Lítio em alta: osteoporose, demência e ganho ponderal

Dr. Sivan Mauer

Notificação

5 de maio de 2022

Neste artigo

3. Uso de lítio e incidência de demência e seus subtipos

Demência é a principal causa de morte e incapacidade em populações ocidentais idosas: aproximadamente 47 milhões de pessoas tiveram demência em todo o mundo em 2015. E este número deve triplicar até 2050, gerando um grande impacto na saúde pública.

Estima-se que retardar o início da doença em cinco anos possa reduzir a prevalência e o impacto econômico da demência em 40%. O lítio foi proposto como uma terapia em potencial, pois apresentou efeitos positivos tanto em modelos celulares como em modelos animais de demência. Também há evidências de efeitos neuroprotetores do medicamento em pesquisas experimentais e estudos clínicos de imagens cerebrais.

Duas metanálises e um subsequente ensaio clínico randomizado sugeriram que o lítio tenha efeitos benéficos no desempenho cognitivo, no comprometimento cognitivo leve e na doença de Alzheimer. No entanto, não está claro se o uso de lítio poderia retardar o início da demência.

Transtorno afetivo bipolar e depressão podem aumentar o risco de demência. Já foram realizados alguns grandes estudos sobre o tema, mas estes trabalhos não foram controlados para o uso concomitante de medicamentos (exceto de psicotrópicos) ou para comorbidades, também não consideraram o risco cumulativo do tempo ou tiveram um acompanhamento curto em relação ao curso até o início da demência.

Uma revisão de 2019 enfatizou que a relação entre o uso de lítio e a incidência de subtipos de demência (em oposição à “demência” como um grupo de doença) não havia sido completamente investigada. Três estudos, feitos na Dinamarca e nos Estados Unidos, sugeriram a possibilidade de efeito cumulativo do lítio ao longo do tempo em termos de modificação do risco de demência. As evidências disponíveis deste possível efeito cumulativo são baseadas em prescrições de lítio ou na breve exposição, de até um ano, ao medicamento. São necessárias análises da exposição prolongada ao lítio.

Neste estudo, o objetivo principal foi avaliar a associação entre o uso de lítio e a incidência de demência e seus subtipos por meio da análise de dados clínicos coletados rotineiramente ao longo de 15 anos, com a verificação de potenciais fatores de confusão. O segundo objetivo foi examinar o grau de associação pela duração do tratamento com lítio. Foi levantada a hipótese de que o uso de lítio estaria associado a uma redução do risco de demência e seus subtipos. E de que esta associação poderia observada tanto diante da exposição prolongada quanto da exposição mais curta ao medicamento.

O estudo avaliou 29.618 pacientes, dos quais, 548 haviam sido expostos ao lítio. (Média de idade: 73,9 anos; sexo: 40,2% de homens; estado civil: 33,3% casados ​​ou em união estável; etnia: 71% de brancos.) Os pacientes expostos ao lítio tiveram mais chances de estarem casados, serem fumantes/ex-fumantes, terem história de uso de antipsicóticos ou de diagnóstico de depressão, mania/transtorno bipolar, hipertensão, doença vascular central, diabetes ou hiperlipidemia.

Não foi identificada diferença significativa entre os dois grupos em relação a outras características, incluindo idade, sexo e transtornos por uso de álcool. Na coorte exposta ao lítio, 53 (9,7%) pacientes foram diagnosticados com demência, dos quais 36 (6,8%) com doença de Alzheimer e 13 (2,6%) com demência vascular.

Na coorte não exposta ao lítio, os números correspondentes foram os seguintes: demência 3.244 (11,2%), doença de Alzheimer 2.276 (8,1%) e demência vascular 698 (2,6%). Após o controle para fatores sociodemográficos, tabagismo, uso de outros medicamentos e comorbidades psiquiátricas ou físicas, o uso de lítio foi associado a menor risco de demência (razão de risco [RR] de 0,56; intervalo de confiança [IC] de 95% de 0,40 a 0,78), incluindo doença de Alzheimer (RR de 0,55; IC 95% de 0,37 a 0,82) e demência vascular (RR de 0,36; IC 95% de 0,19 a 0,69).

O lítio também pareceu protetor tanto entre os pacientes que fizeram uso do medicamento por pouco tempo (≤ 1 ano) quanto por tempo prolongado (> 5 anos).

Para lembrar:

Fica cada vez mais claro o papel do uso do lítio na prevenção e modificação do curso das demências, algo que nenhuma outra droga consegue exercer. Já está mais do que na hora de incorporar o lítio, mesmo em doses muito baixas, ao tratamento das demências. Resta agora que novos estudos determinem a melhor posologia para este fim.

Referência:
Chen, S., Underwood, B. R., Jones, P. B., Lewis, J. R. & Cardinal, R. N. Association between lithium use and the incidence of dementia and its subtypes: A retrospective cohort study. PLOS Med. 19, e1003941 (2022).

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