Poluição atmosférica: um gatilho para crises convulsivas em pacientes com epilepsia

Pauline Anderson

Notificação

11 de maio de 2022

Concentrações elevadas de monóxido de carbono (CO) resultantes da poluição atmosférica podem aumentar risco de crises convulsivas, sugere novo estudo.

A relação entre a exposição diária ao monóxido de carbono em ambientes externos e o risco de crises convulsivas foi especialmente evidente no caso de crises subclínicas, ou seja, que ocorrem em pacientes com eletroencefalograma (EEG) alterado, porém sem sinais e sintomas clínicos.

"Nossos achados sugerem que pessoas com epilepsia devam evitar a exposição intensa ao monóxido de carbono para reduzir o risco potencial de crises convulsivas", disse ao Medscape a pesquisadora responsável, Zhuying Chen, candidata a PhD, do departamento de engenharia biomédica da University of Melbourne, na Austrália.

O estudo foi publicado on-line em 8 de abril no periódico Epilepsia.

Impacto da poluição na saúde cerebral 

Evidências recentes indicam que a poluição atmosférica afeta a saúde cerebral e pode aumentar o risco de hospitalização ou consultas ambulatoriais por epilepsia. No entanto, pouco se sabe sobre o efeito da poluição sobre a ocorrência de crises convulsivas.

O estudo utilizou dois conjuntos de dados, independentes e de longo prazo, sobre crises convulsivas: o estudo NeuroVista e o aplicativo Seer App, que funciona como um diário de crises. No estudo NeuroVista, pesquisadores registraram de forma contínua o eletroencefalograma intracraniano de pacientes com epilepsia focal refratária, os quais receberam um dispositivo individual de monitoramento de crises convulsivas para registrar as crises em um dispositivo externo através de uma rede sem fio.

O conjunto de dados baseado nos diários de crises incluiu diários com registros autorrelatados de crises convulsivas, ciclos de crises e adesão aos medicamentos.

Os pesquisadores coletaram dados sobre as concentrações de monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio (NO2), material particulado com diâmetro menor ou igual a 10 μm (PM10), ozônio (O3) e dióxido de enxofre (SO2) em ambientes externos de hora em hora. Os níveis foram mensurados em estações de monitoramento da qualidade do ar na Austrália.

Os pesquisadores reuniram os dados das observações de hora em hora na forma de média diária. Todas as concentrações diárias de monóxido de carbono e dióxido de enxofre, além de pelo menos 95% das concentrações diárias de dióxido de nitrogênio, ozônio e material particulado estavam conforme os padrões australianos de qualidade do ar, disse a pesquisadora Zhuying.

O estudo incluiu 49 participantes, com dados sobre epilepsia de 15 pacientes do estudo NeuroVista e de 34 pacientes do conjunto de dados dos diários de crises.

Ao todo, foram registradas 6.692 crises convulsivas em 3.639 dias com crises durante 23.349 dias de acompanhamento nos períodos de 2010 a 2012 (conjunto de dados do estudo NeuroVista) e de 2018 a 2021 (conjunto de dados dos diários de crises).

Os pesquisadores constataram uma associação positiva significativa entre as concentrações de monóxido de carbono e o risco de crises convulsivas. O risco relativo (RR) foi de 1,04 (intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,01 a 1,07; P < 0,01) para um aumento de um intervalo interquartil do monóxido de carbono (0,13 partes por milhão).

Diferenças entre os sexos 

Não houve associações significativas para os outros quatro poluentes atmosféricos. No entanto, a pesquisadora Zhuying observou que a Austrália tem níveis muito baixos de poluição atmosférica, sendo a maioria deles conforme os protocolos de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde.

"Nossos achados talvez não possam ser generalizados para outros países com altos níveis de poluição atmosférica", disse Zhuying. A pesquisadora observou que o número relativamente pequeno de pacientes no estudo poderia limitar o poder estatístico para detectar algumas associações.

O estudo mostrou que mulheres tiveram um aumento significativo do risco de crises convulsivas quando expostas a concentrações elevadas de monóxido de carbono (RR de 1,05; IC 95% de 1,01 a 1,08; P < 0,05) e de dióxido de nitrogênio (RR de 1,09; IC 95% de 1,01 a 1,16; P < 0,05). Não houve associações significativas em homens para nenhum dos poluentes atmosféricos.

Diferenças em atividades ao ar livre e comportamentos como tabagismo e prática de exercícios físicos podem ter levado a variações na exposição ambiental e ajudam a explicar as diferenças entre os sexos, disse a pesquisadora Zhuying. Essas diferenças também podem ser decorrentes do tamanho limitado da amostra do estudo.

Analisando os dois conjuntos de dados separadamente, houve uma associação significativa entre a concentração de monóxido de carbono e o risco de crises convulsivas no conjunto de dados do estudo NeuroVista (RR de 1,10; IC 95% de 1,03 a 1,17; P < 0,01).

Não houve associações significativas no conjunto de dados dos diários de crises para nenhum dos poluentes atmosféricos. Isso pode ter ocorrido porque apenas as crises convulsivas clínicas, ou seja, as associadas a sinais e sintomas evidentes, foram autorrelatadas, disse a pesquisadora Zhuying, que também pontuou que os diários de crises podem não ser confiáveis.

No conjunto de dados do estudo NeuroVista, o risco de crise epiléptica convulsiva relacionado ao aumento de intervalo interquartil da concentração de monóxido de carbono aumentou de forma significativa quando apenas as crises convulsivas subclínicas foram consideradas (RR de 1,20; IC 95% de 1,12 a 1,28; P < 0,001).

O risco de crises convulsivas subclínicas teve uma redução significativa de 13% com o aumento de intervalo interquartil do material particulado e uma redução de 9% com o aumento de intervalo interquartil das concentrações de dióxido de enxofre.

Essas associações negativas devem ser interpretadas com cautela, visto que elas não se mostraram fortes em análises subsequentes de subgrupo e sensibilidade, disse a pesquisadora Zhuying.

Não houve associações significativas para nenhum poluente atmosférico quando foram consideradas as crises convulsivas clínicas.

A associação positiva para as crises convulsivas subclínicas, mas não para as crises convulsivas clínicas, sugere que o baixo nível de exposição ao monóxido de carbono possa não ser forte o suficiente para desencadear diretamente crises convulsivas clínicas, disse a pesquisadora Zhuying.

Apesar de pesquisas anteriores terem demonstrado os efeitos neurológicos prejudiciais da exposição aos poluentes atmosféricos, a maioria dos estudos baseou-se em bancos de dados ou registros hospitalares. Sendo assim, esses estudos podem ter deixado de analisar crises convulsivas que não levaram à internação hospitalar.

Mecanismo obscuro 

Os mecanismos exatos que ligam a poluição atmosférica às crises convulsivas são obscuros, mas provavelmente envolvem a interação sinérgica de múltiplas vias, disse a pesquisadora Zhuying.

"A poluição atmosférica pode afetar o metabolismo cerebral, alterar a resposta imunitária do cérebro e induzir o estresse oxidativo e a neuroinflamação, fazendo com que o cérebro fique mais suscetível a crises convulsivas", observou.

Este é o primeiro estudo a investigar as taxas de ocorrência de crises convulsivas através de sinais intracranianos de eletroencefalograma e de diários de crises autorrelatadas. Também é o primeiro a analisar o impacto de poluentes em baixas concentrações sobre crises convulsivas subclínicas.

Todavia, o estudo apresenta algumas limitações. As crises convulsivas autorrelatadas no conjunto de dados dos diários de crises podem subestimar a influência da poluição atmosférica sobre as crises. Além disso, o estudo utilizou códigos postais como indicadores indiretos de exposição à poluição, o que poderia induzir a erros de aferição e subestimar as associações.

Além disso, a pesquisadora Zhuying observou que as crises convulsivas do conjunto de dados do estudo NeuroVista foram registradas a partir de pacientes com epilepsia focal resistente a medicamentos. "São necessárias mais pesquisas para avaliar se nossos achados podem ou não ser generalizados para outros tipos de epilepsia."

O estudo pode ter importantes implicações clínicas e de saúde pública. Por exemplo, disse a pesquisadora, é possível que o risco de crises convulsivas possa ser reduzido por intervenções comportamentais, como evitar permanecer em ambientes externos ou utilizar um sistema de filtração do ar quando os níveis de poluição atmosférica estiverem elevados.

"Os médicos poderiam orientar seus pacientes a evitar o risco potencial de alta exposição ao monóxido de carbono", disse a pesquisadora Zhuying.

A exposição ao monóxido de carbono poderia ser um novo fator para a previsão do risco de crises convulsivas, o que poderia reduzir a incerteza das crises e ajudar a orientar o tratamento da epilepsia, acrescentou a pesquisadora Zhuying.

O estudo foi apoiado pelo Melbourne Monash Consciousness Research (MMCR) Seed Funding e por um subsídio do programa "Ideas" do Australian National Health and Medical Research Council. A pesquisadora Zhuying Chen informou não ter conflitos de interesses.

Epilepsia. Publicado on-line em 8 de abril de 2022. Texto completo

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