando com seu filho de 10 anos e, depois de passar uma noite em observação na barraca médica, retomou sua jornada até a Alemanha.

Muitas vezes, ao escolher um tratamento, também tivemos de considerar as responsabilidades dos pacientes: no caso de mães sozinhas, com uma ou mais crianças, você não pode administrar substâncias que alterem o estado de consciência ou induzam sonolência, como benzodiazepínicos, porque, infelizmente, já houve casos de abuso infantil e não há trabalhadores suficientes para cuidar dos mais jovens durante o período de repouso dos pais.

Não há medicamentos especiais disponíveis, mesmo quando salvam vidas. Tivemos de ajudar um paciente miastênico que rapidamente mostrou sinais de piora e dificuldade de deglutição. Para evitar a entubação em caso de comprometimento dos músculos respiratórios, o enviamos ao hospital da cidade, esperando que ao menos tivesse fisiostigmina. Não sabemos o que aconteceu com o paciente, mas o tradutor que o acompanhou nos contou que ele foi recebido rapidamente e sem empatia pela equipe local, o que é compreensível, se pensarmos que todo o sistema de saúde polaco nas cidades fronteiriças está desmoronando, com os profissionais de saúde esgotados. Em Przemysl, por exemplo, que em tempos normais tem cerca de 60.000 habitantes, há um mês e meio recebe cerca de 3.000 refugiados por dia, muitos dos quais precisam de assistência médica.

A covid-19 que não existe

A covid-19 é um problema de saúde, mas ninguém cuida disso. O centro de refugiados, criado num grande centro comercial desocupado, é o lar de cerca de 4.000 pessoas, distribuídas no que antes eram várias lojas, cada uma marcada com uma bandeira que indica o país de destino. Em geral, não há janelas nem luz natural e, é claro, não há sistemas de ventilação eficientes. Os colchões ocupam cada espaço livre e atravancam os corredores.

Somente os voluntários fazem o teste rápido de antígeno no momento da certificação e nunca mais. O uso de máscaras inexiste, mas seria quase impossível nesse tipo de ambiente. Quase todos os voluntários já foram infectados ou contam com o fato de que serão infectados em breve.

No geral, a experiência foi mais forte e intensa do que o esperado. Não sei se conseguimos realizar nossa intenção de ajudar: o que é certo é que o âmbito de melhora, pelo menos no que se refere ao atendimento médico básico, é amplo e seria necessária uma melhor coordenação entre as ONG, o sistema de saúde local e os países de destino dos refugiados, especialmente para dar o apoio adequado aos casos mais complexos.

O aspeto psicológico, embora essencial para evitar a consolidação de transtorno do estresse pós-traumático, só é levado em consideração por voluntários, cuja competência é, no entanto, limitada. Deste ponto de vista, seria necessária uma melhor coordenação das intervenções profissionais, sob a orientação de especialistas em emergência.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Univadis Medscape Professional Network.

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