Da Rússia, com amor: a história de espionagem científica que está chocando a Itália

Daniela Ovadia; Andrea Capocci (Agenzia Zoe)

Notificação

6 de maio de 2022

A colaboração entre a Itália e a Rússia teve início nos piores dias da primeira onda da pandemia de covid-19. No sábado, 21 de março de 2020, nove aviões russos (embora de acordo com algumas fontes fossem 13) carregados de material médico, profissionais de saúde e de segurança pertencentes às forças armadas russas, aterrissaram no aeroporto militar de Pratica di Mare, perto de Roma. Neste mesmo dia, foram notificados 6.557 novos casos de covid-19 na Itália. Embora possam parecer poucos casos hoje, foi o maior número da primeira onda. Na verdade, naquela época, a capacidade diagnóstica era muito mais limitada do que é hoje: foram analisadas 26.000 zaragatoas, enquanto agora são obtidas cerca de meio milhão de amostras todos os dias. No sábado em questão, foram registradas 793 mortes, embora o número real provavelmente tenha sido muito maior.

Quando a ajuda russa chegou, a Itália encontrava-se em pleno confinamento e enfrentava a sua pior crise sanitária desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Portanto, a missão chamada de "da Rússia, com amor", foi recebida de braços abertos pelas autoridades italianas, dadas as enormes dificuldades daquele momento. As operações russas na Itália ocorreram nas províncias de Bergamo e Brescia, que foram mais atingidas pela pandemia, e duraram quase dois meses.

A invasão russa da Ucrânia voltou a trazer a atenção da mídia para esta missão, por alguns de seus aspectos pouco claros. Uma das questões a esclarecer, por exemplo, é por que a missão tinha mais militares do que profissionais de saúde. Dos 104 participantes, 28 eram médicos (apenas dois deles, civis) e quatro eram enfermeiros. Alguns, como o general comandante da missão, Sergey Kikot, eram especialistas em armas químicas e bacteriológicas, e estavam mais habituados a cenários de guerra do que a epidemias. Além disso, o equipamento médico transportado para a Itália foi de pouco auxílio em uma emergência: embora a Itália necessitasse de dezenas de milhões de máscaras por dia, os navios de carga de Moscou transportaram apenas algumas centenas de milhares. Até os 150 respiradores fornecidos pelos russos se mostraram perigosos e não funcionaram a contento.

Mais para missão de inteligência do que para ajuda humanitária

A equipagem e os participantes da missão sugerem a muitos observadores que a missão também tinha outros objetivos, mais relacionados com a inteligência russa contra um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Do mesmo modo, a intenção inicial dos russos – limpar os gabinetes públicos, não somente hospitais e casas de saúde, mais tarde com o aval da Defesa Civil italiana – também pode sugerir uma missão orientada para espionagem. Os médicos russos tiveram a oportunidade de aprender em primeira mão os protocolos de tratamento da covid-19 na Itália, que na época era provavelmente o país com maior experiência neste campo, depois da China. No entanto, Pequim tinha sido mais zelosa na proteção das informações confidenciais dos seus pacientes.

A missão russa foi imediatamente objeto de atenção e controle, tanto pelos meios de comunicação como pelas instituições. Desde o início, vários meios de comunicação italianos e estrangeiros ligaram a chegada dos russos a uma operação que tinha também objetivos diplomáticos, além dos de saúde. Entre os países da OTAN, a Itália provavelmente é a que tem as relações políticas mais fortes com a Rússia de Putin: partidos nacionalistas como Fratelli d'Italia Lega, Movimento 5 stelle e Forza Italia expressaram reiteradamente o seu apreço pelo presidente russo antes do conflito.

Em 2021, os serviços de informação da Comissão Parlamentar para a Segurança da República (Copasir, Comitato Parlamentare per la sicurezza della Repubblica) fizeram uma investigação para identificar quaisquer ações da missão russa que pudessem comprometer a segurança nacional. De acordo com o relatório anual de 2021 da Copasir, "pelo que foi apurado, a missão russa foi realizada exclusivamente no setor da saúde, com a tarefa de sanear os hospitais e asilos de idosos, e o comboio sempre foi escoltado por veículos militares italianos".

Quebrar a unidade europeia em matéria de vacinas

O jornal Corrieri della Sera, apoiando a teoria da espionagem, salientou que, na criação da vacina russa Sputnik V, foi utilizada uma sequência viral do surto italiano, que teria sido coletada de um cidadão russo recém-chegado ao país de uma viagem a Roma. Com efeito, o cidadão teria visitado a Itália em 15 de março de 2020, ou seja, uma semana antes da chegada da missão russa. Além disso, em 21 de março, a Rússia também registrava centenas de casos de covid-19 por dia. Portanto, não teria sido necessário viajar até a Itália para recolher as amostras biológicas necessárias à criação da Sputnik V.

No entanto, a vacina russa levantou dúvidas sobre a real importância da colaboração em saúde entre a Rússia e a Itália durante a pandemia. Embora a vacina desenvolvida pelo instituto moscovita Gamaleya não tenha recebido a recomendação da European Medicines Agency (EMA), muitos administradores locais, como os presidentes da Lombardia, Veneto, Campânia e Lácio, propuseram a compra de doses independentemente de Bruxelas (opção adotada pela Hungria do primeiro-ministro europeu Orban, mas também foi ventilada por outras potências continentais) ou até a produção da vacina russa na Itália. Em fevereiro-março de 2021, foram feitas muitas declarações nesse sentido, período durante o qual se registraram atrasos na entrega à Itália das outras vacinas adquiridas pela União Europeia. Se a aliança europeia sobre vacinas tivesse sido quebrada nessa altura, os governos da União Europeia teriam competido uns com os outros por doses, sem cumprirem as recomendações da EMA, o que teria aumentado os preços e reduzido a segurança dos cidadãos.

A pedido do Ministro da Saúde da Itália, Alessio D’Amato, a região do Lácio foi mais longe do que as demais, patrocinando uma colaboração científica estável entre o Gamaleya e o Istituto Nazionale per le Malattie Infettive “Lazzaro Spallanzani”, em Roma. Graças a esta colaboração, foram feitos vários estudos, nos quais foi confirmada a eficácia da vacina russa tanto na vacinação primária como na vacinação de reforço. O último, publicado em janeiro de 2022 somente no MedRxiv, sem revisão por pares, demonstraria que "a abordagem mais eficaz é dar uma dose de reforço da vacina, como foi demonstrado noutros estudos, com o uso da vacinação heteróloga com uma primeira dose da vacina Sputnik V", que teria comprovado ser melhor do que a vacina de ARNm da Pfizer .

No entanto, a comunidade científica expressou grandes dúvidas sobre os estudos da vacina russa. Os pesquisadores russos não quiseram compartilhar os dados com os seus colegas, e a origem do financiamento dos estudos era desconhecida. Por fim, uma investigação feita pelo jornal La Stampa revelou que funcionários russos teriam oferecido 250 mil dólares a um diretor sênior do instituto de investigação para iniciar as experiências em Spallanzani. Com o início da invasão da Ucrânia e o endurecimento das sanções contra a Rússia, Spallanzani foi forçado a suspender a cooperação com o Gamaleya.

Alguns meios de comunicação, como o Corriere della Sera, sugerem agora uma ligação entre a missão russa em Bergamo e a colaboração entre Roma e Moscou em relação à vacina, mas não há provas. De todo modo, é razoável pensar que, em ambos os casos, a Rússia utiliza a pandemia e a pesquisa sobre o SARS-CoV-2 para exercer "soft power", ou seja, influenciar a posição internacional da Itália relativamente à própria Rússia sem recorrer à força. Resta comprovar, por meio da investigação ainda em andamento, se este soft power também está relacionado com a manipulação de provas científicas, se houve envolvimento de políticos locais e nacionais com um país já sancionado e se, por fim, houve corrupção entre os gestores do serviço de saúde italiano.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Univadis Medscape Professional Network.

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