Dieta mediterrânea ligada a menor risco de pré-eclâmpsia

Notificação

9 de maio de 2022

Gestantes com maior adesão a dieta mediterrânea tiveram menor risco de pré-eclâmpsia, segundo resultados de novo estudo.

"Por ser um estudo observacional, obviamente apresenta limitações que precisam ser consideradas, mas seus resultados se somam a outras evidências de que a dieta mediterrânea reduz o risco cardiovascular , as quais se estendem à gestação, visto que a pré-eclâmpsia é um desfecho cardiovascular", disse para o Medscape o Dr. Noel Mueller, Ph.D., professor associado da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado on-line em 20 de abril no periódico Journal of the American Heart Association.

Os autores observam que a pré-eclâmpsia, caraterizada por uma série de sinais e sintomas, como hipertensão arterial, proteinúria e disfunção de órgãos-alvo, é uma disfunção que ocorre em até 5% a 10% de todas as gestantes no mundo inteiro, sendo mais comum nas mulheres negras. É uma das principais causas de morbidade materna e fetal e aumenta o risco de doença cardiovascular tardia, como hipertensão arterial sistêmica crônica, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral isquêmico e insuficiência cardíaca.

Crianças nascidas de mães com pré-eclâmpsia também correm alto risco de ter pressão arterial mais elevada e outros parâmetros cardiometabólicos alterados.

Os pesquisadores indicaram que vários estudos têm demonstrado os benefícios da dieta mediterrânea, caracterizada basicamente pelo alto consumo de vegetais, frutas e gorduras insaturadas, na redução do risco cardiovascular na população não gestante. O estudo em tela foi feito para investigar se os benefícios também poderiam ser observados nas gestantes em termos de redução do risco de pré-eclâmpsia.

Para o estudo, que utilizou dados do estudo Boston Birth Cohort, foram obtidos dados sociodemográficos e alimentares maternos de 8.507 mulheres por meio de entrevistas e questionários de frequência alimentar nas 24 a 72 horas após o parto. Foi calculada uma pontuação para a dieta mediterrânea a partir do questionário de frequência alimentar. Outras informações clínicas, como diagnósticos médicos de doenças preexistentes e pré-eclâmpsia, foram obtidas nos prontuários.

Dentre as mulheres da amostra, 848 tiveram pré-eclâmpsia, das quais 47% eram negras e 28% eram hispânicas.

Após um ajuste multivariável, a maior adesão à dieta mediterrânea foi associada a menor chance de pré-eclâmpsia (razão de chances ajustada [RRa] comparando o 3º tercil ao 1º tercil = 0,78; intervalo de confiança [IC] de 95% de 0,64 a 0,96).

Uma análise de subgrupo de mulheres negras demonstrou benefício semelhante (RRa comparando o 3º tercil ao 1º tercil = 0,74; IC 95% de 0,76 a 0,96).

"Nesta coorte racial e etnicamente diversa, as mulheres com maior adesão à dieta mediterrânea durante a gestação tiveram > 20% de menores chances de ter pré-eclâmpsia, após o ajuste por potenciais confundidores. Além disso, as evidências sobre o efeito protetor da dieta mediterrânea contra as chances de pré-eclâmpsia permaneceram presentes em uma análise de subgrupo de mulheres negras", concluíram os pesquisadores.

Indagado se essas seriam evidências suficientes para recomendar a dieta mediterrânea para as gestantes, o Dr. Noel disse que as organizações que elaboram as diretrizes nutricionais provavelmente iriam requerer a reprodução desses resultados e também, possivelmente, um ensaio randomizado em um grupo populacional diverso antes de preconizar essa dieta.

"Isso é algo que gostaríamos de fazer, mas custará tempo e dinheiro", acrescentou.

A médica e primeira autora do estudo, Dra. Anum Minhas, da Johns Hopkins University School of Medicine, disse que, enquanto isso não acontece, recomendaria a dieta mediterrânea para as suas pacientes gestantes.

"A dieta mediterrânea é uma maneira muito saudável de se alimentar. Eu não consigo ver nenhuma desvantagem de se fazer esta dieta na gestação, especialmente para as mulheres de alto risco (com obesidade, hipertensão arterial sistêmica ou diabetes gestacional ), e há provavelmente outros benefícios potenciais, como redução do ganho de peso e do diabetes gestacional", comentou.

O Dr. Noel afirmou apreciar essa abordagem pragmática. "Às vezes, pode haver uma certa hesitação em fazer recomendações baseadas em estudos observacionais, mas a alternativa a recomendar essa dieta é não recomendar nenhuma dieta ou recomendar outro tipo de dieta", disse o professor. "A dieta mediterrânea ou a dieta DASH, bem semelhante, têm demonstrado de longe a maior evidência de cardioproteção de qualquer dieta. Demonstrou reduzir a pressão arterial e os lipídios e melhorar o risco cardiovascular, e acredito que podemos agora presumir que isso se estenda provavelmente à gestação. Sinto-me confortável com o fato de que essa dieta seja recomendada para gestantes."

Porém, acrescentou: "Dito isto, ainda há necessidade de um ensaio clínico randomizado na gestação. Pensamos que funciona, mas até termos um ensaio clínico randomizado não saberemos com certeza, e não saberemos quanto de benefício podemos obter."

Convidada pelo Medscape para comentar o estudo, a médica Dra. JoAnn Manson, chefe da Divisão de Medicina Preventiva do Brigham and Women's Hospital nos EUA, ressaltou que esse tipo de estudo observacional é importante para a geração de hipóteses, mas não pode provar relações de causalidade.

"As evidências são suficientemente promissoras", disse a Dra. JoAnn, que não participou do estudo. Mas acrescentou que, para avançar, seria necessário um ensaio clínico randomizado em mulheres com alto risco de pré-eclâmpsia, começando no início da gestação, ou até antes.

"Entretanto", observou, "várias coortes em larga escala poderiam ser alavancadas para estudar a dieta antes ou durante a gestação para ver se esse padrão alimentar está relacionado prospectivamente a menor risco de pré-eclâmpsia”.

"Com dados adicionais de suporte e tendo em conta a segurança da dieta e os benefícios cardiovasculares gerais, esta pode vir a se tornar uma ferramenta importante para prevenir desfechos adversos na gestação."

O estudo Boston Birth Cohort foi parcialmente subsidiado por doações de March of Dimes, National Institutes of Health e Health Resources and Services Administration do Department of Health and Human Services dos Estados Unidos. Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

JAHA. Publicado on-line em 20 de abril de 2022. Texto completo

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