Postar no Twitter ajuda a aumentar o impacto acadêmico?

Roxana Tabakman

Notificação

9 de maio de 2022

Em um estudo recente, uma estratégia de divulgação de artigos sobre medicina cardiovascular no Twitter foi associada não apenas a aumento da visibilidade on-line, mas também a maior impacto acadêmico. O ESC Journals Study, liderado pelo cardiologista português Dr. Ricardo Ladeiras-Lopes, indica que, independentemente do tipo de artigo, divulgá-lo no Twitter está associado a um aumento de 12% nas citações nos dois anos seguintes. [1]

O estudo randomizado de quase 700 artigos publicados nos periódicos da European Society of Cardiology (ESC) teve um braço de artigos promovidos nas contas da ESC no Twitter e um braço de controle, com artigos que não foram publicados nesta rede social. Os trabalhos foram selecionados de acordo com sua relevância e potencial interesse para a comunidade cardiovascular. Diretrizes, consensos e outros artigos que forneciam recomendações, assim como aqueles divulgados pela imprensa, foram excluídos da pesquisa. No braço de intervenção, foi assegurado acesso grátis ao texto completo por ao menos 24 horas.

O estudo não avaliou apenas a divulgação dos artigos nas contas pessoais dos autores, mas o destaque ativo nas contas da ESC, que, juntas, somam mais de 20 mil seguidores. Assim, os pesquisadores analisaram o impacto na taxa de citações do artigo após a divulgação ativa nas contas da ESC no Twitter versus a presença orgânica na plataforma.

“Em termos práticos, tuitar um artigo científico associou-se a um aumento de 12% do seu número de citações bibliográficas. O valor em si não é tão elevado, após um follow-up mediano de quase três anos, mas reforça a importância do Twitter como ferramenta para a disseminação científica das últimas publicações da medicina cardiovascular”, disse ao Medscape o Dr. Ricardo, que atua no Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e é professor auxiliar convidado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, ambos em Portugal.

O impacto da promoção nas mídias sociais nas taxas de citação é objeto de muitas pesquisas que, por enquanto, não oferecem achados consistentes. Há outros exemplos de correlação positiva entre menções no Twitter e citações acadêmicas, por exemplo, em periódicos de medicina sexual, [2] mas também há estudos que mostram associação muito fraca ou ausência de efeito.

Um ensaio randomizado que avaliou artigos publicados no periódico Circulation que receberam exposição na mídia social não identificou aumento nas visualizações dos artigos. Outros estudos fora do campo cardiovascular não conseguiram confirmar ou demonstraram apenas associações muito fracas do efeito da exposição na mídia social nas taxas de citação dos artigos. [3]

Qualidade + visibilidade

O impacto acadêmico da divulgação nas mídias sociais não é fácil de ser testado. Uma das perguntas sempre é: A divulgação nas mídias sociais aumenta diretamente as citações ou o artigo teria alcançado o mesmo número de citações independentemente, como reflexo da qualidade subjacente do trabalho?

Com mais de 20 mil seguidores no Twitter, o brasileiro Anderson Brito @AndersonBrito_, que posta sobre virologia, epidemiologia e bioinformática, afirma: “Busco sempre utilizar o Twitter para divulgar breves resumos sobre meus trabalhos publicados, bem como interagir e responder perguntas, as quais em geral vêm de colegas da minha área de pesquisa”, diz.

“Desta forma, entendo que meu trabalho passa a ter mais visibilidade, o que pode favorecer citações deste em publicações futuras. Mas divulgar o trabalho em redes sociais não é tudo. O trabalho tem que ser de qualidade, caso contrário não merecerá ser citado. Somando qualidade e visibilidade, pesquisadores podem garantir que seus trabalhos tenham maior impacto não só entre pessoas da área, como também entre membros da sociedade como um todo.”

Outra dificuldade é o tempo: pode levar vários anos para um artigo gerar um número de citações suficiente para a avaliação de seu impacto.

Há grupos que propõem utilizar métricas das mídias sociais como medida do impacto científico. Os cálculos do impacto imediatamente após a publicação (duas a três semanas) do #SoME_Score podem ser usados para prever quais artigos terão alto impacto no futuro. [4]

Mas, até para os mais complexos métodos de previsão de impacto, as potenciais interferências são muitas.

Em 2021, o projeto Science Pulse, que se descreve como “uma ferramenta de social listening desenhada para acompanhar o debate de ciência nas redes sociais”, mapeou a discussão sobre divulgação científica no contexto da pandemia. Foram analisadas 450.906 publicações sobre a covid-19 feitas no Twitter entre novembro de 2020 e novembro de 2021 por mais de 1 mil cientistas, especialistas e organizações científicas do Brasil e do mundo.

Em entrevista ao Medscape, o médico com a melhor colocação no Top 10 Perfis influenciadores no Brasil, [5] Dr. Daniel Dourado @dadourado, afirmou que, “do ponto de vista acadêmico, acho que não provocou nenhuma influência.”

As causas dessa questão podem estar bem distantes da qualidade da produção científica deste médico e advogado brasileiro que faz pesquisas na área da política de saúde e do direito. Suas postagens foram escritas em português em um período que morava na França, as suas publicações acadêmicas foram redigidas em francês e publicadas em revistas francesas. O Dr. Daniel destaca ainda que, na França, o ambiente acadêmico não usa muito o Twitter.

Além da barreira linguística entre as suas bolhas acadêmica e de influência digital, o Dr. Daniel tem ainda outra hipótese para o seu alto impacto digital não gerar impacto acadêmico: “Esse maior engajamento no meu perfil do Twitter é provavelmente porque me envolvi muito na questão política da pandemia.”

Na pesquisa do Science Pulse, a popularidade, que diz respeito à quantidade de seguidores que um perfil possui, foi utilizada apenas como critério de desempate. Os principais influenciadores foram selecionados levando em consideração dois fatores: articulação, que avalia quais perfis são a ponte entre diferentes grupos e têm a maior capacidade de difundir suas mensagens na rede, e autoridade, que demonstra quais são os perfis centrais na difusão de informações na rede.

O médico brasileiro mais alto no sub-ranking específico de autoridade foi o epidemiologista Dr. Otavio Ranzani @otavio_ranzani. No primeiro lugar mundial deste sub-ranking está o Dr. Eric Topol, [5] editor-chefe do Medscape.

Desenvolvimento profissional, networking e educação continuada

A primeira dica da Cartilha de Uso de mídias sociais para cirurgiões cardiotorácicos [6] é identificar o papel que se quer ter nas mídias sociais.

A cartilha indica que as mídias sociais podem ser úteis para chamar atenção para informações recém-publicadas em periódicos que, se não fossem divulgadas, poderiam ser negligenciadas, mas servem também para impulsionar a conexão com colegas, pacientes, população geral, ativistas, imprensa, bem como para combater a desinformação, abordar questões de saúde pública, entre outros fins. Destaca também que as plataformas podem ser utilizadas para aprender e compartilhar melhores práticas clínicas e pesquisas científicas baseadas em evidências, além de network e mentoria.

Segundo o Dr. Ricardo, o Twitter é a plataforma mais adequada para divulgar e discutir o conhecimento médico, ou seja, não apenas para divulgar as novas evidências, mas também para escrutinar as evidências que vão surgindo.

Ele referiu a forte presença no Twitter do Congresso Português de Cardiologia, que ocorreu no fim de semana que precedeu a entrevista. “Isto é regra, todos os congressos promovem esta presença. Isto obviamente facilita a disseminação da ciência que está a acontecer. No congresso do American College of Cardiology, a presença no Twitter é também fundamental.”

Na oncologia, também se promove que os profissionais estejam atentos ao papel das mídias sociais no desenvolvimento profissional, nas oportunidades de networking e, cada vez mais, na promoção acadêmica. Algumas faculdades de medicina dos Estados Unidos, cientes dessas atividades nas redes sociais por parte de seus docentes, as levam em conta para as avaliações de promoção. [7]

O Twitter também é bastante usado para conversas informais sobre temas de interesse comum, porque oferece aos usuários a possibilidade de reunirem-se em uma mesa-redonda virtual (e inclusiva), independentemente da posição acadêmica, clínica ou da localização geográfica do indivíduo.

Com 15,1 mil seguidores, a pneumologista brasileira Dra. Letícia Kawano-Dourado @leticiakawano se diz fã do Twitter. “Foi uma das melhores coisas profissionais que me aconteceram. Faço amigos, network profissional e tenho espaço para minha militância por equidade de gênero – onde encontro gente com interesse e profundidade no assunto semelhantes às minhas!”, escreveu em seu blog .

No blog, ela relata que marcou colegas em um fio de discussão (ou thread, em inglês) para opinar sobre um projeto recém-publicado no periódico NEJM e que um dos coautores entrou na conversa para discutir os pontos controversos do assunto. “Isso não tem preço, esse acesso horizontal a colegas de altíssimo nível que, sem o mundo digital, simplesmente não seria possível. Essa horizontalização nas relações antes hierárquicas está revolucionando as relações de trabalho e de pesquisa (...)”, afirmou a médica na postagem feita em seu site.

Revisão por pares pré e pós-publicação

A divulgação das pesquisas nas mídias sociais facilita a revisão por pares de pesquisas em pré-impressão. Mas também a rápida disseminação dos resultados das pesquisas publicadas funciona como um símil de revisão por pares, porque gera críticas, muitas vezes acompanhadas de opinião e conteúdo especializados. Houve casos em que discrepâncias em artigos publicados foram prontamente identificadas e retificadas devido à postagem de críticas nas mídias sociais. [8]

No entanto, diferentemente do processo de revisão por pares, as mídias sociais não têm verificação de qualidade nem árbitro ou moderador para possíveis disputas científicas. A falta de curadoria, fiscalização e responsabilização em discussões nas mídias sociais faz com que essas ferramentas tanto possam ajudar a divulgar pesquisas baseadas em evidências como a facilitar práticas ou discussões sem evidências, ampliando a desinformação. [6]

“O Twitter obviamente não substitui o processo formal de peer review clássico dos artigos antes da publicação”, afirmou o Dr. Ricardo. Ele comparou a plataforma com a presença em um congresso. “Dentro das participações construtivas há efetivamente um escrutínio e discussões muito interessantes. Não diria propriamente peer review, é uma espécie de peer analysis”.

Mudança de paradigma ou um degrau na evolução do intercâmbio acadêmico ?

Muitas publicações científicas adotaram, além dos métodos clássicos, o Altmetric para medir o desempenho de seus artigos em tempo real no cenário digital. A ferramenta captura o que acontece com várias fontes, considerando não apenas o engajamento nas redes sociais (Twitter, Facebook, LinkedIn, entre outras) mas também o número de visualizações e interações na Wikipedia, em agregadores de notícias, blogs, no YouTube, entre outros. Logicamente, os artigos mais novos têm uma vantagem sobre os mais antigos, e não é possível avaliar a credibilidade ou validade de quem divulga o artigo nas mídias sociais.

Mas, o fato é que, para muitos pesquisadores, publicar o artigo já não é mais o final da linha. Estima-se que a divulgação nas mídias sociais ajude a garantir que o trabalho seja visto e tenha um impacto duradouro, inclusive no campo específico. [6] Representa a transição de um paradigma, no qual o impacto de um artigo científico não fica mais circunscrito apenas ao círculo restritivo de pares, mas a importância do trabalho acadêmico é medida pela influência e o impacto nos círculos acadêmicos e na população em geral. [9]

Ao ser indagado se estamos diante de uma mudança de paradigma na comunicação científica ou se este é apenas um degrau na evolução do intercambio acadêmico, o Dr. Ricardo respondeu: “Acho que são os dois”.

Para o médico, este é mais um passo dentro da evolução, porque há cada vez mais informações, mais evidências, uma comunidade maior, que pretende obter informações muito rápido – cenário pouco provável há 10 anos. “Mas, por um lado, é uma revolução, porque mudou muito a forma de nos comunicarmos, e a forma como nós consumimos informação. Hoje em dia é muito fácil mesmo para alguém não presente em um congresso estar praticamente a par de tudo o que está a acontecer, devido ao grande número de participantes no local que estão a tuitar palestras”, refletiu.

Para o Dr. Ricardo, o Twitter tem tido e vai continuar a ter uma utilidade crescente no mundo científico e acadêmico.

“Eu diria que, de uma forma geral, Twitter é a plataforma que a comunidade científica acha mais adequada para divulgar conhecimento médico e para discussão do conhecimento médico pronto. Isto é a minha opinião pessoal, mas vem em linha com as atividades de muitas sociedades médicas. É um canal preferencial. Vamos ver o que acontece agora que o Elon Musk comprou [a plataforma], mas esperemos que continue pelo menos como está.”

7 dicas para melhorar o uso das mídias sociais

  1. Para impulsionar o compartilhamento e a citação dos artigos, crie imagens, infográficos ou resumos visuais que possam ser facilmente divulgados. O conteúdo multimídia pode aumentar o engajamento, bem como fornecer um ângulo ou perspectiva alternativa ao artigo. Inclua um resumo ‘tuitável’ do artigo para ajudar na retenção da mensagem principal, bem como para fornecer aos seguidores um texto para compartilhar. Incorpore hashtags, marque os autores e as instituições para que possam se envolver na discussão on-line.

  2. Embora a atividade apresente riscos para a sua reputação profissional, estes riscos podem ser atenuados através da abordagem certa. Verifique a precisão das informações e a fonte antes de postar ou compartilhar. Caso seja cometido um erro, certifique-se de que seja corrigido de forma rápida e transparente. Não discuta ou escreva comentários inapropriados, nem poste nada que possa lamentar. Ignorar alguém pode ser a maneira mais simples de não responder a interações não profissionais. Não faça postagens quando estiver irritado, exausto ou embriagado. Lembre-se de que as redes são imediatas, mas também eternas.

  3. Não divulgue nenhuma informação que viole o direito à privacidade dos pacientes. Sempre anonimize imagens e vídeos clínicos, e obtenha consentimento por escrito dos pacientes antes de compartilhar seus dados.

  4. Conheça as políticas de sua instituição sobre a divulgação em mídias sociais e deixe claro se as suas atividades on-line representam a sua instituição ou se são de natureza pessoal.

  5. Seja transparente sobre possíveis conflitos de interesses. Você pode usar a #FCOI (do inglês, financial conflicts of interest) e divulgar um link em seu perfil com informações mais completas.

  6. Poste de forma consciente. Pense em como a informação pode ser recebida e percebida pelo público leigo. Não se deve fornecer aconselhamento médico nas mídias sociais; pacientes solicitando aconselhamento devem ser orientados a procurar atendimento médico.

  7. Considere não apenas "quantas pessoas você conhece", mas também "quem você conhece". Acompanhe conteúdos de organizações respeitadas, grandes revistas da sua área e líderes de opinião. A conexão com um perfil influenciador é mais importante do que com um indivíduo solitário.

Os Drs. Ricardo Ladeiras-Lopes, Daniel Dourado e Otavio Britto informaram não ter conflitos de interesses.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A Saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para Médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). A acompanhe no Twitter: @roxanatabakman.

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