Doença autoimune da mãe aumenta risco de transtornos mentais na prole

Heidi Splete

Notificação

10 de maio de 2022

Transtornos mentais são significativamente mais frequentes em crianças cujas mães têm uma de cinco doenças autoimunes comuns, segundo novo estudo.

Pesquisas anteriores vincularam doenças autoimunes maternas e paternas a transtornos mentais específicos, como transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), mas a maioria desses estudos se concentrou em doenças específicas e em populações relativamente pequenas. O novo estudo, cujos achados foram publicados no periódico JAMA Network Open, incluiu dados sobre mais de dois milhões de nascimentos, tornando-o um dos maiores esforços até o momento para investigar essa associação, de acordo com os pesquisadores.

As evidências anteriores da possível associação entre certas doenças autoimunes maternas e transtornos mentais na prole são "dispersas e limitadas", o que "prejudicou a compreensão geral" da ligação, disse ao Medscape a Dra. Fei Li, médica e autora correspondente do estudo.

A Dra. Fei, da Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai, na China, e seus colaboradores revisaram dados de uma coorte dinamarquesa de registro de nascimentos únicos com até 38 anos de acompanhamento. Os pesquisadores exploraram associações entre uma série de doenças autoimunes maternas diagnosticadas antes do parto e o risco de transtornos mentais em crianças na primeira infância até o início da idade adulta.

A população do estudo consistiu em 2.254.234 nascimentos e 38.916.359 pessoas-ano. Os dados sobre saúde mental foram coletados do Registro Central de Pesquisas Psiquiátricas e do Registro Nacional de Pacientes do país. A mediana de idade das crianças no momento da avaliação foi de 16,7 anos; aproximadamente metade era do sexo masculino.

Um total de 50.863 crianças (2,26%) nasceu de mães com diagnóstico de doenças autoimunes antes do parto (antes e durante a gravidez). Durante o período de acompanhamento, 5.460 crianças de mães com doenças autoimunes e 303.092 crianças de mães sem doenças autoimunes foram diagnosticados com transtorno mental (10,73% versus 13,76%), de acordo com os pesquisadores.

O risco de ser diagnosticado com um transtorno mental foi significativamente maior entre filhos de mães com qualquer doença autoimune (razão de risco [RR] = 1,16), com uma incidência de 9,38 vs. 7,91 por 1.000 pessoas-ano, relataram os pesquisadores.

O maior risco persistiu quando os resultados foram classificados por sistemas, como endócrino (RR = 1,19), gastrointestinal (RR = 1,11), hematológico (RR = 1,10), nervoso (RR = 1,17), tegumentar (RR = 1,19) e tecido conjuntivo (RR = 1,11).

As cinco doenças autoimunes maternas que foram mais comumente associadas a transtornos mentais em crianças foram diabetes mellitus tipo 1, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose múltipla e psoríase vulgar.

O maior risco para crianças de mães com qualquer doença autoimune foi observado para doenças orgânicas, como delirium , (RR = 1,54), seguidas por transtorno obsessivo-compulsivo (RR = 1,42), esquizofrenia (RR = 1,54) e transtornos de humor (RR = 1,12).

Filhos de mães com qualquer doença autoimune também tiveram risco significativamente maior de autismo (RR = 1,21), deficiência intelectual (RR = 1,19) e TDAH (RR = 1,19).

Os resultados somam-se a evidências de que a ativação do sistema imunitário materno pode causar mudanças no cérebro e problemas comportamentais na prole, achados observados nos estudos com animais, escreveram os pesquisadores.

Entre os potenciais mecanismos subjacentes que precisam ser mais explorados em pacientes com doenças autoimunes que podem afetar o desenvolvimento mental em crianças estão fatores de risco genéticos, transmissão materna de autoanticorpos para o feto durante a gestação e aumento do risco de complicações obstétricas, como parto prematuro, acrescentaram.

Os achados do estudo foram limitados por vários fatores, como a falta de dados sobre a potencial exacerbação da atividade da doença autoimune durante a gestação e seu efeito sobre o feto, observaram os pesquisadores. Outras limitações foram o potencial viés de detecção, a falta de dados sobre transtornos mentais na idade adulta e possíveis mudanças nos critérios diagnósticos durante o longo período do estudo.

Os pontos fortes dos resultados foram o uso de um registro populacional, o grande tamanho da amostra e a capacidade de considerar uma série de fatores de confusão, disseram os pesquisadores.

“Este estudo pode ajudar a obter uma compilação abrangente das associações entre distúrbios autoimunes maternos diagnosticados antes do parto e transtornos mentais da prole desde a infância até o início da idade adulta”, disse a Dra. Fei ao Medscape.

Para os médicos, segundo a Dra. Fei, os achados sugerem que os filhos de mães com doenças autoimunes possam se beneficiar da observação em longo prazo para a identificação de transtornos de saúde mental.

"Novos estudos devem fornecer mais evidências sobre as minúcias das associações entre doenças autoimunes maternas específicas e um espectro completo de transtornos mentais na prole, e mais pesquisas sobre os mecanismos subjacentes também são necessárias", disse a médica.

Preste atenção desde cedo

A Dra. M. Susan Jay, médica e professora adjunta de pediatria no Medical College of Wisconsin, nos Estados Unidos, disse que os esforços anteriores para investigar a associação com a autoimunidade materna foram prejudicados pelos seguintes fatores: desenho do estudo, tamanho pequeno das amostras e autorrelato da história da doença, problemas evitados pela nova pesquisa.

A grande população de pacientes permitiu a análise detalhada de subgrupos de diferentes doenças e desfechos. Outra vantagem foi a disponibilidade de informações sociodemográficas e clínicas, que permitiram a eliminação de fatores de confusão, disse a Dra. Susan, que não participou da pesquisa.

“Seria prudente acompanhar filhos de mães com distúrbios autoimunes diagnosticados antes ou durante a gestação quanto a problemas de saúde mental e, se identificados clinicamente, oferecer opções de apoio psicológico e ao desenvolvimento comportamental”, acrescentou.

Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. Publicado em on-line 15 de abril de 2022. Texto completo

Heidi Splete é uma jornalista médica freelance com 20 anos de experiência. Escreveu para mais de 20 publicações médicas de especialidades e de subespecialidades, bem como para o público geral sobre vários temas. É bacharel em língua inglesa e mestre em jornalismo. Vive em Washington, DC.

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